Ir∴ Luiz Felipe Brito Tavares, médico e escritor, é Obreiro da Loja Luz do Planalto nr. 76 de
São Bento do Sul (GLSC)
Caros Irmãos vos apresento uma reflexão pessoal que não tem peso de verdade, mas de elucubração. Fiquem à vontade em rejeitá-la se ferir vossa lógica.
Qual nossa essência?
Seríamos matéria apenas ou nossa verdadeira essência é transcendente? Se considerarmos o ser como matéria sujeita às leis da física, podemos aguardar um destino entrópico ou de desestruturação consecutiva. Deixaríamos, portanto de existir de forma definitiva ao expirar do último suspiro vital.
Se, no entanto considerarmos nosso ser portador de uma essência transcendente, com certeza escaparia à indiferença do caos entrópico.
A ciência por tratar do mundo físico não busca por elementos que fujam ao seu âmbito de ação. Portanto não podemos nela nos apoiar de forma direta para corroborar a existência do espírito.
Porém se a ciência não busca por evidências transcendentes, tão pouco possui autoridade para negá-las de forma definitiva.
Como então e porque pensarmos nesta possibilidade, a da sobrevivência da consciência após a morte do corpo físico, se a nenhuma evidencia palpável tenhamos acesso?
Mas o que é palpável? Aquilo que pode ser sentido?
E a fé não é percebida de forma clara em nosso intimo?
Sem dúvida a resposta se baseia na fé que em cada um habita e que é o portal a nos permitir não apenas acessar esta possibilidade, mas como também vivenciá-la em nós mesmos como realidade.
Porém a fé é abstrata, como também o espírito. Sendo a fé uma quintessência poderíamos então dizer que nada prova? Ou seja, que é uma ilusão meramente decorrente de uma neuroquímica cerebral extremamente complexa?
Se assim o for então deveríamos abdicar da fé? Ou dar a ela um papel sem importância?
Se desta forma procedermos, teremos que da mesma forma reconsiderar muitos outros elementos que consideramos relevantes em nossas vidas. Que consideramos possuidores de sentido.
Por exemplo, os mais nobres sentimentos seriam somenos reflexos químicos.
O amor sublime dos pais pelos filhos seria apenas reverberação aberrante e sem lugar definido no espaço real.
Os pensamentos mais profundos apenas um volume determinado de bits de informação.
A própria consciência um mero estado cerebral.
Tudo o que creditamos real em essência, deixaria de sê-lo.
O poder de valorar a existência; o sorrir infantil; o agradecer pela esperança que renasce a cada dia em nosso imo; o compartilhar pleno do amor, o próprio amor; o suspirar pela bela natureza...
Tudo isto perderia o significado essencial. Perderia a razão de ser. Elementos não materiais, ou abstratos sem sentido real.
Valores aberrantes não programados pelas leis da natureza.
Por não poderem ser quantificados ou qualificados em suas relações de proporção seriam desmerecidos.
Então seria isto?
Se não podemos transformar em uma equação, não podemos validar! Toda a teia social baseada em valores abstratos deixaria de ser significativa.
Somos então apenas um caminho evolutivo, e todo cabedal de sentimentos nobres nada mais são do que elementos permitidos pela probabilidade, com fins à continuidade da espécie?
O que importa no fim é apenas o garantir da transmissão de genes?
Um paradoxo pensar que esta capacidade magnânima de reconhecer e sentir as galáxias, o universo e as próprias leis da física como elementos preciosos que são, seria de fato um mero mecanismo oriundo da probabilidade evolutiva com fins exclusivos à sobrevivência.
Um efeito colateral da evolução sem espaço de fato a ocupar.
Porém se não existe um espaço de fato a ser ocupado como algo pode existir?
Tudo que existe em essência tem que necessariamente ocupar um espaço. Até as possibilidades só existirão se houver matriz que as sustentem.
Se consideramos que nossos sentimentos, nossas reflexões profundas, e nossa consciência são muito mais que um mero efeito colateral, então temos também que admitir que possa existir um espaço, mesmo que transcendente, para ocuparem.
Um nicho transcendente indica um sentido imanente. Planejamento existente, mas não percebido por olhos pouco experientes.
Conhecemos de fato os espaços existentes em nosso universo e além dele?
Talvez então a fé não seja mera flutuação aleatória, ou melhor, talvez a fé não seja um padrão aberrante; ou mesmo um eco a ser desconsiderado.
Talvez seja um portal previsto em leis ainda não conhecidas que nos permitam de fato e de forma real acessar planos inacessíveis aos experimentos físicos atuais.
Não é difícil hoje para qualquer aluno de segundo grau acessar informações sobre teorias físicas modernas, referentes a muitos universos possíveis além do nosso.
Tais teorias aventam que cada universo seria uma pequena bolha flutuando no que é chamado de grande massa.
Também a informação de que nosso próprio universo possa ter mais do que as quatro dimensões conhecidas está à disposição.
A de que a matéria luminosa que conhecemos ocupa menos que cinco por cento de tudo que existe no universo...
De que a matéria que conhecemos é feita de elementos menores e menores e menores até que sejam considerados apenas vibrações, ou seja, padrões de energia.
Não é difícil então para uma mente criativa imaginar um espaço que acomode de forma real a consciência e toda a profundidade que possuímos. Não apenas que albergue, mas que sustente.
Porém procuremos preservar-nos no mesmo caminho lógico.
Todo movimento demanda espaço. Movimentos de relação, vibrações... Tudo demanda espaço para ocorrer.
Movimentos atendem a gradientes, no sentido do equilíbrio. Seguem o sentido das leis.
Como poderíamos, no entanto classificar os fenômenos da mente?
Como qualificar o movimento de sucessão das palavras e dos sentimentos?
Não atenderiam eles também a gradientes? Não estão sujeitos a regras lógicas e de sentido? Não seguem um caminho determinado e com conseqüências determinadas?
Poderia de fato tudo isto ser apenas uma aberração? Ou a natureza de fato reserva um espaço real para sua existência?
Nenhuma complexidade evolui sem que espaços lhes permitam a ordenação.
Que espaço permitiria a ordenação dos pensamentos e o permutar dos sentimentos?
Pensamentos e sentimentos que refletem a natureza, possuindo liames de familiaridade com o que está ao entorno, de tal forma que pode influir diretamente nesta mesma natureza.
A energia se transmuta e determina movimentos físicos.
Energia presente em sentimentos e pensamentos profundos a modificar o ambiente físico. A ocupar espaços.
Creio com sinceridade do coração que existe um espaço acolhedor para nossa consciência no universo, seja nosso universo conhecido ou outro concomitante.
Porém minha lógica aponta na mesma direção. A possibilidade de um espaço real a preservar nossa consciência encontra ressonância na potencia de nossa humanidade.
Humanidade que busca burilar a pedra bruta em polida, que busca a harmonia e o equilíbrio dos sentimentos e pensamentos. Humanidade que busca conscientemente um sentido imanente.
Justamente tal busca consciente que levou o homem a todas as suas descobertas científicas e a todas suas indagações.
Indagações sobre o sentido por de trás de tudo.
O que antes entendíamos como realidade está sendo sacudido pelo avanço científico.
Porém algo que é difícil para ser entendido pela ciência é a inteireza de uma unidade complexa.
Por exemplo, uma célula viva seria apenas um amontoado de unidades moleculares? Um saco químico, ou algo a mais?
Algo que adquire um centro de coerência responsável pela resposta sinérgica e sincronizada daquela célula aos estímulos que a rodeia. A célula funciona como uma inteireza. Porém onde se localiza este centro comum? Este eixo principal que a tudo mantém em coerência?
SE tentarmos dissecar uma célula buscando seu centro de unidade, iremos chegar a um sem número de fragmentos sem chegar ao cerne.
Seria como dissecar um símbolo transformando em sinais e perdendo sua essência.
Porém onde se localizaria tal essência, se nossa lógica apontar para sua existência?
Se nossa lógica ignorar que existe tal possibilidade, a do complexo adquirir valor de unidade coerente então de fato nada faz sentido no universo. Tudo seria um grande paradoxo sem fim. Um universo que permite tantos patamares sucessivos e interligados de complexidade, sendo que cada um destes patamares depende do patamar anterior e serve ao seguinte, favorecendo que em cada patamar ocorra o emergir da inteireza unitária e coerente como fundamento a toda evolução de complexidade.
Então se nossa lógica não permitir que aceitemos a realidade da inteireza, não restaria nenhum sentido presente.
Já que prefiro não descartar o sentido imanente, então acredito haver um espaço que acolha e sustente tais inteirezas, ou se preferir tal coerência.
Da mesma forma que acolhe inteirezas como aquela dos átomos, das moléculas, das células e dos organismos multicelulares, então também acredito que possa acolher a inteireza coerente de uma consciência.
Um espaço existente e não devassado que coexiste com os espaços que percebemos, onde a fé também possua existência e razão de ser.
A fé é tão abstrata como tudo ao nosso redor, mas é muito mais real do que imaginamos.
Possui sua própria coerência, e que por mais incrível que possa parecer pode ter origem nas mesmas leis estudadas atualmente pela física.
Fonte: JBNews - Informativo nº 310 - 04 de Julho de 2011
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