Leonardo Redaelli, CIM 348202 – ARLS PROGRESSO DA Humanidade n°3166 – Grande Oriente do Brasil -RS
O Rito Moderno, também chamado na Europa de Rito Francês ou Rito Francês Moderno, e o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) são, sem dúvida, os dois ritos maçónicos mais praticados na França, e cada um possui uma história, filosofia e ritualística próprias, reflectindo diferentes abordagens da experiência maçónica.
O Rito Moderno surgiu como a versão francesa do rito da Grande Loja de Londres, sendo introduzido em Paris na década de 1720. Ao longo do tempo, passou por diversas revisões que moldaram a sua forma actual, destacando-se as contribuições de Murat (1858), Amiable (1880 e 1887), Blatin (1907), Gérard (130%2) e Groussier (1935). Caracteriza-se por valorizar a simplicidade e a clareza nos rituais, enfatizando princípios como a tolerância, a liberdade de consciência e o humanismo. Os seus rituais são centrados na ética e na moralidade, buscando desenvolver no maçom uma reflexão racional sobre as suas acções e responsabilidades.
Por outro lado, o REAA foi *desenvolvido nas Antilhas Francesas, mais precisamente na Ilha de São Domingos (actual Haiti), a partir da década de 1760, através de Etienne Morin e Henry Andrew Francken. Foi fundado oficialmente em 1801 na cidade de Charleston, nos Estados Unidos. Este rito distingue-se por sua estrutura de 33 graus, sendo que os últimos 30 são administrados por Supremos Conselhos. O REAA mantém uma forte dimensão espiritual, referindo-se ao Grande Arquitecto do Universo e preservando a presença da Bíblia nos altares durante os juramentos, bem como certas tradições religiosas.
A arquitectura ritualística dos templos também evidencia diferenças claras entre os dois ritos. No REAA, o pilar de Boaz se encontra à esquerda ao entrar, enquanto no Rito Moderno está à direita; o pilar de Jaquim segue o oposto. A disposição dos obreiros mostra variações subtis: aprendizes e companheiros ocupam colunas correspondentes em ambos os ritos, mas os vigilantes têm posições distintas, estando no final da coluna no Rito Moderno e no lado oposto no REAA. As movimentações cerimoniais também diferem: ambos iniciam com o pé direito, mas a marcha no REAA começa com o pé esquerdo. A postura, o alinhamento e a esquadria seguem protocolos específicos de cada rito.
As diferenças se estendem à bateria e aos sinais: no Rito Moderno, a bateria é executada com duas batidas curtas seguidas de uma longa; no REAA, são três golpes regulares. Os cordões, faixas e colares variam em cores: o Rito Moderno privilegia o azul-celeste, remetendo às antigas ordens de cavalaria francesa e inglesa, enquanto o REAA utiliza azul-escuro e vermelho, fazendo referência à Ordem Nacional da Legião de Honra instituída por Napoleão Bonaparte. Quanto à nomenclatura das lojas, o Rito Moderno utiliza o termo “lojas azuis” para os três primeiros graus, enquanto o REAA prefere “lojas simbólicas”.
Os gestos e sinais também possuem diferenças significativas. No Rito Moderno, o sinal de ordem do grau de companheiro consiste em colocar a mão direita sobre o coração. No REAA, o gesto é similar, mas complementado pelo braço esquerdo levantado em ângulo recto. As “cinco viagens”, que representam etapas de aprendizagem, diferem igualmente: no REAA, são os Cinco Sentidos, as Ordens de Arquitectura, as Artes Liberais, os Grandes Iniciados e a Glória ao Trabalho; no Rito Moderno, são os Sentidos, as Artes, as Ciências, os Benfeitores da Humanidade e a Glorificação do Trabalho. As ferramentas simbólicas associadas a cada viagem também apresentam pequenas variações.
No tocante aos símbolos centrais, o Rito Moderno destaca a letra G como emblema principal, enquanto o REAA valoriza a Estrela Flamejante, considerando a letra G como parte de um conjunto simbólico maior. Em termos de filosofia, o Rito Moderno tende a privilegiar o racional, a simplicidade e a ética prática, enquanto o REAA mantém uma abordagem mais esotérica, simbólica e espiritualizada, incentivando o aprofundamento pessoal e a reflexão interior.
Hoje, o Rito Moderno é amplamente praticado pelo Grande Oriente da França (GOdF), principal obediência maçónica francesa, enquanto o REAA é seguido por instituições como a Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) e a Ordem Internacional Le Droit Humain. Ambos os ritos continuam a desempenhar papel central na maçonaria francesa e mundial, oferecendo caminhos distintos mas complementares para o desenvolvimento moral, intelectual e espiritual do maçom, mantendo viva a tradição histórica e a riqueza simbólica da Maçonaria.
Diferenças entre Rito Moderno e Rito Escocês Antigo e Aceite | ||
| Moderno | REAA | |
| Senhas | Comunicado durante a cerimónia, junto com os outros “segredos ” | Comunicado ao candidato antes de entrar na loja. |
| Disposição das colunas | J para o noroeste, B para o sudoeste | J para sudoeste, B para noroeste |
| Palavras sagradas | J no 1ª Grau, B no 2ª Grau | B no 1ª Grau, J no 2ª Grau |
| Posição de vigilantes | Ambos no ocidente, o 1ª vigilante ao sul e o 2ª vigilante ao norte (no Brasil, ao noroeste). | O 1º vigilante ao noroeste (na França é ao norte) e o 2º vigilante ao sul |
| Diáconos | Ausente | Presente |
| Grandes Luzes | Sol, lua, mestre da loja | Bíblia, esquadro, compasso |
| “Antiga” palavra de mestre | Substituída, mas conhecida | Substituída, porque foi perdida (regra de três) |
| Divisão do templo | Hekal e Debir | Ocidente e oríente |
| Espada do venerável mestre | Espada reta | Espada Flamigera |
Conclusão
As diferenças entre o Rito Francês e o REAA evocam a antiga disputa entre os Modernos e os Antigos. Os primeiros, filhos da Maçonaria Inglesa que encontrou na França um novo lar, contrastam com os últimos — provenientes das tradições irlandesa e escocesa — que se dedicaram a preservar a sabedoria das antigas obrigações, os Old Charges, guardiãs de um legado medieval.
Dessa dualidade surgem ritos distintos: um, simples e humanista, iluminando a mente com a razão e a fraternidade; outro, profundo e esotérico, conduzindo a alma em busca da luz interior e da transcendência.
Entre o modernismo e o tradicionalismo, cada Irmão traça o seu caminho. Que possa avançar na Maçonaria, estreitar os laços que nos tornam verdadeiramente irmãos e aprender, passo a passo, a vencer suas paixões, submetendo a vontade à razão, e transformar a própria vida em reflexo da luz que busca.
* Não refuto as narrativas que situam o nascimento do Rito Escocês no seio da corte dos Stuarts, tampouco a influência exercida pelo exílio da rainha Henriqueta Maria da França, viúva de Carlos I — rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda —, entre 1649 e 1669, em Paris. Ocorre, porém, que a imprecisão das fontes impede a documentação e a validação científica dessas tradições.
Já a criação da primeira Loja Mãe escocesa, a Respeitável Loja dos Perfeitos Eleitos, fundada por Étienne Morin em 1745, na cidade de Bordeaux, bem como a instituição da Loja São João de Jerusalém, em Marselha, no ano de 1751, por George de Walmon, de origem escocesa, fazem parte da cronologia reconhecida desse rito.
Cabe enfatizar o termo “desenvolvido”, pois ele remete ao trabalho de sistematização que aproximou o rito do formato que viria a ser consolidado em 1801, em Charleston, Carolina do Sul, por John Mitchell e Frédéric Dalcho, quando então nasceu o Rito Escocês Antigo e Aceite.
Bibliografia:
- NETO, Elias Mansur. O Que Você Precisa Saber Sobre Maçonaria. Editora: Universo dos livros, 2005.
- Hodapp, Christopher. Freemasons for dummies. Edição 2. editora John Wiley & Sons. New Jersey.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL – RIO GRANDE DO SUL. Ritual do Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceite. Porto Alegre: Grande Oriente do Brasil – GOB, 2009.
- Grande Loja Maçónica do Estado do Rio Grande do Sul (GLMERGS). Docência Maçónica de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceite. Editora Acácia. Porto Alegre, RS. 2015.

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