Léo G. Santos ·
Porquê abordar este assunto, que parece mais uma questão de sociologia do que de Maçonaria, numa Loja onde o trabalho sobre o simbolismo é primordial?
A resposta é simples: "O orgulho é para um maçom o que uma miragem é para um errante desesperado no deserto". É uma ilusão necessária e irresistível. Por conseguinte, é necessário tornar-se seu senhor através de um trabalho árduo, correndo o risco de permanecer seu escravo submisso.
Como todos sabemos, tudo na Loja é uma dualidade:
• Sol / Lua
• Branco / Preto do pavimento
• Meio-dia / Meia-noite
• Zénite / Nadir
• Este / Oeste
• Norte / Sul
• Coluna J / B
• Espada / Bastão
• 1º Vig. / 2º Vig.
Podemos, portanto, deduzir que o orgulho também tem o seu binómio, é uma realidade. Chama-se humildade. Este termo grego é mais conhecido por "húmus", a terra, que quase beijamos quando passamos pela porta inferior durante a nossa iniciação.
Voltemos ao orgulho para o definir melhor.
"Há uma diferença entre o orgulho e a vaidade. O orgulho é o desejo de estar acima dos outros; é o amor solitário de si próprio. A vaidade, por outro lado, é o desejo de ser aprovado pelos outros. No coração da vaidade está a humildade, uma incerteza sobre si mesmo que é curada pelo elogio".
O orgulho é compararmo-nos com os outros. Não certamente para nos alimentarmos deles e crescermos, mas para os anularmos, a fim de nos tranquilizar-mos quanto aos nossos medos fundamentais. O orgulho é uma manifestação de esquizofrenia: é dizer ao outro: "Preciso de ti para que me reconheças", mas ao mesmo tempo dizer-lhe: "Nego-te para não perder o meu lugar de escolhido, de mais amado".
Assim, tudo o que vou dizer baseia-se no seguinte princípio: "A escuridão não existe como entidade, é apenas o resultado de uma ausência de luz. Da mesma forma que o frio é uma ausência de calor". Assim, parece-me que o orgulho é uma ausência de humildade. Se a humildade é terrena, sólida, concreta, a sua antítese é a vacuidade ou a ilusão.
O maçom que cresceu de acordo com as etapas convencionais da Maçonaria (Aprendiz, Companheiro e Mestre), aquele que estudou os símbolos e os integrou, para lhes dar sentido na vida quotidiana e na fraternidade, torna-se como um fio de prumo. É equilibrado, alinhado, justo e ocupa o seu próprio lugar, com os dois pés bem assentes na terra. Não procura ocupar o lugar do vizinho. Não procura ser considerado mais do que aquilo que se considera ser, simplesmente É.
Por outro lado, o maçom que perdeu a verdadeira intensidade das provas de iniciação sabe muito bem que lhe faltam peças, partes do seu todo pessoal. Não está completamente cheio de si e esta falta leva-o a intelectualizar-se, a fantasiar com o seu espírito. Então, ele pensa! Pensa, encontra respostas lógicas. Discute e, sobretudo, agita-se. Cria perturbações, porque o que é na sua essência mais profunda diz-nos muito mais sobre ele do que aquilo que nos diz com as suas palavras ou gesticulação estéreis.
Surgem então os debates e as rivalidades.
"O orgulho divide-nos ainda mais do que o interesse". O maçom torna-se incapaz de reunir o que está disperso, porque está agora num estado de separação, de divisão e, sobretudo, de discriminação de todas as coisas.
O masculino e o feminino já não são duas faces da mesma moeda, mas dois gêneros humanos distintos que devem ser colocados em dualidade e mesmo em conflito. Para ele, os aprendizes tornam-se pequenos principiantes. Os companheiros são de baixo nível e facilmente humilhados, e todos os outros mestres são rivais que devem ser ultrapassados o mais rapidamente possível.
Este tipo de maçom orgulha-se do seu avental e das suas promoções no seio da Loja. Alguns chegam mesmo a pensar que os cargos são uma forma de reconhecimento, uma forma de patente. Deve ser verdade, porque durante a distribuição dos cargos no início do ano, ouvimos outros irmãos ou irmãs virem felicitá-los pela sua nova nomeação. Pensemos bem: as únicas felicitações possíveis são as que devem vir no fim do ano, quando o oficial fez um bom trabalho.
No século XVIII, Antoine de Rivarol dizia:
"É preciso fazer morrer o orgulho sem o ferir. Porque se o ferirmos, ele não morre".
O orgulho é um animal duro. Quanto mais é ferido, mais incha. Está desligado da realidade das coisas, não tem contato com os seus vizinhos, refiro-me à inteligência do coração ou à da razão. Todos nós conhecemos pessoas eruditas ou muito cultas, mas totalmente cheias de um orgulho que tenta desesperadamente mantê-las acima dos outros, como se os outros pudessem diluí-las. Conheço até uma categoria de orgulhosos que ultrapassam todos os outros. Chamam-lhes os modestos.
Como escreveu La Rochefoucauld nos seus pensamentos: "A modéstia é o mais alto grau de orgulho". Não devemos confundir humildade com modéstia. Jules Renard escreveu: "Ser modesto! É o tipo de orgulho que menos desagrada".
Gostaria agora de vos falar de um outro tipo de orgulho. Chama-se "orgulho espiritual". O seu representante é um escolhido. Ele é o embaixador do Grande Arquiteto na Terra. Está em ligação direta com ele. Foram-lhe atribuídos superpoderes. Faz questão de ser o líder indiscutível da prática do ritual. Pode mostrar-vos a lista dos seus títulos e distinções… em suma, diz-vos com falsa modéstia que o seu percurso maçônico o tornou melhor. Pode até ser condescendente. Este tipo de pessoa é bastante perigoso, porque avança sorrateiramente com a máscara de um maçom que só trabalha para si e não se interessa pela sua própria vida.
Fonte: Facebook_Átrio do Saber