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PERGUNTAS & RESPOSTAS

O “Perguntas & Respostas” que durante anos foi publicado no JB News e aqui reproduzido, está agora no “Blog do Pedro Juk” . Para visita-lo ou tirar suas dúvidas clique http://pedro-juk.webnode.com/ ou http://pedro-juk.blogspot.com.br

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O DEVER DO MESTRE

Ir∴ José Castellani

Os três graus da Maçonaria Simbólica simbolizam a senda iniciática, quando o candidato, vindo das trevas do Ocidente, caminha, como iniciado, em direção à Luz do Oriente.

A luz, nesse caso, não é aquela originária de corpos materiais, mas, sim, a Luz da Ciência, do Progresso, do conhecimento, simbolizada pelo Sol, o Apolo dos gregos, Mitra dos persas, Rá dos egípcios, a fonte da vida e a causa dos principais mitos religiosos da antiguidade.

Como Aprendiz, o iniciado dedica-se ao desbastamento da pedra informe, da pedra bruta, que é um trabalho material.

Como Companheiro, já lhe cabe um trabalho intelectual, para a concretização da pedra cúbica, como elemento fundamental das construções.

E, finalmente, como Mestre Maçom, cabe-lhe o trabalho espiritual, determinado, claramente, na sua missão de espalhar a Luz, de reunir o que está disperso, de partir do simples para o composto, da causa para o efeito, do princípio para as conseqüências.

Consagrado à firmeza de caráter e à moral intransigente, o grau de Mestre Maçom deve libertar o iniciado das paixões, dos preconceitos e das convenções sociais, para que possa, com plena consciência do seu dever, pesquisar e ir à procura da Verdade.

Morrendo, simbolicamente, para os vícios, para os erros e para as fraquezas humanas, o Mestre renasce com o espírito limpo e puro, no Amor, que lhe dá energia, na Virtude, que engrandece, e na Verdade, que dignifica, para que possa, cumprindo o seu dever de iniciado, que conheceu a Verdadeira Luz, dar o seu quinhão de trabalho pela evolução da Humanidade.

Todas as lições embutidas na ritualística da exaltação ao grau de Mestre, convergem para um ponto comum, através de uma lenda, que mostra o milagre da ressurreição, como o Sol, que renasce, todos os dias, no Oriente, e como os vegetais, que, em seu ciclo eterno e imutável, renascem anualmente, das cinzas de sua morte anual.

Os três graus simbólicos, comuns a todos os ritos, representam, na realidade, a essência total de toda a doutrina maçônica.

Síntese do universo maçônico, eles mostram a evolução racional da espécie humana, ou seja: intuição (Aprendiz), análise (Companheiro) e síntese (Mestre).

O Aprendiz, ainda inexperiente, embora guiado por seus Mestres, realiza seu trabalho de forma empírica, através apenas da intuição, representando o alvorecer das civilizações, marcadas pelo empirismo.

O Companheiro, já tendo um método de trabalho analítico e ordenado, simboliza uma fase mais avançada da evolução da mente humana.

E o Mestre, juntando, através da síntese, tudo o que está disperso, para a conclusão final da obra, representa o caminho derradeiro da mente, na busca da perfeição.

O maçom, ao atingir o grau de Mestre, deverá possuir, já, a plenitude do conhecimento iniciático moral, social e metafísico, necessário e pertinente aos objetivos da Ordem maçônica, restando-lhe, então, o trabalho, sempre constante, na busca da perfeição, nunca atingida, mas sempre buscada, pois ela é o estímulo onipresente, na vida do ser humano.

Terá, então, o Mestre, a humildade de prostrar-se perante os grandes mistérios da vida e os insondáveis escaninhos da Natureza, despojando- se de todas as vaidades, incluindo-se, entre elas, a busca da ascensão, a qualquer custo, numa escala, que, quase nunca reflete um conhecimento apreciável e um desejável mérito pessoal.

Deverá, o Mestre, lembrar-se, sempre, que a verdadeira beleza é a interior, mesmo que o exterior não seja coruscante e não brilhe em faíscas de ouro e prata, pois o maçom, o verdadeiro maçom, o maçom integral, é um Mestre pelas suas qualidades mentais e espirituais e não por sua posição na escala, ou por seus brilhantes paramentos e condecorações.


O hábito não faz o monge, diz a velha sabedoria popular.

E se pode, até, acrescentar que um muar ajaezado de ouro e prata nunca poderá ser confundido com um cavalo de alta linhagem.

Nas Lojas simbólicas, verdadeira e única essência da Maçonaria universal, o iniciado percorre um longo caminho desde as trevas do Ocidente até à Luz do Oriente, tendo o seu lugar de acordo com as suas aptidões e a sua ascensão de acordo com os seus méritos, concretizando as sábias lições da lenda do terceiro grau.

Ele terá o seu aumento de salário depois de um certo tempo de aprendizado e mediante a apresentação de trabalhos, que permitam aquilatar a sua evolução mental e cultural.

A sua ascensão não deverá, nunca, ser devida a favores pessoais, a apadrinhamentos, a rapapés bajulatórios, ou ao poder corruptor dos metais, expedientes, esses, tão comuns na sociedade profana, mas excluídos, pelo menos em suas leis, da verdadeira Maçonaria, desde os seus primórdios, nos velhos tempos em que só existiam Aprendizes e Companheiros, usando um simples avental de couro, símbolo humilde do trabalho, sem as riquezas flamejantes de uma nababesca farrambamba.

Fonte: JBNews - Informativo nº 314 - 08 de Julho de 2011

GIORDANO, O VISIONÁRIO

E. Figueiredo (*)

Que ingenuidade pedir a quem tem poder para mudar o poder! (Giordano Bruno)

Renascimento (ou Renascença) foi caracterizado por profundas transformações no continente europeu. Trata-se de um período de grandes mudanças e conquistas culturais que ocorreram na Europa entre o século XIV e o século XVI, que marca a passagem entre a Idade Média e a Idade Moderna. Os horizontes político-geográficos alargaram-se com os descobrimentos do caminho das Índias e das Américas. O comércio, indústria, classe social e o universo cultural cresceram, e a economia européia deixou de gravitar dentro das limitações dos feudos medievais. Todas as áreas sofreram transformações as quais não se fizeram sem conflitos profundos. Significavam, de maneiras diversas, a derrocada de uma ordem espiritual, social e econômica, que há séculos constituía o cerne da vida no Velho Mundo. Esse período histórico, mais que qualquer outra época, foi verdadeiramente uma transição. Os tradicionais setores ameaçados reagiram e enfrentaram as inovações, por vezes com violência levando à morte alguns representantes da nova mentalidade. E foi o que aconteceu com uma das figuras mais representativas da Renascença italiana, que foi GIORDANO BRUNO. Quando recordamos os heróis da liberdade de consciência e de pensamento é esse o nome que brilha como uma estrela de primeira grandeza entre muitos outros: GIORDANO BRUNO !

Como filósofo, astrônomo e matemático, Giordano Bruno foi importante pelas suas teorias sobre o Universo infinito e a multiplicidade dos sistemas siderais. Foi dono de uma personalidade peculiar: revelador e escarnecedor de superstições e hipocrisias, tanto mundanas como religiosas sem temor de enfrentar os dogmas da época, frade impaciente e rebelde perante os limites internos da sua vocação de regular, filósofo inspirado e polêmico, mas sensível ao conflito das heranças e das vigências culturais. Esteve sempre fascinado em prover, com embasamento filosófico, as grandes descobertas de seu tempo.

Há quem não compreenda o posicionamento de Giordano Bruno e tenta compará-lo a um vadio, um filósofo andarilho ou a um poeta errante, e é incapaz de vinculá-lo, diretamente, à linha do progresso moderno. Mas quem o compreende, sabe que ele foi um pioneiro que acordou a Europa de seu sono intelectual e foi martirizado em virtude de seu entusiasmo. Foi chamado, por Pierre Bayle (1647-1706), de “o cavaleiro errante da filosofia”, tendo sido comparado com Dom Quixote de La Mancha !

Bernardo Spaventa (1817-1883), entretanto, se pronunciou com expressão diferente dizendo que Giordano Bruno era o “arauto e mártir da nova e livre filosofia”.

Muitos tentam associar Giordano Bruno à Maçonaria porque ele acreditava na liberdade, tolerância e no direito de dizer o que se pensa não importando o reino ou o ducado em que o acolhiam. O seu fascínio por formas e maneiras diversas de perceber-se no mundo derivou dele ver o Universo composto por um número limitado de letras elementares em formas geométricas, triângulos, quadrados, círculos e pirâmides, como u´a maneira de encontrar escapes para a crescente opressão teológica exercida pelo catolicismo contra- reformista. No seu entendimento, a antiga e verdadeira filosofia não era feita de dogmas, mas da liberdade de duvidar e indagar, e da liberdade de construir hipóteses. Afirmava que a liberdade de indagar é a oposição mais poderosa aos totalitarismos teológicos e políticos, e acreditava que é a partir dela que nasce a razão grega. Tornou-se símbolo da luta pela liberdade de pensamento e de expressão. Obviamente, apesar de involuntária, não deixa de ser uma identificação e uma contribuição Maçônica, que prega levantar-se contra os dogmas (que cria a miséria, espalha a opressão, apaga a identidade cultural dos povos, mutila a razão). É o dever de todos os homens que amam a liberdade, porque eles são o seu oposto absoluto.

A época de Giordano Bruno foi de grande movimentação intelectual na Europa. Quando jovem dominicano, empolgado pelas idéias aristotélicas e tomistas – em baixa sob os papas daquele tempo – viajara por todo o continente, e nele pressentia o próximo nascimento daquele sol, o da  antiqua e vera filosofia. Considerado um pioneiro da filosofia moderna, foi um homem que viveu a frente do seu tempo.

É no século XVI que a filosofia se liberta da religião e propicia que a ciência moderna nasça a partir dela, eliminando o julgamento de que a ciência não está para a busca da verdade

na propriedade lógica de conceitos, mas, sim, através de lentes de microscópios e telescópios. Apesar de não ser um cientista, nessa transição, Giordano Bruno torna-se a figura principal. A grandeza e os limites de Giordano Bruno vincularam-se à sua condição de filósofo. Sua audácia cosmológica derrubou a construção aristotélica tirando as últimas conseqüências. E, mesmo não sendo um sábio, desprezou as matemáticas, permanecendo, ainda, impregnado das instituições animistas: a vida, a magia, o mito da unidade e outros tantos obstáculos. Ensinava a imanência da divindade em tudo que existe, Deus e o Universo constituindo um único ser animado do mesmo poder e experimentando igual perfeição. Por suas idéias revolucionárias e contrárias aos dogmas da Igreja (tanto Católica quanto da Protestante), foi aprisionado em masmorras escuras e fétidas, entre 1593 e 1600. Muitas vezes foi forçado a renegar seus escritos e suas idéias, porém sempre permaneceu firme e intransigente na defesa do que pregava.

O grande filósofo italiano Giordano Bruno, cujo nome verdadeiro era Filippo Bruno, nasceu (1548) em Nola, no então Reino de Nápoles, na Campônia, sul da Itália. Estudou filosofia e literatura em Nápoles e, mais tarde, teologia no Monastério de San Domenico Maggione. Era possuidor de tenaz memória e de uma extraordinária inteligência. Em 1572 se ordenou sacerdote, abandonando em 1576, quando pôs em dúvida muitos dos ensinamentos sobre o cristianismo, o que o tornou suspeito de heresia. Abandonou o hábito e evadiu-se para o norte da Itália, território que não estava sujeito às ordens monásticas, escapando, assim, tanto da Inquisição napolitana como do Santo Ofício de Roma. Todavia, acabou sendo queimado em público graças a uma reinterpretação radical do preceito de Cristo de dar a outra face quando se é ofendido.

O monge dominicano, concluem alguns pensadores daquela época, ao negar o dogma da Santíssima Trindade, e ao somar-se ao entendimento cósmico de Copérnico, negava o cristianismo, tal como a Igreja o apresentava, entretanto sem negar Deus, do qual tinha particular concepção. Embora essa concepção não fosse estruturalmente pagã, era pré-cristã, na busca de explicação para o universo, mas cristã, na ascensão do mundo, porque se rebelava, como Jesus Cristo se havia rebelado, contra o poder dos dogmas. O intuito maior de Giovanni Bruno era, com sua dúvida criadora, retornar à razão lógica antiga, aquela iluminada pelo sol das ilhas mediterrâneas.

Na ótica de Giordano Bruno, no Homem encontra-se o reflexo da plenitude e Deus não seria o criador do Universo, mas sim, o próprio Universo. É inegável a influência que exerceu sobre os filósofos de seu tempo e nos muitos que viveram anos depois, como o holandês Baruch de Espinosa (1682-1677) e no pensador alemão Gottfried Wilhem von Leibniz (1646-1716). Essas teses iam contra o pensamento dominante da época: o da Igreja Católica. Ele foi forçado a abandonar a ordem dos dominicanos em 1575 e passou a lecionar em várias universidades da Europa: em Genebra (Suíça), Paris (França), Londres e Oxford (Inglaterra), Frankfurt, Wittenberg e Helmsstadt (Alemanha), e Praga (República Tcheca). Giordano Bruno se aproximou do calvinismo e do luteranismo, porém foi excomungado, tanto da Igreja Católica como da Protestante.

Nos intervalos das aulas, que ministrava, Giordano Bruno escreveu alguns dos seus principais livros: “Despacho da Besta Triunfante”, “A Ceia das Cinzas”, “As Sombras das Idéias”, “Cabala do Cavalo Pégaso) e a sua obra-prima “Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos”. Escreveu e publicou, também, em Paris, uma comédia: Il Candelaio.

Em seus períodos nesses centros de estudo, Giordano Bruno conquistou muitos admiradores, mas, em contra partida, grandes inimigos. Muitas vezes se queixava: “Se eu manejasse um arado, pastorasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse uma veste, ninguém me daria atenção, poucos me observariam, raras pessoas me censurariam e eu poderia, facilmente, agradar a todos. Mas, por ser eu delineador do campo da natureza, por estar preocupado com o alimento da alma, interessado pela cultura do espírito e dedicado à atividade do intelecto, eis que os visados me ameaçam, os observados me assaltam, os atingidos me mordem, os desmascarados me devoram. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos !”

No ano de 1581, o nobre veneziano Giovanni Mocenigo (1508-1585), católico fanático, convidou Giordano Bruno para retornar à Itália e dar- lhe aulas de técnica de memorização, tema sobre o qual o filósofo Bruno tinha efetuado várias pesquisas. Acreditando nas garantias de proteção, dadas por Giovanni Mocenigo, ele foi para Veneza. Entretanto, insatisfeito com os resultados obtidos nas aulas, seu aluno prendeu o filósofo e o entregou às autoridades eclesiásticas, e foi transferido para Roma em 1593, onde durante sete anos foi julgado por heresia e blasfêmia.


Depois de diversas tentativas para convencê-lo a se retratar sobre suas teses revolucionárias, Giordano Bruno acaba sendo condenado à fogueira, sob a acusação de heresia e por pensamento e idéias contra a Igreja Católica. No dia 8 de Fevereiro de 1600 a sentença de condenação de Giordano Bruno foi lida na Igreja de Santa Inês, firmada por Roberto Bellarmino e outros cardeais inquisidores expondo as circunstâncias do processo que foi disposta da seguinte maneira:

“Decidimos, pronunciamos, sentenciamos e te declaramos, frade Giordano Bruno, ser herege, impenitente, pertinaz e obstinado, e por isso deves incorrer em todas as censuras eclesiásticas e penas dos santos cânones, leis e constituições tanto gerais como particulares que se impõem a tais hereges manifestos, impenitentes, pertinazes e obstinados; e como tal te degradamos verbalmente e declaramos que deverás ser degradado de fato, como ordenamos e mandamos, de todas as ordens eclesiásticas maiores e menores em que hajas sido constituído conforme as disposições dos santos cânones, e deverás ser separado, como te separamos de nosso foro eclesiástico e de nossa santa e imaculada Igreja, de cuja misericórdia tens demonstrado ser indigno; e deverás ser entregue, e te entregamos ao tribunal secular, a Corte de Monsenhor Governador de Roma, aqui presente para castigar-te com a pena devida, contudo rogando-te ao mesmo tempo eficazmente que digne mitigar o rigor das leis concernentes à pena de tua pessoa, que esteja isenta do perigo da morte ou da mutilação de membros. Ademais, condenamos, reprovamos e proibimos todos os livros e escritos teus acima mencionado e outros, como heréticos, errôneos e abundantes de muitas heresias e erros, ordenando que daqui em diante todos os que se encontrem agora ou se encontrarem no futuro em mãos do Santo Ofício sejam desfeitos e queimados publicamente na praça de São Pedro, diante da escada, e como tais sejam postos no índice de livros proibidos, e faça-se como ordenamos. Assim dizemos, pronunciamos, sentenciamos, declaramos, mandamos e ordenamos, excomungamos, entregamos e rezamos, procedendo nisso e no resto de um modo incomparavelmente menos duro que de rigor podemos e devemos.”

Durante os sete anos do processo, Giordano Bruno tentou separar a filosofia da teologia católica, que dizia respeitar. Quando lhe exigiram rejeitar suas idéias, decidiu enfrentar a fogueira, que é a forma mais penosa de morrer. Ao ouvir a sentença e mediante à relutância dos seus algozes, com ironia serena disse: “Vocês pronunciam essa sentença contra mim com um medo maior do que eu sinto ao recebê-la !” (Marjori forsan cum timore setentiam in me fertis quam ego accipiam !) Após a sentença, foi lhe concedido mais oitos dias para se “arrepender”, o que obviamente não o fez.

A solicitação de mitigação da pena, e de isenção da pena de morte, era apenas pró-forma, pois visava apenas eximir a Inquisição da responsabilidade da pena capital. O tribunal secular ficava encarregado de mandar o sentenciado à fogueira, sob pena de responder pela desobediência. Condenado, em 17 de Fevereiro de 1600 Giordano Bruno foi levado para o campo de execução pelos verdugos, montado numa mula, o meio de transporte tradicional dos enviados à morte. Estava amordaçado com uma ponta fina de aço cravada em sua língua e foi amarrado, com uma corrente de ferro, a um poste colocado no centro da praça e atearam fogo. Enquanto estava morrendo queimado, recebeu um crucifixo para se “purificar”, porém jogou-o longe, com um desprezo feroz. As últimas palavras de Giordano Bruno foram: “Morro como mártir e por minha própria vontade !”

A maneira resoluta e contundente como defendeu, a vida toda, as suas convicções filosóficas, que eram consideradas heréticas pelo Santo Ofício, e o desenlace trágico que pôs fim à sua vida, fizeram do filósofo Giordano Bruno um ícone manchado de um mundo e de uma época em que línguas de fogo açoitavam de trevas a luz dos espíritos discordantes à quem detinham algum poder. Seus trabalhos foram incluídos no famigerado “Santo Index” (Lista de livros considerados sacrílegos pela Igreja Católica, e proibidos de serem lidos.). Não obstante, quatro séculos após a execução de Bruno, suas idéias continuam a provocar debates em universidades e instituições religiosas, todavia, ele nunca foi perdoado pela Igreja, que atualmente alega que a Inquisição estava errada em executá-lo, porém, certa por rejeitar suas heresias. Uma estátua foi erguida no lugar da fogueira que o cremou, tão logo ali cessou o poder opressor para perpetuar a sua imagem. Giordano Bruno se constituiu numa figura simbólica sempre lembrada, citada e rememorada, independentemente de qual seja a consistência de suas argumentações, com destaque na área ciência-filosófica.

Houve uma verdadeira “Brunomania” na Itália, no século XIX, com os escolares estudando e perseguindo, com grande ansiedade, os ensinamentos e os trabalhos de Giordano Bruno, classificando-o como um livre pensador futurista, visionário, filósofo e mártir da ciência. A Maçonaria italiana, sempre muito forte, destacava seu trabalho e sua filosofia de vida, enquadrando-os nos conceitos da Sublime Ordem, divulgando-os junto às Lojas jurisdicionadas.

Giordano Bruno pode não ter sido Maçom, todavia, não lhe faltaram atributos, qualidades e características de um idealista capaz de morrer por suas mais profundas crenças para defender as suas idéias, o que o consagraria, de maneira incomparável, para que fosse um grande Obreiro da Sublime Ordem !....

ES.IR.EIIT

Bibliografia:

Abril Cultural - Os Pensadores – Vários autores

Alquié, Ferdinad - Bernhardt, Jean, e outros – A Filosofia do Mundo Novo Bombassaro, Luiz Carlos – Giordano Bruno e a Filosofia na Renascença

Bossy, John – Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada Drewermann, Eufen – Giordano Bruno o el Espejo de Infinito Fichte, Johann Gottlieb – Filosofia da Maçonaria

Franca, Leonel Padre – Noções de História da Filosofia Ordine, Nuccio – O Umbral da Sombra

Yates, Frances – Giordano Bruno e a Tradição Hermética

(*) E. Figueiredo - é jornalista - Mtb 34 947 e pertence ao CERAT - Clube Epistolar Real Arco do Templo / Integra o GEIA – Grupo de Estudos Iniciáticos
Athenas /

Membro da Confraternidade Mesa 22, e é Obreiro da ARLS Verdadeiros Irmãos– 669 (GLESP)

Fonte: JBNews - Informativo nº 314 - 08 de Julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

MAÇONARIA - UMA HISTÓRIA SEM MISTÉRIO

José Castellani

Desde que o homem deixou as cavernas e as suas vivendas de nómada, sedentarizando-se e formando uma sociedade estratificada, surgiram os profissionais dedicados à arte da construção, os quais foram se aperfeiçoando, não só na erecção de casas de residência, mas, também, na de templos, de obras públicas e obras de arte. Embora tivessem, esses profissionais, desde os seus primeiros tempos, mantido, entre si, certa camaradagem e um sentimento de agregação, não havia, na realidade, uma organização que os reunisse, que regulasse a sua actividade e que lhes desse um maior sentido de responsabilidade profissional.

Foi no Império Romano do Ocidente, da Roma conquistadora, que, em função da própria actividade bélica, surgiu, no século VI a.C., a primeira associação organizada de construtores, os Collegia Fabrorum. Como a conquista das vastas regiões da Europa, da Ásia e do norte da África, levava à destruição, os collegiati acompanhavam as legiões romanas, para reconstruir o que fosse sendo destruído pela guerra. Dotada de forte carácter religioso, essa organização dava, ao trabalho, o cunho sagrado de um culto às divindades. De início politeísta, tornou-se, com a expansão do cristianismo, monoteísta, entrando, porém, em decadência, após a queda do Império Romano do Ocidente, ocorrida em 476 d.C., embora persistissem pequenos grupos da associação no Império Romano do Oriente, cujo centro era Constantinopla.

Na Idade Média é que iria florescer, através do grande poder da época, a Igreja, a hoje chamada Maçonaria Operativa, ou Maçonaria de Ofício, para a preservação da Arte Real entre os mestres construtores da Europa. Assim, a partir do século VI, as Associações Monásticas, formadas, principalmente, por clérigos, dominavam o segredo da arte de construir, que ficou restrita aos conventos, já que, naquela época de barbárie, quando a Europa estava em ruínas, graças às sucessivas invasões dos bárbaros, e quando as guerras, os roubos e os saques eram frequentes e até encarados como fatos normais, os artistas e arquitectos encontraram refúgio seguro nos conventos. Posteriormente, pela necessidade de expansão, os frades construtores começaram a preparar e a adestrar leigos, proporcionando, a partir do século X, a organização das Confrarias Leigas, que, embora formadas por leigos, recebiam forte influência do clero, do qual haviam aprendido a arte de construir e o cunho religioso dado ao trabalho.

É dessa época aquela que é considerada a primeira reunião organizada de operários construtores: a Convenção de York, ocorrida em 926 e convocada por Edwin, filho do rei Athelstan, para reparar os prejuízos que as associações haviam tido com as sucessivas guerras e invasões. Nela foi apresentada, para apreciação e aprovação, um estatuto, que, dali em diante, deveria servir como lei suprema da confraria e que é, geralmente, chamado de Carta de York.

Quase na mesma época, surgiriam associações simplesmente religiosas, que, a partir do século XII, formaram corpos profissionais: as Guildas. A elas se deve o primeiro documento em que é mencionada a palavra “Loja”, para designar uma corporação e o seu local de trabalho. As Guildas e sua contemporânea, a organização dos Ofícios Francos, foram as principais precursoras da moderna Maçonaria. O seu nome “Gild”, de origem teutónica, deriva do título dado, na antiga região da Escandinávia, a um ágape religioso, durante o qual, numa cerimónia especial, eram despejados três copos de chifre (chavelhos), conforme o uso da época, cheios de cerveja, sendo um em homenagem aos deuses, outro, pelos antigos heróis, e o último em homenagem aos parentes e em memória dos amigos mortos; ao final da cerimónia, todos os participantes juravam defender uns aos outros, como irmãos, socorrendo-se mutuamente nos momentos difíceis. As Guildas caracterizavam-se por três finalidades principais: auxílio mútuo, reuniões em banquetes e autuação por reformas políticas e sociais. Introduzidas na Inglaterra, por reis saxões, elas foram modificadas por influência do cristianismo, mas, mesmo assim, não eram bem aceitas pela Igreja, que não via com bons olhos a prática do banquete, por suas origens pagãs, e a pretensão de reformas políticas e sociais, que pudessem, eventualmente, contribuir para diminuir os seus privilégios e os privilégios das corporações sob a sua protecção. Assim, para evitar a hostilidade da Igreja, cada guilda era organizada sob a égide de um monarca, ou sob o nome de um santo protector.

No século XII, associada às guildas, surgia uma organização de operários alemães, os Steinmetzen, ou seja, canteiros, que, sob a direcção de Erwin de Steinbach, alcançariam notoriedade, quando este conseguiu a aprovação de seus planos para a construção da catedral de Estrasburgo e deu um aperfeiçoado sentido de organização aos seus obreiros. Canteiro é o operário que trabalha em cantaria, que esquadreja e trabalha na escultura da pedra bruta; cantaria (palavra derivada de canto) designa a pedra lavrada para as construções.

Surgem os ofícios francos, ou franco-maçonaria

No século XII, também, iria florescer a associação considerada a mais importante desse período operativo: os Ofícios Francos (ou Franco- Maçonaria), formados por artesãos privilegiados, com liberdade de locomoção e isentos das obrigações e impostos reais, feudais e eclesiásticos. Tratava-se, portanto, de uma organização de construtores categorizados, diferentes dos operários servos, que ficavam presos a uma mesma região, a um mesmo feudo, à disposição de seus amos. Na Idade Média, a palavra franco designava não só o que era livre, em oposição ao que era servil, mas, também, todos os indivíduos e todos os bens que escapavam às servidões e aos direitos senhoriais; esses artesãos privilegiados eram, então, os pedreiros-livres, franc-maçons, para os franceses, ou free-masons, para os ingleses. Tais obreiros, evidentemente, tinham esses privilégios concedidos pela Igreja, que era o maior poder político da época, com grande ascendência sobre os governantes.

A palavra francesa “maçon”, correspondente a pedreiro, converteu-se em “maison” (casa) e, também, embora só relativamente, em “masse” (maça, clava). Essa maça, ou clava, habilitava o porteiro a afastar os indesejáveis intrusos e curiosos. O pesquisador alemão Lessing, um dos clássicos da literatura alemã, atribui a palavra inglesa “masonry” (maçonaria) a uma transmissão incorrecta. Originalmente, a ideia teria sido dada pelo velho termo inglês “mase” (missa, reunião à mesa). Uma tal sociedade de mesa, ou reunião de comensais, de acordo com a alegoria da Távora Redonda, do rei Artur, poderia, segundo Lessing, ainda ser encontrada em Londres, no século XVII. Ela se reunia nas proximidades da famosa catedral de São Paulo e, quando sir Christopher Wren, o construtor da catedral, tornou-se membro desse círculo, julgou- se que se tratava de uma cabana dos construtores, que estabelecia uma ligação de mestres construtores e obreiros; daí, então, ou seja, dessa suposição errada, é que teria se originado o termo “masonry”, para designar a sociedade dos construtores.

Uma explicação para o termo inglês “freemason” (pedreiro livre) está ligada ao termo “freestone”, que é a pedra de cantaria, ou seja, a pedra própria para ser esquadrejada, para que nela sejam feitos cantos, que a transformem numa pedra cúbica, a ser usada nas construções. As expressões “freestone mason” e “freestone masonry”, daí surgidas, acabaram sendo simplificadas para “freemason” (o obreiro) e “freemasonry” (a actividade). Esta é uma hipótese mais plausível do que a de Lessing, que só considerou o caso particular da Inglaterra, quando se sabe que não foi só aí que existiu uma íntima ligação com o trabalho dos artífices da construção.

Nessa fase primitiva, porém, antes de, propriamente, se ter iniciado a formação de Lojas, quase que não se pode falar em Maçonaria no sentido que ela adquiriu na fase moderna, pois, sobretudo, naquele tempo não podia ser considerada como uma sociedade secreta. O segredo não era, a princípio, mais do que o processo pelo qual um dos membros da irmandade reconhecia o outro. Diga-se a bem da verdade, que, na época actual, a Maçonaria já não pode mais ser considerada secreta, mas apenas discreta. Os segredos mais guardados e que persistem são, obviamente, apenas os meios de reconhecimento, reservados só aos iniciados, já que, de posse deles, um não iniciado poderia ter acesso aos templos maçónicos e às sessões das Lojas.

É criado o importante estilo gótico

Na metade do século XII, surgia o estilo arquitectónico gótico, ou germânico, primeiro no norte da França, espalhando-se, depois, pela Inglaterra, Alemanha e outras regiões do norte da Europa e tendo o seu apogeu na Alemanha, durante 300 anos. Tão importante foi o estilo gótico para as confrarias de construtores, que as suas regras básicas eram ensinadas nas oficinas dos canteiros, ou talhadores de pedra; tão importante que a sua decadência, no século XVI, decretou o declínio das corporações.

No século XIII, em 1220, era fundada, na Inglaterra, durante o reinado de Henrique III, uma corporação dos pedreiros de Londres, que tomou o título de The Hole Craft and Fellowship of Masons (Santa Arte e Associação dos Pedreiros) e que, segundo alguns autores, seria o germe da moderna Maçonaria. Pouco depois, em 1275, ocorria a Convenção de Estrasburgo, convocada pelo mestre dos canteiros e da catedral de Estrasburgo, Erwin de Steinbach, para terminar as obras do templo. A construção da catedral, iniciada em 1015, estava praticamente terminada, quando foi resolvido ampliar o projecto original e, para isso, foi chamado Erwin A essa convenção acorreram os mais famosos arquitectos da Inglaterra, da Alemanha e da Itália, que criaram uma Loja, para as assembleias e discussão sobre o andamento dos trabalhos, elegendo Erwin como Mestre de Cátedra (Meister von sthul).

Esclareça-se que, na época, os obreiros criavam uma Loja, fundamentalmente, para tratar de determinada construção, como é o caso dessa catedral. Tais Lojas serviam para tratar dos assuntos ligados apenas à construção prevista, já que, para outras reuniões, inclusive com obreiros de outras corporações, eram utilizados os recintos de tabernas e hospedarias, principalmente em solo inglês. A palavra Loja, por sinal, foi mencionada pela primeira vez em 1292, em documento de uma guilda . Loja, do germânico leubja (pronúncia: lóibja), através do francês lodge, designava o lar, a casa, o abrigo, o pátio, o alpendre e, também, a entrada de edifício, ou galeria usada para exposições artísticas e venda de produtos artesanais. As guildas de mercadores assim designavam seus locais de depósito e venda de produtos manufacturados, enquanto que as guildas artesanais adoptaram o termo para designar o seu local de trabalho, ou seja, as oficinas dos artífices.

Próximo desse tempo, ou seja, no século XIV, começava, também, a actuação do Compagnonnage (Companheirismo), criado pelos cavaleiros templários . Os membros dessa organização construíram, no Oriente Médio, formidáveis cidadelas, adquirindo certo número de métodos de trabalho herdados da Antiguidade e constituindo, durante as Cruzadas, verdadeiras oficinas itinerantes, para a construção de obras de defesa militar, pontes e santuários. Retornando à Europa, eles tiveram a oportunidade de exercer o seu ofício, construindo catedrais, igrejas, obras públicas e monumentos civis. A Ordem da Milícia do Templo, ou Ordem dos Templários, foi uma ordem religiosa e militar, criada em 1118, com estatutos feitos pelo abade de Clairvaux (São Bernardo). Adquirindo prestígio e riqueza, a ordem excitaria a cobiça do rei francês Filipe IV, cognominado “o Belo”, que, com a conivência do papa Clemente V, conseguiu a sua extinção, em 1312, seguida da execução, na fogueira, de seu Grão-Mestre, Jacques de Molay, em 1314. Antes da extinção, necessitando, em suas distantes comendadorias do Oriente, de trabalhadores cristãos, os templários organizaram o Compagnonnage, dando-lhe um estatuto chamado Santo Dever, de acordo com sua própria filosofia.

No século XVI, a decadência das corporações de ofício

Já na primeira metade do século XVI, as corporações, diante das perseguições que sofriam - principalmente por parte do clero - e diante da evolução social europeia, começavam a entrar em declínio. Em 1535, realizava-se, em Colónia, uma convenção, que fora convocada para refutar as calúnias dirigidas pelo clero contra os franco-mações. Embora ela não tenha tido o brilho e a frequência de outras convenções, consta, embora tal afirmativa seja contestada, por carecer de comprovação, que, na ocasião, teria sido redigido um manifesto, onde era estabelecido o princípio de altos graus, que seriam introduzidos por razões políticas.

Em 1539, o rei da França, Francisco I, revogava os privilégios concedidos aos franco-mações, abolindo as guildas e demais fraternidades e regulamentando as corporações de artesãos. Em contrapartida, em 1548, era concedido, aos operários construtores, de maneira geral, o livre exercício de sua profissão, em toda a Inglaterra; um ano depois, todavia, por exigência de Londres, era cassada a autorização concedida, o que fazia com que os franco-mações ficassem na condição de operários ordinários, como tais sendo tratados legalmente. Em 1558, ao assumir o trono da Inglaterra, a rainha Isabel renovava uma ordenação de 1425, que proibia qualquer assembleia ilegal, sob pena dela ser considerada uma rebelião. Três anos depois, em Dezembro de 1561, tendo, os franco-mações ingleses, anunciado a realização de uma convenção em York, durante a festividade de São João Evangelista, Isabel ordenou a dissolução da assembleia, decretando a prisão de todos os presentes a ela; a ordem só não foi confirmada, porque lorde Thomas Sackville, adepto da arte da construção, estando presente, demoveu a rainha de seu intento, fazendo com que, em 1562, ela revogasse a ordenação de 1425.

Em 1563, a Convenção de Basileia, feita por iniciativa da confraria de Estrasburgo, organizava um código para os franco-mações alemães, o qual serviria de regra à corporação dos canteiros, até que surgissem os primeiros sindicatos de operários, no século XIX. Mas era patente o declínio das confrarias, no século XVI. A Renascença relegara o estilo gótico e a estrutura ogival das abóbadas - próprias da arte dos franco- mações medievais - ao abandono, revivendo as características da arte greco-romana. Assim, embora ela tivesse atingido a todos os campos do conhecimento e a todas as corporações profissionais, foi a dos franco- mações a mais afectada. No final do século, Ínigo Jones introduzia, na Inglaterra, o estilo renascentista, sepultando o estilo gótico e apressando a decadência das corporações de franco-mações ingleses. Estas, perdendo o seu objectivo inicial e transformando-se em sociedade de auxílio mútuo, resolveram, então, permitir a entrada de homens não ligados à arte de construir, não profissionais, que eram, então, chamados de Maçons aceitos.

Iniciava-se a transformação na Maçonaria actual

As corporações, evidentemente, começaram por admitir pessoas em pequeno número e seleccionadas entre os homens conhecidos pelos seus dotes culturais, pelo seu talento e pela sua condição aristocrática, que poderiam dar projecção a elas, submetendo-se, todavia, aos seus regulamentos. Era a tentativa de suster o declínio.

O primeiro caso conhecido de aceitação é o de John Boswell, lord de Aushinleck - ou, segundo J.G. Findel, sir Thomas Rosswell, esquire de Aushinleck - que, a 8 de Junho de 1600 foi recebido como Maçom aceito - não profissional - na Saint Mary’s Chapell Lodge (Loja da Capela de Santa Maria), em Edimburgo, na Escócia. Esta Loja fora criada em 1228, para a construção da Capela de Santa Maria, destinando-se, como já foi visto, às assembleias dos obreiros e discussões sobre o andamento das obras.

Depois disso, o processo de aceitação, iniciado na Escócia, iria se espalhar e se acelerar, fazendo com que, ao final do século, o número de aceitos já ultrapassasse, largamente, o de franco-mações operativos. Os mais famosos nomes de “aceitos”, na primeira metade do século XVII, foram: William Wilson, aceito em 1622; Robert Murray, tenente-general do exército escocês, recebido, em 1641, na Loja da Capela de Santa Maria e tornando-se, posteriormente, Mestre Geral de todas as Lojas do Exército; o coronel Henry Mainwairing, recebido, em 1646, numa Loja de Warrington, no Lancashire; e o antiquário e alquimista Elias Ashmole, recebido na mesma Loja e no mesmo dia (16 de Outubro) que o coronel Henry.

Em 1666, os franco-mações iriam recuperar parte do antigo prestígio, diante do grande incêndio, que, a 2 de Setembro daquele ano, aconteceu em Londres, destruindo cerca de quarenta mil casas e oitenta e seis igrejas. Nessa ocasião, os Maçons acorreram para participar do esforço de reconstrução, sob a direcção do renomado mestre arquitecto Cristopher Wren, que, em 1688, viu aprovado o seu plano para reconstrução da cidade, sendo nomeado arquitecto do rei e da cidade de Londres. A obra principal de Wren foi a reconstrução da igreja de S. Paulo, em cujo adro se desenvolveria e se estabeleceria, em 1691, uma Loja de fundamental importância para a História da Maçonaria moderna: a Loja São Paulo (em alusão à igreja), ou Loja da taberna “O Ganso e a Grelha”, em alusão ao local em que, como faziam outras Lojas, realizava suas reuniões de carácter informal e administrativo, como se verá adiante. A reconstrução de Londres só iria terminar em 1710.

E nascia a primeira Grande Loja

Como, na época, não existiam templos maçónicos - o primeiro só seria inaugurado em 1776 - os Maçons reuniam-se em tabernas, ou nos adros das igrejas. As tabernas, cervejarias e hospedarias desse tempo, principalmente na Inglaterra, tinham uma função social muito grande, como local de reunião e de troca de ideias de intelectuais, artífices, obreiros do mesmo ofício, etc. . A Loja da Cervejaria “The Goose and Gridiron” (O Ganso e a Grelha), ou Loja São Paulo, inicialmente formada só pelos Maçons de ofício que participaram da reconstrução de Londres, resolvia, em 1703, diante do número cada vez maior de Maçons aceitos, em todas as Lojas, admitir, a partir dali, homens de todas as classes, sem qualquer restrição, promovendo, então, uma reforma estrutural, que iria dar o arcabouço da moderna Maçonaria. A admissão, em 1709, do reverendo Jean Théophile Désaguliers , nessa Loja, em cerimónia realizada no adro da igreja de São Paulo, iria apressar o processo de transformação, já que Désagulliers iria se tornar seu líder e paladino.

A 7 de Fevereiro de 1717, Désagulliers conseguia reunir quatro Lojas metropolitanas, para traçar planos referentes à alteração da estrutura maçónica. Nessa ocasião, foi convocada uma reunião geral dessas quatro Lojas existentes em Londres, para o dia 24 de Junho daquele ano. Essa reunião foi realizada na taberna “The Apple Tree” (A Macieira), e as Lojas presentes foram, além da “O Ganso e a Grelha”: a da Cervejaria “The Crown” (A Coroa), a da Taberna “Rummer and Grappes” (O Copázio e as Uvas) e a da Taberna “The Apple Tree” (A Macieira).

E, no dia 24 de Junho de 1717, como fora marcado, as quatro Lojas reuniam-se e criavam The Premier Grand Lodge (a Primeira Grande Loja), em Londres, implantando o sistema obediencial, com Lojas subordinadas a um poder central, sob a direcção de um Grão-Mestre, já que, antes disso, as Lojas eram livres de qualquer subordinação externa, concretizando a ideia do “Maçom livre na Loja livre”. Isso era, portanto, um fato novo e uma grande alteração - uma verdadeira revolução - na estrutura maçónica tradicional, o que faz com que esse acontecimento seja tomado como o divisor de águas, o marco histórico entre a antiga e a moderna Maçonaria, ou seja, entre a operativa, ou de ofício, e a dos aceitos, ou especulativa, sua forma moderna.

Fonte: JBNews - Informativo nº 313 - 07 de Julho de 2011

PROPÓSITOS DA PRIMEIRA GRANDE LOJA DE LONDRES

Ir∴ Ailton Branco - ex-V.M GLMERGS – Semear Colégio de Estudos do Rito Schröder - Oficina de Restauração do REAA - 19/04/2011
AÇÃO MAÇÔNICA INTERNACIONAL - AMI

Por que surgiu a primeira Grande Loja de Londres? Quais os interesses não revelados que detonaram iniciativa tão marcante? Nos anos que antecederam esse "landmark" na história da maçonaria mundial, a confraria na Inglaterra mostrava duas realidades distintas: os maçons católicos, que faziam suas reuniões em locais cedidos pela Igreja e os maçons não católicos que se reuniam em locais públicos, como tavernas e hospedarias. As Lojas que reuniam maçons cristãos obedeciam à ritualística simples organizada para as recepções aos candidatos e para as trocas de grau. Eram lideradas pela pujante Loja de York. As lojas constituídas por maçons judeus, muçulmanos e budistas e que se reuniam em tavernas, eram informais. As reuniões, em ágapes, se destinavam às trocas de idéias variadas e às relações sociais.

A concorrência entre os dois segmentos da maçonaria britânica era acirrada, até com episódios de violência contra o patrimônio. Historiadores não comprometidos com a versão oficial revelam a campanha sistemática de maçons filiados à Grande Loja de Londres contra documentos de qualquer espécie que informassem algo sobre a existência das Lojas católicas mais antigas.

A Grã-Bretanha, desde o Ato de Supremacia proclamado por Henrique VIII, em 1534, para romper com Roma e estabelecer a Reforma religiosa, viu-se dividida entre catolicismo e protestantismo. Esse último ainda contribuiu com o puritanismo; movimento de confissão calvinista que rejeitava tanto a Igreja Romana como a Igreja Anglicana. Em 1649, a Revolução Puritana, sob a liderança de Oliver Cromwell, saiu-se vencedora contra a Monarquia. Protagonizou a prisão e decapitação do Rei Carlos I e proclamou a República na Grã-Bretanha. Com a morte de Cromwell, abriu-se um período de crise, que conduziu à restauração dos Stuart, em 1660. Quando Jaime II pretendeu restabelecer o catolicismo, desprezando os interesses da maioria protestante, eclodiu a Revolução Gloriosa, em 1688. O Stuart foi facilmente vencido, refugiando-se na França de Luís XIV. A partir de 1714, reinaram os Hannover, alemães, protestantes, pouco interessados na gestão do país e que, por isso, favoreceram e reforçaram a importância dos "Whigs", adeptos de uma Monarquia limitada pelo Parlamento.

Os intelectuais e cientistas da Royal Society, dentre eles vários maçons, eram contra a influência da Igreja porque essa pregava a idéia do criacionismo para explicar o surgimento do mundo. A Igreja apoiava sua posição nas teses dos filósofos antigos, nas Sagradas Escrituras e na autoridade de fé e de santidade dos padres.

Os integrantes da Royal Society adotaram o lema: Nullius in Verba, para mostrar que acreditam na verdade dos fatos, obtida através da experiência científica e não ditada pela palavra de alguma autoridade. Combatiam também a Escolástica, que era uma linha dentro da filosofia medieval com elementos notadamente cristãos. A Escolástica surgiu da necessidade de responder às exigências de fé, ensinada pela Igreja, acrescentando ao universo do pensamento grego os temas: Providência e Revelação Divina e Criação a partir do nada.

O ambiente político estava favorável para os maçons não cristãos prestigiarem sua atividade, substituindo as finalidades mundanas das suas reuniões nas tavernas por encontros com formalidades específicas para uma sociedade que pretendia parecer cultural e filantrópica.

A esse respeito escreve John J. Robinson, em "Nascidos do Sangue - Os Segredos Perdidos da Maçonaria": "Enquanto a Maçonaria continental estava ocupada em tecer mais e mais padrões complexos de rituais, a Maçonaria britânica original de três graus enfrentava seus próprios problemas. Como todo o conhecimento de qualquer propósito anterior desaparecera, a Maçonaria emergiu como uma sociedade glutona e beberrona, com, talvez, uma sombria ênfase exagerada na última. Todos os Maçons ingleses provavelmente lamentavam que seu Irmão moralista, William Hogarth, houvesse imortalizado o estado da Maçonaria londrina do século XVIII em sua pintura intitulada A Noite, que retrata um Mestre Maçom bêbado como um gambá sendo carregado para casa pelo Guarda da Loja, ambos com as insígnias maçônicas."

Era preciso encontrar uma solução para esse comportamento. Os maçons ligados à Royal Society, liderados por John Theophilus Desaguliers, filósofo, assistente e divulgador de Isaac Newton, idealizaram fundar uma associação de Lojas para planejar e organizar melhor o desempenho da maçonaria não atrelada aos eventos da Igreja. Reuniram quatro Lojas de tavernas e criaram a Grande Loja de Londres, em 1717.

A história da fundação da primeira Grande Loja no mundo mostra uma dupla motivação para o evento: combater as Lojas que conservaram a influência dos temas católicos na sua ritualística e ajudar a expandir o sionismo entre as elites. A emigração de judeus sefarditas (de origem espanhola e portuguesa) e asquenazes (de origem alemã e polonesa), sobretudo oriundos da Holanda e da Alemanha para a Grã-Bretanha, ganhou intensidade na segunda metade do século XVII. A Grã-Bretanha proporcionou à sua minoria judia condições próximas do ideal para cultivar seus rituais religiosos. A regularização social dos judeus teve lugar em geral sem obstáculos, ao longo de um período prolongado. Oliver Cromwell deu permissão para o culto público a um pequeno grupo de sefarditas, em 1656, e a licença manteve-se após a restauração da monarquia em 1660.

A geografia e a história colocaram a Grã-Bretanha de certo modo fora da Europa continental e a experiência judaica ali, por sua vez, foi algo especial. Os judeus foram admitidos tardiamente, mas, quando o foram, desfrutaram das liberdades básicas durante um tempo mais prolongado que em qualquer outro país europeu. A composição heterogênea da sociedade britânica produziu crescente liberdade de culto. Embora a vigência da Declaração de Direitos (1689) que, entre outras regulamentações, restringiu a liberdade religiosa ao culto protestante, os preconceitos contra grupos religiosos minoritários foram tênues.

Apesar de ser uma das comunidades menos importantes e menores na Grã-Bretanha, os judeus aproveitaram a generosa tolerância reinante e destacaram-se na política, no comércio, nas artes e nas ciências, enfim, em todos os aspectos da vida nacional inglesa. A posição dominante da Grã-Bretanha no mundo dotou os líderes judeus de um papel preponderante internacional, como no desenvolvimento inicial do sionismo.

E a maçonaria fez parte do processo sendo um dos meios de difusão do sionismo. Os primeiros rituais surgidos da existência da Grande Loja de Londres elegeram o Templo de Jerusalém construído por Salomão, o símbolo da obra perfeita. Serviu de referência na analogia com o trabalho da maçonaria de aprimoramento do caráter humano. O texto do ritual reproduziu passagens bíblicas dos hebreus nas explanações aos maçons. A resistência ao retorno do catolicismo na maçonaria e a divulgação do sionismo conjugaram-se numa corrente que sufocou as Lojas cristãs remanescentes. A influência dos judeus maçons com posições de destaque na marinha, no comércio de armas e no mercado de negócios bancários levou o poderio político e institucional da maçonaria inglesa para além fronteiras da Grã-Bretanha. A estratégia de fazer constar que a Grande Loja de Londres inaugurou uma nova maçonaria, a especulativa, em substituição à operativa, deu certo. O mundo maçônico acreditou. A eliminação dos documentos relativos às atividades anteriores a 1717 deu veracidade à tese. A maçonaria britânica tornou-se forte e respeitada. Os maçons ingleses mantiveram-se suficientemente poderosos para ditarem ao mundo, cem anos mais tarde, as oito regras para a regularidade das Lojas e dos maçons no universo.

Fonte: JBNews - Informativo nº 313 - 07 de Julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

DIFERENÇAS ENRE O RITO YORK E RITUAL EMULAÇÃO

Ir∴ Fabio Mendes Paulino
ARLS “MA’AT – Verdade, Justiça e Retidão”, n.º 3669

Permitam-me compartilhar com vocês alguns pontos que diferem Rito de Ritual, para auxiliar na melhor com-preensão do vocábulo “Ritual de Emulação” que o que realmente trabalhamos em nossa Loja, ao contrário do que dizem alguns “Rito de York” ou “Rito de Emulação”.

Muitos Irmãos confundem ou pensam que o Ritual Emulação é um Rito.

E que esse rito é o Rito de York. Acon-tece que não é. Eis que, na verdade, não se trata de um Rito, mas sim de um Ritual pelo qual é demonstrado e expressado por meio de dramatizações ritualísticas.

Na Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) o vocábulo “Rito” não existe. Ou seja, é inominado. Os ingleses não consideram um rito, eles consideram rituais (Emulation, Bristol, Stability, Taylor’s, Logic, West End, etc…). Todos os diversos Rituais Ingleses pouco diferem-se uns dos outros, uma palavrinha aqui, outra palavrinha lá. Mas a Loja usada por todos são iguais, isto não há diferença.

É plenamente entendível, pois, o que eles praticam é a Maçonaria, na sua mais pura origem, pois, como é cediço, o Ritual Emulação serviu de base para praticamente todos os demais Ritos existentes no mundo (Foi a base prin-cipal do Rito Brasileiro). Para se ter uma idéia, a União das duas Grandes Lojas Inglesas deu-se em 1813, mas antes disso, em 1797 já era fundado o Rito de York (Thomas Webb), e antes disso por volta de 1717 já haviam reuniões nos Trabalhos de Emulação, ou seja, a forma pura de Maçonaria. Este Ritual era praticado pelas Lojas sob a Égide da Grande Loja de Londres, chamada perojativamente de “Loja dos Modernos”. No entanto, era a mais antiga que a “Loja dos Antigos”.

Só por curiosidade, os mais antigos Rituais originais do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), amplamente di-fundido no Brasil, são de 1804, de origem francesa, e não têm nada a ver com o que se pratica no Brasil e em ou-tras partes do mundo.

O que é Rito?

O vocábulo “Rito”, como um substantivo masculino, é derivado do latim – ritus. Designa o Cerimonial próprio de um culto, determinado pela autoridade competente; seu significado clássico é: “Uma prática, um costume a-provado; ou conjunto de normas e práticas que se faz com regularidade” (Ir. Sérgio Cavalcante – Rito York).

Rito vem a ser uma coletânea de rituais, onde o verdadeiro Rito de York é constituído por quatro corpos devida-mente distintos uns dos outros, mas de forma hierárquica, a saber: Graus Simbólicos, Graus Capitulares, Graus Crípticos e Ordens de Cavalaria.

Da mesma forma o Rito Escocês Antigo e Aceito, onde se tem os graus simbólicos e mais 30 graus acima, numa hierarquia própria do Rito.

No Ritual Emulação isso não existe. Ou seja, há apenas os rituais dos graus simbólicos, e as Ordens Superiores são ordens totalmente independentes, e não há obrigação de iniciar esta evolução. Depois do grau de Mestre o Irmão escolhe como vai se aperfeiçoar. São 17 “corpos”, por assim dizer, e no Brasil ainda temos somente 5. Mas não há hierarquia. Existem duas escadas e o Irmão escolhe por qual vai começar subir. Ou faz primeiro o “Arco Real” ou o “Mestre da Marca”.

Tanto são independentes de Rito que são abertas a qualquer outro Irmão de um Rito qualquer, desde que já tenha sido Elevado (Exaltado) a Mestre.

Então, apesar de erroneamente chamarem nossos trabalhos de “Rito de York” hoje sabemos que não é, mas sim Ritual Emulação. O verdadeiro Rito de York está sedimentado no norte e nordeste do Brasil, e os Irmãos de lá não gostam nada desta confusão, pois eles praticam o verdadeiro Rito de York, de origem norte-americana, fun-dado pelo Irmão Thomas Smith Webb, em 1797.

O que é um Ritual?

Ritual, como um adjetivo, derivado do latim (ritualis), designa o que é relativo a Ritos. Como substantivo mas-culino, designa o livro que contém a ordem e a forma de uma determinada Cerimônia, e das dramatizações e re-presentações ritualísticas, ou seja, é um conjunto de regras e/ou normas estabelecidas para a liturgia das cerimô-nias maçônicas. Sempre existiram os rituais, inicialmente através das tradições e de forma oral, posteriormente, com o passar dos anos por escrito, mas isto não tirou a tradição inglesa de nas reuniões da Loja praticar o Ritual de forma decorada. Pode-se concluir claramente, sem qualquer dúvida, que ritual é totalmente diferente de Rito.

O que é Rito de York?

Para se entender a definição de que é “Rito York” e a sua origem, é necessário voltarmos um pouco no passado. O Rito York é baseado nos antigos rituais remanescentes da Antiga Maçonaria que era praticada no começo do século XVIII (Loja dos Antigos).

Referidos Rituais eram praticados pelos Maçons da “Grande Loja dos Antigos”, fundada no ano de 1751 por Maçons irlandeses, que haviam sido impedidos de entrar na Grande Loja de Londres (Loja dos Modernos – Emu-lation Working), fundada no ano de 1717.

Thomas Smith Webb, é considerado como se fosse o organizador e fundador do Rito York, ou seja, o “pai” do Rito . Ele nasceu em 30 de outubro de 1771, em Boston.

Foi iniciado na Loja do Sol Nascente, em Keene, New Hampshire, aos 19 anos. No ano de 1797, ele pesquisou, catalogou, organizou e codificou todos os rituais antigos e fez um conjunto de 13(treze) rituais, de forma con-densada, em um monitor e denominou-os de “Rito York” , em homenagem a cidade de York , pois em suas pes-quisas foi tida como berço da Maçonaria no mundo, ou seja, a cidade onde se tem os registros mais antigos de reuniões maçônicas.

Ritual Emulação

O Ritual Emulação foi aprovado oficialmente pela Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) em 1813, e foi cria-do um Comitê curador do Ritual, chamado de Emulation Lodge of Improvement for Master Masons (Loja Emu-lação para Aperfeiçoamento de Mestres Maçons). Este Comitê é o responsável pela edição e publicação do Ritu-al de Emulação, com plena autorização da UGLE, respeitando os princípios gerais impostos pela mesma.

Por isso o Ritual de Emulação é como se fosse um monitor que contém o conjunto de práticas consagradas pelo uso e costume, e que assim se devem de forma invariável em momentos determinados. Ou seja, é o cerimonial propriamente dito.

Na Inglaterra, compete às Lojas a regulamentação das formas de ritual, reservando-se, a UGLE, o direito de in-tervir em qualquer Loja Inglesa que adote formas ou modificações estranhas a prática do ritual conforme ensina-do desde 1813, ou algo que venha a se opor aos princípios gerais estabelecidos. Pois, segundo o Art. 155 do Li-vro das Constituição da Grande Loja Unida da Inglaterra, esta liberdade é concedida, mas também limitada.

Em tradução livre: “155. Os membros presentes de qualquer Loja, devidamente reunida, têm o direito inalienável para regular os seus próprios procedimentos, desde que eles estejam de acordo com as leis gerais e regulamentos do Ofício (ou da Ordem); contudo, um protesto (reclamação, denúncia) contra qualquer resolução ou procedi-mento que seja contrário às leis e aos costumes do Ofício e com a finalidade de reclamar ou atrair uma autorida-de maçônica maior, pode ser feito, e tal protesto será anotado no Livro de Atas, se o Irmão que faz o protesto as- sim solicitar.

Assim, existem na Inglaterra, diversas formas de rituais, conforme já foi citado, pois a Grande Loja não legisla sobre a forma de ritual adotado por suas Lojas, mas sim sobre os princípios gerais da Ordem, e nenhum ritual pode ser contrário a isso.

Fonte: JBNews - Informativo nº 312 - 06 de Julho de 2011

PROFANO OU NEÓFITO?

Ir∴ José Aparecido dos Santos
ARLS Frederico Chalbaud Biscaia – Rito Francês – Oriente de Maringá ARLS Justiça – Rito REAA – Oriente de Maringá

Em uma breve análise sobre a vida profana e a iniciação na maçonaria, cheguei a uma conclusão;

Inicio da Vida Profana: Iniciamos com uma corrida (viagem) de milhões e um somente tem a Graça de Deus de ter um local único, escuro, sem nenhum visão da vida futura e dentro do ventre materno por nove meses e tendo toda afeição e alegria daqueles que querem a sua presença entre eles.

Quando ganhamos a luz, não enxergamos e sim só vemos luz por alguns dias, sem poder decifrar o que virá no futuro, não falamos e sim tentamos balbuciar algumas palavras e sem definições, não caminhamos por vários meses e sim somos levados e carregado por aqueles que devotam amor por nós e a confiança é total naquele que nos carrega por todos os lados.

Não conhecemos e nem temos conhecimento deste ser Supremo (Deus), somos um pequeno pagão por um determinado tempo, até recebermos a luz divina de nosso Pai Maior, do nosso batizado e nos é colocado pela ação divina, ótimos mestres em nossos ensinamentos de vida profana, sendo os nossos pais, avós, que só tendem a nos dar o ensinamento de vida, nos levando a verdade absoluta, nos apresentando ao Ser Supremo (Deus), nos dando o que é bondade, benevolência, atitudes de moral humana, educação e etc.

Iniciamos a vida profana com valorosos mestres e com verdadeiros ensinamentos de vida correta, integra, tendo o crescimento pessoal, moral, intelectual e sempre pelos mestres da vida que nos conduzem para a plenitude do mundo, estes nunca nos deixam, são eternos mestres para com nós.

Inicio da Vida Maçônica: Somos escolhidos no meio de milhões de profanos, e ao sermos iniciados, ficamos de olhos vendados, sem poder ver nada por algumas horas, voltamos ao nosso interior mental, como também voltamos ao interior da terra, representando o ventre materno, depois de algumas horas, com diversas viagens que fazemos pelo interior do Templo e sempre com um mestre que nos dá todo apoio e acreditamos na segurança deste que nos leva.

Depois de muitas idas e vindas (viagens), recebemos a luz, por alguns minutos, temos a visão conturbada e sem reconhecer as pessoas que nos aguardam com alegria, amor, dedicação e nos vendo como um novo irmão que vai iniciar os seus passos e engatinhando na vida maçônica.

Da mesma forma que somos levados pelos nossos pais, avós, na vida profana, também temos excelentes mestres que tendem a nos levar para o aprendizado da maçonaria, aprendendo os passos da vida ereta e doutrinada na verdade, humildade, ser um homem integro em todos os momentos e locais.

No grau de Aprendiz, temos os nossos passos idênticos de uma criança, e nos é ensinado como fazer, como se portar dentro de um Templo e nos sendo ensinado, como devemos nos portar dentro do Templo e como devemos estar paramentados, em seguida partimos para o grau de Companheiro, já podendo mudar os passos, mas tendo que ter os mestres sempre nos apoiando e aprimorando o lado do ser humano e maçom, para que este no futuro próximo, possa dar o ensinamento ao grau de Aprendiz.

Quando temos o grau de Mestre, este sendo o ápice do Grau Simbólico, já tendo o discernimento do que deve fazer na vida maçônica e profana, para não dar maus exemplos aos que estão iniciando na Maçonaria, este pode e tem o domínio de ir para o Oriente e retornar para o Ocidente, já tem o seu lado espiritual e mental eficaz e tendo que ensinar o Aprendiz e Companheiro.

Em todo momento de vida maçônica, temos que ter em mente, que somos homens livres, de bons costumes, podendo errar, não dando continuidade nos mesmos erros, sem sermos soberbos, temos que ter a humildade, integridade, postura pessoal, crença e devoção em Deus não somente para sociedade maçônica, mas continuar na sociedade profana, que nos vê, como homens com diferencial.

E nós é colocado que somos todos iguais, nenhum irmão é melhor que o outro, mesmo que este tenha um grau elevado de cultura e financeira, somos todos iguais não somente dentro dos Templos, mas no dia à dia de nossa vida maçônica e profana, desta forma, não devemos ser soberbos.

Desde aprendiz, companheiro, mestre e do grau 4 ao 33, todos nós estamos em franco estudo maçônico e um tem que dar um pouco de si para ensinar o outro irmão, o que é ser maçom, qual o grau do significado da vida maçônica, sendo através dos estudos, vivência entre todos nós e praticando o nosso ensinamento: “LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE”, devemos sim, retornar a Câmara de Reflexões, para um exame de consciência e alertar-se de que, na realidade, e Maçom.

O diferencial do Homem Maçom, que tem que ter em mente, que todos nós somos iguais e temos que fazer para o outro o que desejamos para nós e nossos familiares, não somos somente irmão de maçonaria, mas temos que ser “AMIGOS e IRMÃOS”!! Ou “IRMÃOS e AMIGOS”?? Se não nos sentirmos como verdadeiros “AMIGOS E IRMÃOS”, qual o motivo de desejarmos em nos tornarmos “MAÇOM”!!??

Fonte: JBNews - Informativo nº 312 - 06 de Julho de 2011

terça-feira, 5 de julho de 2011

PONDERAÇÕES SOBRE A MAÇONARIA NO BRASIL

Autor: Ir∴Hercule Spoladore*

Analisando alguns conceitos emitidos por estudiosos da Maçonaria brasileira através dos anos, nota-se que eles são controversos. Alguns deles devem ser citados e comentados.

Um autor refere que o modelo maçônico que foi legado pelos irmãos do passado já não se adapta à Maçonaria atual. Este modelo foi projetado para o homem recém egresso do início da era industrial. Está defasado e anacrônico. A Maçonaria atual não poderia estar inserida nestes moldes. Tem que ser modernizada.

Um gnóstico referiu que a Maçonaria atual tornou-se materialista, pois dentro de seus templos ainda existem símbolos poderosos e mágicos, mas os maçons não os respeitam como tais, pois já não conseguem vislumbrar os seus mais puros significados. Enxerga-os, mas não os sente. Foi por esta razão que a Maçonaria se fragmentou, se confundiu e se perdeu. Mas seu potencial apenas adormece, ele voltará ao seu antigo vigor na hora em que ela for chamada novamente a desempenhar seu verdadeiro papel na história da civilização.

Outra versão refere que o maior objetivo da Ordem e que acalentou gerações de irmãos do século XIX foi a Abolição dos Escravos e a Proclamação da República. Uma vez libertos os escravos e proclamada a República, a Maçonaria brasileira perdeu seu objetivo prioritário. Não foi criada desde então uma motivação cívica, política ou uma vocação social que seria a mais indicada. A Maçonaria brasileira fragmentou-se em várias potências, cada qual se autodenominando de soberana, verdadeira e única e se dizendo representante da opinião da população maçônica brasileira.

De fato, após ter sido proclamada a República, a Maçonaria do Brasil, pouco fez.

Inicialmente, resolveu competir com as religiões cristãs no campo da beneficência, e da filantropia, onde com exceção de lojas de umas poucas cidades, onde a Ordem faz um trabalho filantrópico social racional muito importante, mas as demais cidades do Brasil fazem uma filantropia amadora, sem planejamento, onerando sempre os seus obreiros.

É comum uma loja, às vezes doar cadeiras de rodas para um profano paraplégico e eliminar um irmão por falta de pagamento das mensalidades, sem saber ao certo o que este irmão está enfrentando em sua vida naquele momento.

Neste particular as lojas brasileiras fazem confusão com caridade profana e a caridade maçônica, sem saber que os irmãos de outrora da fase Operativa e mesmo da Maçonaria Moderna, faziam a caridade ao maçom necessitado, à família de maçons falecidos e jamais para os profanos.

Para profanos, não se deveria a rigor fazer caridade ou filantropia, se fossem seguidos os antigos costumes da Ordem. Entretanto, é o que ocorre no Brasil.

O correto é se no quadro de uma loja existem aqueles irmãos que são filantropos por natureza, por índole, e que queiram praticar caridade, que a façam às suas próprias expensas nunca envolvendo a loja em si.

Em realidade a Maçonaria deveria fazer caridade só para maçons e suas famílias. Esta é a regra tradicional, infelizmente não observada em nossos dias.

Do ponto de vista social, a Maçonaria brasileira no século XX trabalhou em prol do divórcio desde 1918, quando ainda era proibido pronunciar esta palavra.

Durante muito tempo a Maçonaria através de muitas das suas lojas manteve escolas primárias as expensas destas lojas, nos seus pátios junto ao templo. Mas o Estado chamou para si esta incumbência e as escolas foram desativadas. Hoje algumas lojas fazem a premiação para os melhores alunos de algumas escolas públicas. Isso é muito pouco em prol da educação.

Politicamente calou-se quando o ditador Getúlio Vargas fez do Brasil o que quis. Durante a Revolução de 1964 também ficou quieta. Manifestou-se em prol do Parlamentarismo, porém não era a opinião unânime de todas as potencias.

Quer dizer, o século XX foi perdido pelos maçons brasileiros do ponto de vista político, Vários presidentes da República foram maçons, mas em realidade não representando a Maçonaria e sim aos seus partidos políticos.

Mas não foi só do ponto de vista político que ela se perdeu. Também sob o ponto de vista social e educação e ainda piorou a qualidade de seus membros onde às vezes o critério de indicação deixa a desejar. Aumentou o número de lojas, de potências e consequentemente o número de adeptos. E daí? Foram bem escolhidos?

Entretanto ela foi, neste século passado, campeã de brigas internas, aparecimentos de novas potências por cisões e dissidências, processos na justiça profana, expulsões da Ordem etc. Verdadeira autofagia maçônica.

Há uma outra versão a mais acertada sobre a Maçonaria brasileira defendida por muitos irmãos pela qual não se pode exigir tanto dela, pois a sua função seria tão somente formar o Homem em si, como líder, como embrião, como uma célula dentro da sociedade. Esta é uma proposição correta. Formar bem o homem-maçom. Ela é uma escola de vida, preparando o adepto para ser um líder na comunidade profana.

À Maçonaria caberia tão somente mostrar corretamente aos seus adeptos os caminhos do seu autoaprimoramento, ensinando-os a serem verdadeiros construtores sociais para que atuem na comunidade como um núcleo em torno do qual estariam agregados os vários segmentos da sociedade.

Parece que este conceito é o mais acertado e mais apropriado para o tempo atual. Se a Maçonaria formar um líder seja ele um político, um homem público, empresário, chefe de escritório, ou em qualquer segmento da sociedade ele estará representando a Ordem de uma maneira velada, mas de maneira eficiente e proveitosa como um construtor de uma nova sociedade. A partir daí sua participação na comunidade passa a ser naturalmente político-social.

Mas como andam os problemas flagrantes da Ordem no Brasil?

É claro que estas ponderações não se aplicam a todos os maçons e lojas, pois existe boa uma parte da Maçonaria que não se enquadra neste raciocínio.

Analisando a realidade, e basta apenas querer enxergá-la, sem reservas, sem um véu encobrindo a visão, com coragem pelo que se pode observar no dia a dia, existem situações erradas na Ordem as quais apenas algumas serão abordadas de forma aleatória.

- Falta de conscientização do que vem a ser Maçonaria. As sessões econômicas duram às vezes até duas horas e o período de estudos ou de instrução dura de quinze a meia hora, isto quando algum irmão tem algum trabalho a apresentar. Falta cultura maçônica dentro das lojas. Sessões sem conteúdo, apenas burocráticas sem apresentação de trabalhos e debates.

- Com relação à instrução contínua, e isto não acontece, pois os aprendizes e companheiros perguntam muito, é lógico que queiram saber que queiram aprender geralmente quando fazem uma pergunta a um mestre que poderia ser perfeitamente respondida, a resposta freqüente é “Isso não posso responder” “Tenha paciência você chegará lá”. Esta resposta bloqueia a mente de um aprendiz ou companheiro de forma negativa. O que não se pode dizer a eles são apenas palavras, sinais, e certos símbolos inerentes aos graus 2 e 3. Mas a história, filosofia, doutrina e uma série de coisas referentes à Ordem são conceituais e devem ser transmitidas aos companheiros e aprendizes. Existem falhas severas desde o primeiro aprendizado. A grande maioria dos maçons cresce na Ordem do ponto de vista de graus e os galga sem conhecer o grau em que está colado.

- A pressa de muitos irmãos para que a sessão acabe logo, para poderem nos chamados “fundões” dos templos sorverem todo o tipo de bebidas disponíveis e ao mesmo tempo se alimentarem exageradamente e neste estado de empanturramento alimentar e sob os eflúvios etílicos tomarem as decisões importantes da loja, tais como quem será e quem não será o próximo venerável, alem de problemas importantes administrativos, qual será o cardápio da próxima semana, fazer bazófias com certos Irmãos que não concordam com eles, e nas “panelinhas” que se reúnem num canto para tramar o poder, enfim uma série de situações que todos sabem, mas fingem não ser nada com eles. Geralmente muitas lojas têm o seu “dono” e os demais Irmãos dizem amém. A democracia nem sempre impera no interior das lojas.

- Veneráveis fracos que não têm personalidade, dominados docilmente por verdadeiras “eminências pardas” dentro de sua própria diretoria. Às vezes são verdadeiros bonecos colocados no cargo para que o “dono da loja” possa continuar mandando nos bastidores. Um dirigente pelo sistema democrático nunca é o dono vitalício do cargo. Ele apenas está ocupando este cargo por um tempo para o qual foi eleito. Ele está. Ele não é.

- Carreirismo político maçônico com falsa liderança. Com freqüência irmãos entram na Ordem e almejam o poder e galgar altos cargos. Usam de toda artimanha para conseguir seus desideratos. Sempre se questiona o que é o tal poder temporal maçônico dentro da Ordem? O que significam os graus? Ignoram que o poder verdadeiro é saber vencer suas paixões é o autoconhecimento, é a vivência maçônica interior de cada maçom.

- Comportamento antiético e antimaçônico de alguns irmãos, os quais querem prevalecer sobre os demais, muitas das vezes querendo impor seus defeitos como regra para a loja seguir.

- Candidatos para serem iniciados não gabaritados para tal. Existem muitos maçons que indicam candidatos sem conhecê-los adequadamente. E às vezes não sabem discernir se aquele candidato apesar de um uma pessoa de caráter ilibado, tem perfil para ser maçom. Outras vezes, são indicados apenas por ser parente ou amigo do padrinho.

- Os poderes dentro de uma potência, estão em muitas agremiações, desencontrados e comumente Irmãos extrapolam seus direitos não respeitando às vezes o próprio grão-mestre que é a autoridade maior.

- As várias potências não se reconhecem entre si, mas utilizam os mesmos ritos, cada qual à sua maneira (Vide REEA no Brasil o qual é uma verdadeira “colcha de retalhos”).

- Desrespeito flagrante aos ritos minoritários. Não se respeita devidamente os ritos que têm um numero menor de lojas. Até as constituições são eivadas de artigos e parágrafos totalmente “escoceses”, ou seja, utilizando a forma de ser do R.EAA em detrimento aos outros ritos.

- A respeitável denominação Grande Arquiteto do Universo virou simplesmente “gadú” pronunciada atualmente de forma banal e sem respeito.

- Especialmente nas cidades de médio e grande porte, um templo de propriedade de uma loja é usado um dia semanalmente. Fica ocioso o resto da semana, quando naquele templo poderiam funcionar pelo menos mais sete lojas. Quando um grupo de irmãos, através de uma cisão, geralmente litigiosa por causa da luta pelo poder “enxameia” e funda uma nova loja, a primeira decisão é construir um novo templo. O dinheiro gasto numa nova construção para esse fim poderia ser usado na construção de lar de apoio, asilo, uma creche e doado para comunidade.

- Falta de patriotismo, com desconhecimento total da história maçônica do Brasil e da participação dos maçons nos maiores eventos pátrios.

- Corrida atrás de graus. Muitos maçons querem ser 33 o mais rapidamente sem conhecer os graus anteriores. A ganância de chegar ao grau 33 é muito grande.

- A grande maioria dos maçons não lê. Não estão atualizados. Não sabem ao certo o que é a Maçonaria.

- Cita-se de passagem, certos irmãos que não honram seus compromissos valendo-se da mal interpretada tolerância maçônica.

Poder-se-ia enumerar mais de cinqüenta itens facilmente. Entretanto é bom frisar que nem todas as lojas e nem todos os irmãos estão enquadrados neste panorama. Existem lojas tradicionais, bem administradas, bem instruídas, e existe uma parcela razoável de irmãos que são realmente maçons, e que são a esperança de uma Maçonaria melhor no futuro.

Estes flagelos foram mencionados mais em sentido de alerta, pois a Maçonaria tem que ser mudada quer no campo administrativo, histórico doutrinário e moral. Há que ter um replanejamento, um reciclamento urgente

É preciso ter a ousadia e a coragem de citar os males que assolam a Ordem no Brasil e a prudência de sugerir soluções que possam melhorá- la.

Entretanto prosseguindo, parece que tudo vai bem. Fala-se muito em tolerância, todo maçom é livre e de bons costumes. Ledo engano. A maioria dos irmãos não sabe por que está na Ordem e não sabe o que é tolerância. São maçons acomodados e coniventes. Mas, tolerância nunca foi conivência.

Uma boa parte dos maçons brasileiros acredita que tudo realmente vai bem. São aqueles irmãos simples, bem intencionados, almas limpas. Não distinguem a maldade, não a vêem dada a sua pouca capacidade de julgamento. Todos são bons para eles e todos são irmãos. Isto lhes basta. Toleram tudo.

Quando um irmão se diz justo e perfeito, porém não é nada disso, os outros justos e perfeitos fingem não saber do que se trata, pois aprenderam a ser fraternais e tolerantes. Ficam calados pela acomodação, e também pela mente embaçada pelo conformismo. E disso se aproveitam os falsos irmãos.

A Maçonaria era muito mais rigorosa no passado. Havia os conselhos de família, o júri em loja e aqueles que não merecessem a ser chamados de irmãos eram eliminados.

Esta análise tem muito de verdade. Se um irmão que sabe discernir o que é tolerável e o que é intolerável, o que é certo e o que é errado. tiver a coragem de denunciar, ele poderá ser considerado um vilão. Há na Maçonaria brasileira uma verdadeira conspiração do silêncio. É um complô da Maçonaria contra ela mesma.

Acredita-se que alem da falta de planejamento que é uma das causas, e também a falta de uma meta racional a ser atingida, um plano de conscientização cultural, e instrução inteligente resolveriam muita coisa. Falta instrução nas lojas. É o mesmo problema da alfabetização. Imaginem se o Brasil numa campanha total e heróica do governo resolvesse acabar com o analfabetismo. Mudaria totalmente a mente dos brasileiros.

Se na Maçonaria, tivéssemos três sessões mensais, onde alem se praticar uma ritualística correta houvesse palestras, conferências, debates, cursos, mesas redondas, simpósios etc. a respeito da filosofia, história da Ordem, ritualística, bem como de Política como ciência o preparo do maçom seria outro. Quanto às sessões administrativas, deveria haver oficialmente uma por mês. A Diretoria resolveria os problemas burocráticos em sessões paralelas, não ritualísticas.

Cada potência deveria manter encontros trimestrais de aprendizes companheiros e mestres para toda a jurisdição onde fossem apresentados trabalhos e fosse estudada a Instituição como um todo.

Os altos corpos de cada potência, especialmente nas simbólicas deveriam manter uma severa vigilância em cima dos responsáveis pela liturgia e ritualística especialmente com relação às alterações achismos, invenções “enxertos” etc. Não pode haver confusões de ritos e confusões dentro do mesmo rito.

Os responsáveis pelas alterações deveriam constitucionalmente ser controlados e os altos poderes da Obediência deveriam aprovar ou reprovar qualquer modificação após um estudo acurado, com razões históricas inclusive. Os grão-mestres não deveriam participar, pois em regra têm sido eles aqui no Brasil, os responsáveis por tantas mudanças, “achismos” e invenções especialmente ritualísticas. Esta seria uma das maneiras de se controlar tanta alteração que pulula na Maçonaria brasileira, especialmente no rito maior que é o REAA.

Como a unificação total da Maçonaria no Brasil é uma utopia, a união, entretanto não é, e ela já está sendo realizada. As principais potências da Maçonaria Tradicional, não se reconhecem, todavia em suas lojas-base está havendo uma intervisitação sistemática que vem a ser uma das maiores conquistas internas da Ordem no país. Este contato entre irmãos de potências diferentes está trazendo resultados muito importantes. Já não são mais irmãos bastardos e nem primos, agora já são irmãos. E em alguns estados há certa união entre os grão-mestres da várias potências. encontram-se em eventos maçônicos e em congressos realizados em regime de co-participação. Este sintoma é muito interessante. Deveria ser assim em todos os estados. Mas isto não tem o aval da direção geral destas potências, onde seus poderosos chefes têm medo de perder o poder.

Os grão-mestres das principais potências deveriam em todos os estados sentar-se em torno de uma mesa e decidirem problemas de ordem social e política, mas também problemas da Maçonaria como um todo.

Em se tratando de um mesmo rito que se usasse um único ritual o qual seria organizado por uma comissão de irmãos versados em história e ritualística pertencentes a estas potências.

Nos ritos que tem Palavra Semestral, que ela fosse apenas uma para todas as potências.

Correspondências deveriam ser trocadas e levadas a sério entre as potências a respeito de candidatos não desejáveis para serem maçons.

Em cidades em que haja diversas lojas de varias potências, deveria haver um conselho de veneráveis de todas as potências (já existe em várias cidades) uma organização para maçônica, com a chefia de mandato anual, em rodízio de cada potência para tratar de política (não partidária), problemas econômicos, sociais, de segurança que atingem a cidade e a região, filantropia, beneficência e defesa da própria Ordem, a qual é sempre atacada por elementos de algumas religiões ou de inimigos gratuitos. A Maçonaria está muito exposta. Seus flancos estão totalmente desguarnecidos. E ela nunca se defende.

Estas medidas são viáveis e fáceis de serem aplicadas. Bastaria tão somente os grão-mestres descerem um pouco do pedestal de sua autoridade e num gesto de humildade, abrir o seu coração à causa maçônica, e chegarem a um acordo fraternal, racional e transparente e que atendesse o interesse de todos.

O maçom brasileiro necessita com urgência de uma nova vocação, uma meta de um alcance maior, mesmo que pareça impossível, mesmo que seja um sonho, a médio ou até em longo prazo, mas que pudesse unir todos os maçons em torno do mesmo ideal.

O primeiro passo seria através dos mais brilhantes irmãos de cada potência, após estudarem todos os detalhes apresentarem um diagnóstico da Maçonaria brasileira.

Este diagnóstico terá que levar em conta o nosso passado, analisando com muito cuidado o presente e estabelecendo metas, e assim planejadas, estabelecer com segurança, o futuro.

O século XX pode-se considerar perdido, mas o XXI está apenas começando, muito embora já tenha transcorrido um décimo do século. Ainda há tempo de salva-lo, porque o verdadeiro maçom não perdeu o seu amor à Ordem.

Ele crê numa Maçonaria diferente, muito melhor que a atual, numa Maçonaria forte, coesa e representativa com um futuro brilhante desempenhando o seu papel social, e tendo seus membros como verdadeiros lideres da sociedade.

*Loja de Pesquisas Maçônicas Brasil-LONDRINA – PR – Brasil – Trabalho de Emulação
*Loja Regeneração 3ª – LONDRINA- PR – Brasil - Rito Escocês Antigo e Aceito
*Loja Demolay Nelson Dequech Junior – LONDRINA- PR Brasil – Rito de Schröder.

Fonte: JBNews - Informativo nº 311 - 05 de Julho de 2011