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PERGUNTAS & RESPOSTAS

O “Perguntas & Respostas” que durante anos foi publicado no JB News e aqui reproduzido, está agora no “Blog do Pedro Juk” . Para visita-lo ou tirar suas dúvidas clique http://pedro-juk.webnode.com/ ou http://pedro-juk.blogspot.com.br

terça-feira, 26 de abril de 2022

RUÍDOS QUE SIMULAM TROVÕES NA 1ª VIAGEM

Em 27/09/2021 o Respeitável Irmão Roberto Matsumoto, Loja Estrela da Praia Grande, Rito Moderno, GOB-SP, Oriente de Santos, Estado de São Paulo, apresenta a seguinte questão:

TROVÃO DA 1ª VIAGEM

Já nos falamos pelo WhatsApp, estou fazendo um trabalho de pesquisa. Gostaria de saber, no REAA, com relação a sessão de iniciação, qual o significado da música imitando o trovão tocada na 1a viagem? Tem alguma explicação esotérica? Ou somente por se tratar de um elemento do AR?

CONSIDERAÇÕES:

Nas provas pelos elementos, no caso os quatro elementos alquímicos, terra, ar, água e fogo[i] - uma particularidade iniciática do REAA - a alegoria do trovão se associa às tempestades e o movimento revolto e incontrolado do Ar. Nesse sentido, os sons relativos aos trovões se reportam ao caos, elemento natural no princípio das causas e das coisas.

Em linhas gerais, essa alegoria no contexto da 1ª viagem se associa ao começo da senda do iniciado; a infância e o seu guia, onde a criança, incapaz ainda de se dirigir por si só, diante dos obstáculos que se apresentam nessa etapa da vida, é carente de amparo e cuidados iniciais. O guia é o Mestre e a família a Maçonaria.

Nessa conjuntura, os trovões advertem para a presença de obstáculos, tão naturais no caminho daqueles que buscam conhecimento e progressos. Os obstáculos devem ser superados. A sinuosidade do caminho alerta para as dificuldades que devem ser suplantadas até que se alcance do objetivo.

No caráter coletivo da alegoria, essa infância também simboliza o princípio da humanidade onde os homens primitivos eram conduzidos conforme as circunstâncias e agruras da Natureza. De certo modo sugere as etapas a serem vencidas por aqueles que buscam aperfeiçoamento.

Desse modo, as provas dos elementos alquímicos, no REAA recomenda a transformação e o progresso do indivíduo e de uma coletividade.

No contexto iniciático do REAA o elemento Terra é a própria câmara de reflexão. É o emblema das entranhas da Terra. É o berço da transformação, ou seja, nela a semente é fecundada para que ocorra o início de uma nova vida (néo = novo; fiton = planta: neófito). O elemento Ar é representado na 1ª Viagem através do ruído das tempestades e dos trovões. Se reporta à etapa inicial da jornada; a infância e a adolescência. O elemento Água vem representado na 2ª Viagem e simula a juventude e a força da produção. Por fim a 3ª Viagem e o elemento Fogo como artifício de transformação e purificação.

Toda essa estrutura iniciática se conjumina com os ciclos da Natureza, o que de certo modo lembra o renascimento na primavera e morte no inverno (quando a Terra fica viúva da Luz). Assim, se bem compreendida a Arte, a máxima iniciática da morte e da ressureição da Luz é representada emblematicamente pelas Colunas Zodiacais – os ciclos das estações do ano.

Destaque-se que esse corolário emblemático é próprio do REAA, não cabendo essas interpretações em ritos que não admitem essa simbologia solar.

Por fim, conclui-se que o ruído dos trovões (simulação de tempestade e obstáculos) na 1ª Viagem é símbolo do Ar em movimento e as suas consequências na conjuntura iniciática.

E.T. – Assevera-se que essa não é matéria iniciática para o Rito Moderno, mas para o REAA.

[i] Os alquimistas acreditavam que existiam quatro elementos básicos (terra, ar, água e fogo). Segundo eles, os metais evoluem a um grau de pureza ao ponto de se tornar ouro. Graças a essa interpretação, os alquimistas procuravam uma maneira de acelerar este processo em laboratório por meio de experimentos com os quatro elementos. Em síntese era a busca de purificação ou a transformação do vil metal em ouro. Como exemplo iniciático, na Maçonaria é o símbolo oculto da busca da purificação espiritual, ou seja, a Obra so Sol, ou a transformação em ouro espiritual (simbologia alquímica da Câmara de Reflexão estudada no 2º Grau).

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: http://pedro-juk.blogspot.com.br

TOLERÂNCIA E SEUS LIMITES

TOLERÂNCIA E SEUS LIMITES
Rui Bandeira

Em Maçonaria, o conceito de Tolerância não inclui qualquer noção de superioridade do tolerante perante o tolerado. Isto é, não se tolera a opinião ou a crença do outro porque somos boas pessoas e achamos que, devemos fazê-lo, apesar de entendermos que nós é que estamos certos e o outro é que está errado, fazendo-lhe o favor de aceitar que ele tenha opinião errada.

O conceito maçónico de Tolerância existe como corolário do princípio da Igualdade, basilar entre os maçons. Deve-se tolerar e tolera-se a opinião diferente ou divergente do outro, porque, como iguais que somos, cada um tem o direito a ter a sua opinião, como muito bem entenda tê-la. E tolera-se e deve tolerar-se a opinião diferente e divergente do outro em relação à nossa, porque não devemos ter a sobranceria de achar que nós é que somos os iluminados, tocadas pela graça divina de estarmos sempre certos.

Quando o nosso igual tem uma opinião diferente ou divergente da nossa, quatro hipóteses podem existir: ou o outro está errado e nós certos, ou somos nós que estamos errados e é o outro quem está certo, ou afinal estamos ambos errados e é outra qualquer posição que está certa, ou até podemos ambos estar certos, só que em planos, tempos ou condições diferentes.

A Tolerância não é um favor, uma concessão ou uma generosidade. A Tolerância é a simples consequência de se reconhecer que a perfeição humana não existe e, portanto, de admitir como um facto da vida que todos e cada um de nós temos os nossos defeitos, as nossas imperfeições, os nossos acertos e os nossos erros e é, por conseguinte, até mais do que imperativo ético, um ato de inteligência tolerar o outro com os seus defeitos, imperfeições e erros, pois só assim podemos esperar que os nossos sejam, por sua vez, tolerados.

Situações que por vezes são apresentadas como de Tolerância nada têm a ver com a mesma: a "tolerância" do branco em relação ao negro (ou vice-versa) não é mais do que racismo comprometido; a do homem para com a mulher (ou vice-versa), não passa de machismo (ou feminismo) mentecapto; a do cristão para com o judeu ou o muçulmano, ou do judeu para com o muçulmano ou o cristão ou a do muçulmano para com o cristão ou o judeu, mais não significam do que a tentativa de ocultar sectarismo religioso; a do rico em relação ao pobre apenas disfarça o sentimento de culpa pela sorte do conforto material ou desejo de continuar a explorar o deserdado. Porque o branco e o negro são ambos humanos e ambos têm carne e ossos e sangue vermelho e coração e cérebro. Porque homem e mulher se complementam e são mutuamente indispensáveis. Porque cristãos, judeus e muçulmanos creem no mesmo Deus. Porque o rico e o pobre só se enobrecem pelo trabalho.

Quando se fala de Tolerância, é frequente vir à baila a questão dos seus limites. Existe alguma tendência para se considerar existir algo de contraditório entre a Tolerância e a consideração de existência de limites à mesma. A meu ver, esta é uma falsa questão, que um pouco de reflexão facilmente resolve.

Antes do mais, é preciso entender que o conceito de Tolerância se aplica a crenças, a ideias, ao pensamento e respetiva liberdade, às pessoas e sua forma, estilo e condições de vida, mas nada tem a ver com o juízo sobre atos. Cada um de nós deve tolerar, aceitar e respeitar, independentemente da sua diferença em relação a si e ao seu entendimento, a crença alheia, as ideias e o pensamento de outrem, pois a liberdade de crença e de pensamento são expressões fundamentais da dignidade humana. Cada um de nós deve tolerar, aceitar e respeitar o outro, quaisquer que sejam as diferenças que vejamos nele em relação a nós, porque o outro é essencialmente igual a mim, não ferindo essa essencial igualdade as particulares diferenças entre nós existentes. Mas não é do domínio da Tolerância o juízo sobre os atos. O juízo sobre atos efetua-se em função da moral e das regras sociais e legais vigentes.

Explicitando um pouco mais: tenho o dever de aceitar alguém que pense de forma diferente da minha, que tenha uma crença religiosa diferente da minha, uma orientação sexual diferente da minha, um estilo de vida diferente do meu. Mas já não tenho idêntico dever em relação a atos concretos desse outro que se revelem violadores da lei, da moral ou da própria noção de Tolerância. Designadamente, não tenho que tolerar manifestações de intolerância em relação a mim, às minhas crenças e convicções, tal como não só não tenho que tolerar, como não devo fazê-lo, atos criminosos, cruéis, degradantes ou simplesmente violadores das consensuais regras de comportamento social.

Temos o dever de tolerar, de aceitar, a diferença - no estilo, nas ideias, nas crenças, no aspeto ou nas condições individuais. Por outro lado, temos o direito e o dever de ajuizar, de exercer o nosso sentido crítico, relativamente a ações concretas.

Ninguém vive isolado da Sociedade e todos têm de cumprir as regras sociais que viabilizam a sã convivência de todos com todos. Consequentemente, é uma simples questão de bom senso que devemos aceitar, valorizar, integrar as diferenças. Quem é diferente, tem direito a sê-lo. Quem pensa diferente, tem o direito de assim fazer. Mas, por outro lado, o direito à diferença não legitima a atuação desconforme com as regras sociais, legais, morais, em vigor na Sociedade em causa. Ninguém pode pretender só gozar das vantagens sem suportar os inconvenientes. Quem vive em Sociedade tem o direito de exigir que esta e os demais aceitem as suas diferentes ideias, conceções, condição. Mas tem o correlativo dever de respeitar as normas sociais, legais e morais vigentes. Se o não quiser fazer, deve afastar-se para onde vigorem normas que esteja disposto a seguir.

As Sociedades evoluem e é bom que assim seja. Também por isso é inestimável e rica a diferença. Também por isso devemos aceitá-la e aceitar que quem defende ideias ou conceções ou condições diversas da norma procure convencer os demais da bondade das suas escolhas. Isso é Liberdade, isso é Democracia. Nem uma, nem outra subsistem sem a indispensável Tolerância da Diversidade. Mas precisamente por isso - afinal porque quem quer e merece ser respeitado tem o dever de respeitar - o direito de defesa das ideias e convicções, o direito a tentar convencer os demais, o direito a pregar a evolução pretendida, não se confunde com qualquer pretensão de agir como se pretende, se em contrário da lei, do consenso social, da postura moral da Sociedade em que se está inserido.

Resumindo: a Tolerância obriga a respeitar a Diversidade e a diferença; impõe a aceitação da divulgação, da busca de convencimento, mesmo da propaganda das ideias ou conceções diversas. Mas não que se aceitem condutas prevaricadoras do que está legal e socialmente vigente - enquanto o estiver. Por isso entendo que os domínios da Tolerância e do Juízo sobre os atos concretos são diferentes. As ideias, as conceções, as condições confrontam-se, debatem-se, mutuamente se influenciam, enfim interagem no domínio da Liberdade e, assim, da mútua Tolerância. Os atos, esses, necessariamente que têm de respeitar o estabelecido enquanto estabelecido estiver. Se assim não for, o que é aplicável à violação do consenso social não é a Tolerância - é a Justiça, seja sobre a forma de Justiça formal, seja enquanto censura social seja no domínio do juízo individual.

Portanto, onde tem lugar a Tolerância, esta não tem limites. Onde há limites, sejam legais, sejam de normas sociais ou morais, não se está no domínio da Tolerância, mas no domínio do tão justo quanto possível juízo concreto sobre atos concretos.

Fonte: https://a-partir-pedra.blogspot.com

segunda-feira, 25 de abril de 2022

PONTA DO COMPASSO

PONTA DO COMPASSO
(republicação)

O Irmão Lincoln Francisco do Nascimento, Companheiro Maçom da Loja Fé e Trabalho, 635, R⸫E⸫A⸫A⸫, GOB-PR, Oriente de Rio Negro, Estado do Paraná, apresenta a seguinte questão:
lincis@ig.com.br

Em sessão ordinária prévia na Loja Fé e Trabalho, uma dúvida ocorreu aos obreiros desta oficina: na transformação da Loja no Grau de Aprendiz para Loja no Segundo Grau no Rito Escocês Antigo e Aceito, qual ponta do compasso deve passar para cima do esquadro?

Embora o Ritual de Companheiro-Maçom do GOB -PR cite, na página 23, que é a ponta direita que deve ficar sobre o Esquadro, alguns irmãos afirmaram que o correto seria o contrário. E desde então, a dúvida não foi sanada.

A pesquisa em literatura não foi muito frutífera, pois até Castellani em seu livro sobre a Liturgia e Ritualística diz que "uma das pontas" deve ficar sobre o Esquadro, mas não diz qual. Outras obras que pesquisei não cobriam este assunto. A pesquisa em internet eu considero arriscada, pois é território livre onde cada um escreve o que quer. (E arrisco a ler informações sobre o Grau de Mestre, que ainda não é minha intenção, embora minha Exaltação esteja agendada para o próximo dia 12, às 20h. Caso esteja disponível, a vossa presença será muito bemvinda).

CONSIDERAÇÕES:

Por primeira – se o ritual determina que seja a ponta direita da haste do Compasso que deva ficar posicionada sobre o ramo do Esquadro, independente de que as opiniões possam se divergir, a maneira correta é cumprir o que está escrito.

A segunda é a consideração sobre a tradição e a razão que não tem a intenção de afrontar um ritual legalmente aprovado e em vigência, senão o de orientar no que é factualmente verdadeiro.

Como diz o Irmão, nem o saudoso Irmão Castellani fez referência sobre qual a ponta fica sobre o ramo do Esquadro. É simplesmente porque tanto faz. Tanto para a direita como para a esquerda o importante é o entrelaçamento, já que também de maneira tradicional o Esquadro com uma das Luzes Emblemáticas deveria possuir ramos iguais, isto é, sem cabo, já que esse instrumento como parte da tríade emblemática não é o operativo. O operativo - com cabo - é aquele presente na joia do Venerável.

Infelizmente, não raramente se vê o inverso acontecendo. Nesse sentido, aparecem questões se uma das hastes do Compasso sobrepõe - no caso do Grau de Companheiro - o cabo ou o ramo do Esquadro. Ora, se sobre o ponto de vista autêntico, esse Esquadro possui ramos iguais, daí também tanto faz.

Voltando ao caso do Compasso, muitas interpretações hauridas de autores temerários, e desta uma se faz bastante presente como uma carcaça do dinossauro (difícil de consumir) é a de que a ponta do Compasso deve apontar para o lado dos Companheiros.

Ora, isso é mera filigrana que não exara qualquer lição doutrinária racional, até porque a tríade emblemática fica sobre o Altar dos Juramentos e este fica no Oriente. O Oriente é um quadrante, portanto em Maçonaria ele é o Leste da Loja (não existe Norte, Sul e Ocidente do Oriente). Ainda para os que sugerem essa bobagem de se apontar para os Companheiros, então o Esquadro apontaria um dos seus ramos para os Aprendizes? Como, se os ramos desse instrumento ficam voltados para a extremidade do Oriente (parede). Ao que me consta os Aprendizes no Rito Escocês Antigo e Aceito tomam assento no topo do Norte e os Companheiros no topo do Sul.

Rematando: corretamente em relação ao entrelaçamento do Esquadro e do Compasso, o importante é entrelaçar, não importando qual é o lado que fica por baixo ou por cima.

Se fosse dada a devida importância para o Grau de Companheiro como ele realmente merece, esse entrelaçamento sugeriria belíssimas lições de aperfeiçoamento humano. Todavia, como a ordem dos tambores parece não alterar o oleoduto, fica mais simples preconizar a pobre referência que a haste liberta aponta para a banda dos Companheiros em Loja.

Ah! Existem também as interpretações ocultistas e misteriosas. Sobre essas eu me nego arguir, já que a razão maçônica repudia em mim essas ilações, muito embora alguém já tenha dito: “eu não creio nas bruxas, mas que elas existem, elas existem”.

T.F.A. 
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: Fonte: JB News – Informativo nr. 751 Florianópolis (SC) – 16 de setembro de 2012

MAÇONS NEGROS: UMA AGENDA PERDIDA

MAÇONS NEGROS: UMA AGENDA PERDIDA
(transcrito do Jornal O Globo de 15.06.2003, 1º caderno, pág.7) 

Um dos capítulos mais memoráveis da história brasileira é a relação da maçonaria com a comunidade negra. A instituição dos pedreiros-livres teve (e tem) grandes quadros negros. Ela organizou a luta pela libertação do país em diversos momentos históricos – desde fins do século XVII, quando chegou ao Brasil – e se fortaleceu institucionalmente ao lutar por mais de 50 anos pela libertação dos escravos. 

Este ano, a lei que libertou os escravos completa 115 anos de existência, após ser assinada pela Princesa Isabel sob a influência dos ministros maçônicos do Império já enfraquecido pelo ideário republicano. Para se ter uma idéia, o famoso trio abolicionista do século XIX – os mulatos André Rebouças, José do Patrocínio e Luiz Gama – era composto de Maçons em lojas cariocas e paulistas. Foram eles que fundamentaram a cultura da libertação dos negros através de artigos, manifestos, atos públicos, conquista de adeptos para a causa e com discursos inflamados país afora. 

Com apoio maçônico, o trio afro-descendente ligou seus nomes definitivamente à causa da libertação negra. Essa luta contou com a participação, na época, de quase todas as Lojas Maçônicas espalhadas p-elo país. 

Considerando um dos pioneiros da engenharia brasileira, Rebouças foi um dos maiores planfetários da causa negra na Escola de Engenharia do Largo de São Francisco, e criador de vários jornais abolicionistas. 

No mesmo ritmo de Rebouças, o jornalista José do Patrocínio percorria o país conclamando os Irmãos Maçons a aderirem, à causa da libertação. Já o advogado Luiz Gama, escrevia poesias e discursos de forte impacto para fortalecer a causa da libertação dos escravos. 

Tido como mulato, Rui Barbosa foi acusado de ter ordenado a queima de documentos referentes às origens dos escravos no Brasil, dificultando, com isso a recuperação da identidade afro-brasileira. 

No entanto, Rui Barbosa, como Maçom da Loja América, de São Paulo, talvez tenha produzido um dos documentos mais percucientes do movimento abolicionista. Em 7 de julho de 1868 na Loja América, Rui Barbosa leu o seu Projeto de Abolição, cuja cópia foi reproduzida em suas obras completas. Esse projeto, entre outras medidas, previa que: 

1. A Maçonaria, dali por diante, deveria lutar pela emancipação do escravo e criar meios para educa-lo para novas tarefas em nova sociedade, de fundo capitalista, onde o trabalhão era assalariado e não escravo; 

2. Todas as Lojas Maçônicas atuais e futuras não receberiam tal título se não adotassem a luta pela emancipação dos escravos; 

3. Todas as Lojas Maçônicas deveriam criar um fundo especial para comprar alforrias de crianças escravas e mesmo de adultos; 

4. Todas as Lojas Maçônicas deveriam criar escolas diurnas e noturnas para a educação dos ex-escravos, como forma de reparação pelo crime de escravismo; 

5. A partir daquele momento ninguém seria iniciado na Ordem se tivesse escravos ou ligação com os traficantes.

Divulgado em outras Lojas, o Projeto de Rui Barbosa acabou influenciando as demais unidades maçônicas espalhadas pelo Brasil. No Amazonas, a Maçonaria comprou um jornal, assumiu a sua direção e passou a veicular a luta abolicionista através de artigos e estudos. No Ceará, o então governador Maçom Sátiro Dias, assinou decreto extinguindo a escravidão naquele Estado, em 1884. Foi o primeiro Estado brasileiro a libertar os negros, quatro anos antes da Lei Áurea. 

Passados 115 anos da libertação, a situação da comunidade negra permanece inalterada. A agenda dos Maçons negros, subscrita por Rui Barbosa, Rebouças, Gama, José do Patrocínio, Nabuco de Araújo, Pimenta Bueno Euzébio de Queiroz e outros nomes de destaque, foi perdida. Essa agenda pedia que fossem implementadas para o ex-escravo a reforma agrária, educação integral, criação de centros de saúde, políticas especiais para crianças, qualificação de mão-de-obra, desenvolvimento comunitário – reivindicações tão comuns nos dias de hoje.

Fonte: Informativo JBews nº 0169 - 12/02/2011

domingo, 24 de abril de 2022

PASSAGENS RITUALÍSTICAS NA CERIMÔNIA DE EXALTAÇÃO

Em 27.09.2021 o Respeitável Irmão Cadmo Soares Gomes, Loja Estrela de Brasília, 1.484, REAA, GOB-DF, Oriente de Brasília, Distrito Federal, apresenta as seguintes questões:

PASSAGEM RITUALÍSTICA DA EXALTAÇÃO

Em recente cerimônia de Exaltação em minha Loja (REAA), surgiram duas dúvidas, sobre as quais rogo a bondade de seu abalizado esclarecimento:

(1) Em que momento é retirada a c∴ que cinge o Exaltando? É logo após o Presidente autorizar que passe? [p. 112, Ritual Gr 3, 2009]

(2) Quando o Exaltando é deitado no esq∴, tendo sido "derrubado" pelo emp∴ do m∴ do Presidente em sua t∴, o rosto dele é coberto com o p∴ b∴ manch∴ de s∴, com o próprio pano preto que recobre o seu c∴ ou o r∴ não é coberto? O Ritual não esclarece. [p. 119]

CONSIDERAÇÕES:

1 – Depois de ter obtido do Respeitab∴ M∴ a autorização para passar, o Ven∴ Ir∴M∴ de CCer∴ conduz o exaltando ao Oc∴ para que ele possa dar os pp∴ e se aproximar do Alt∴. 

Ao alcançarem o Oc∴, e antes de dar os ppas∴, a cord∴ é então retirada (essas orientações atualmente já se encontram na plataforma do GOB RITUALÍSTICA, SOR, procedimentos para o ritual de Mestre Maçom do REAA).

2 – Após o golp∴, o exaltando é derrubado cuidadosamente de costas ficando com os pp∴ voltados para o Or∴ quando em seguida é coberto com o pano mort∴ (mortal∴) dos pp∴ até a altura do seu ombro (o rosto fica descoberto).

Ambos os bbr∴ ficam eest∴ ao longo do corp∴. Sobre o peito, por cima da mortal∴ vai um ramo de Acácia. Desta vez não é usado o p∴ b∴ manch∴ que simula s∴. Este só é usado ainda na representação inicial quando Mestre mais novo representa o corp∴ de H∴ diante do candidato, que acaba de entrar (essas orientações atualmente já se encontram na plataforma do GOB RITUALÍSTICA, SOR, procedimentos para o ritual de Mestre do REAA).

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: http://pedro-juk.blogspot.com.br

NEM TUDO O QUE CAI NA REDE É PEIXE

NEM TUDO O QUE CAI NA REDE É PEIXE
José Maurício Guimarães

De uns quinze anos para cá, a internet vem se transformando numa “tribuna” maçônica de preferência, substituindo o cenário apropriado onde instruções, debates e mesmo decisões deveriam, por tradição, serem tomados: as Lojas.

Com a pandemia, essa realidade se impôs ainda mais. E não sabemos por quanto tempo, e de qual forma, sobreviveremos como fraternidade iniciática sentados numa poltrona, com celulares nas mãos, aceitando que a realidade virtual imite a vida.

A Maçonaria, assim como todas as escolas, as religiões, universidades, agremiações e clubes, carece – precisa e exige – do contato pessoal, o diálogo humano: às vezes íntimo e confidencial – para que se concretizem objetivos maiores.

Desde que as Lojas foram substituídas pelo WhatsApp, pelo Facebook, YouTube, Messenger, Instagram, Twitter, LinkedIn, Skype, TeamLink, Zoom, Meet e outras bugigangas eletrônicas, não é impossível imaginarmos que, num futuro próximo, nossas reuniões sejam protagonizadas por robôs ritualísticos paramentados e avatares digitalizados que comandaremos de casa, através de um celular chinês, no conforto de nossa poltrona favorita, de pijama listrado e tendo aos pés nosso fiel amigo, o cão, com toda a criançada correndo e festejando intermináveis férias.

Quanto ao conteúdo dessas formidáveis sessões em Bits e Bytes, Terabytes, sistemas operacionais, Aplicativos e “memórias RAM” (já que não temos nenhuma outra memória humana), só nos resta especular sobre CONTEÚDOS e precedência ÉTICA (leiam com calma: eu não disse PROcedência e sim PREcedência – isto é: “situação do que vem antes, que precede, condição do que deve estar em primeiro lugar”).

PRIMEIRA ESPECULATIVA: quais são os temas constituintes do verdadeiro estudo maçônico? Seria algum dos ramos da Antropologia, da Arquitetura, da Astronomia, da Biotecnologia, Ciência Política, Ciências Naturais, Direito, Economia, Filosofia, Física, Geografia, História, Linguística, Matemática, Meteorologia, Oceanografia, Pedagogia, Psicologia, Química, Sociologia, etc. etc.? Resposta: “NÃO, absolutamente não. Esses saberes são úteis, são quase perfumarias e adornos; mas NÃO CONSTITUEM O VERDADEIRO ESTUDO MAÇÔNICO” (desculpem-me as maiúsculas).

Saber que Frederico "Barba Ruiva" herdara o Ducado da Suábia; que Branca de Castela tornou-se regente em nome do filho Luís IX de França; saber que rei anglo-saxão Athelstan era filho de Eduardo, o Velho e sua primeira esposa Ecgvina (mulher de baixa condição social); saber que nucleotídeos são formados pela esterificação do ácido fosfórico e nucleosídeo, ou que a palavra liberdade em grego pronuncia-se "elefthería"..., nada disso fará de mim ou de você um Maçom Autêntico. Nem sequer a untuosidade de alguém ser expert em ritualística lhe garante o galardão supremo de Homem Maçom.

SEGUNDA ESPECULATIVA: qual o tema fundamental, determinante do único e verdadeiro estudo maçônico? Resposta: “A proposição e assunto fundamentais do autêntico estudo maçônico é o ser humano em sua dimensão moral, ética e social.” É disso – dimensão moral, ética e social – que não se fala nas redes sociais – nem uma string, nenhuma Url, inacessível tema para os browsers, desconhecida filosofia para os chips ou os mais velozes modens; dimensões raízes alheias às nossas placas-mães, assuntos abafados pelos Query e webmastersda vida; sobre essa moral e a desejada ética, dá-se OnDoubleClick, um inesperado reset, dá um “boot”, ... é o BUG! – e tudo pode acontecer bem debaixo dos nosso empinados narizes.

Já dizia um pensador italiano (de esquerda) chamado Antônio Gramsci: “A crise consiste no fato que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno ocorrem os fenômenos mais diversos e anormais.”

sábado, 23 de abril de 2022

TÍTULO DADO AO SUBSTITUTO EMERGENCIA DO VENERÁVEL MESTRE

Em 23.09.2021 o Respeitável Irmão Luís Zangirolami, Loja Marco Zero, 94, REAA, GLMEES, Oriente de Vila Velha, Estado do Espírito Santo, apresenta a seguinte questão:

TÍTULO DO SUBSTITUTO

Qual o título do substituto do Venerável Mestre quando este não é instalado? Refiro-me ao 1º Vigilante.

CONSIDERAÇÕES:

Antes de mais nada, vale a pena mencionar que essa não é uma situação corriqueira, mas de caráter emergencial.

No REAA, ocorrendo a ausência do titular do primeiro malhete, em sendo uma sessão ordinária, assume precariamente o cargo o 1º Vigilante.

Nessa ocasião, o substituto, mesmo não sendo um Mestre Maçom Instalado, deve ser tratado como Venerável Mestre, pois esse é o cargo que o substituto preenche naquele momento.

Nessa oportunidade o substituto deve vestir a joia de Venerável Mestre da Loja e ocupar o trono – isso nada tem a ver com Instalação de um Venerável Mestre eleito, mas uma substituição emergencial (precária) como solução a bem dos trabalhos da Loja.

Se a sessão for magna de Iniciação, Elevação ou Exaltação aí assume o ex-Venerável Mestre mais recente da Loja. Algumas Obediências só exigem um Mestre Instalado no momento da sagração do candidato.

No geral, é preciso se levar em conta que às vezes damos mais valor ao molho do que à carne, até porque se bem observada a arte, ver-se-á que cerimônia esotérica de instalação não é original no REAA. Por aqui (no Brasil) essa instalação generalizada em todos os ritos é uma adaptação arranjada, pois de fato, instalação é original na Maçonaria Inglesa, o que não é o nosso caso.

Nesse sentido, salvo algumas deturpações latinas, na França instalação significa simplesmente posse, e o Venerável Mestre que deixa o seu cargo é tratado como Ex-Venerável mais recente.

Desse modo, no concernente à sua questão, quem substitui o Venerável de ofício durante os trabalhos se a ocasião exigir, simplesmente faz o papel de Venerável Mestre, seja ele ou não um Mestre Maçom Instalado. Diga-se de passagem, que Mestre Instalado não é grau, mas um título honorífico dado por aqui aos Ex-Veneráveis.

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: http://pedro-juk.blogspot.com.br

MAÇONS FAMOSOS

INICIAÇÃO MAÇÔNICA DE OLIVER HARDY

OLIVER NORVELL HARDY (Harlem, Geórgia, 1892 – Los Angeles, 1957). Ator cômico norte-americano que formou, ao lado de Stan Laurel, a famosa dupla “O Gordo e o Magro”, que atuou desde a época do cinema mudo até 1957. Quando estava gravando em Hollywood, frequentava as lojas locais assiduamente. Na ocasião do falecimento seu corpo foi cremado, após homenagens póstumas maçônicas e suas cinzas foram sepultadas no Masonic Garden of Valhalla Memorial Park em North Hollywood.

INICIAÇÃO MAÇÔNICA: 1913.

Loja: Salomão nº 20, Flórida, Estados Unidos.

Idade: 21 anos.

Oriente Eterno: Faleceu aos 65 anos de idade, vítima de Acidente vascular cerebral (AVC).

Fonte: famososmacons.blogspot.com

EM TEMPO DE GUERRA, A LUCIDEZ POSSÍVEL

EM TEMPO DE GUERRA, A LUCIDEZ POSSÍVEL
Rui Bandeira

Todos vamos vendo as imagens. Todos nos sentimos indignados com a barbárie, com a inútil destruição, com a contabilidade, sempre crescente, do número de mortos. Todos nos emocionamos com as imagens de mulheres, idosos e crianças em fuga desesperada aos horrores da guerra que lhes bateu à porta e, sem pedir licença, lhes entrou pela vida dentro.

A primeira reação é tomar partido. A nossa simpatia vai para quem foi agredido, todos os que foram agredidos. A nossa condenação, dirigimo-la ao agressor, a todos os agressores. Logo de seguida – e muito bem! – desperta a nossa solidariedade, a busca de meios para ajudar quem sofre.

É natural, é humano, horrorizar-nos com o horror, solidarizar-nos com a vítima, condenar o agressor. É quase que instintivo fazê-lo. As nossas emoções impelem-nos a tal. Qual pintura impressionista, retemos a noção geral de que os agredidos, a Ucrânia e a população ucraniana, são as vítimas e que os russos são insensíveis agressores. De um lado os bons, do outro os maus.

Mas a nossa Razão, sendo influenciada pela nossa Emoção, deve impelir-nos a ir para além dela. Se tivermos o cuidado de verificar alguns dados, saberemos que, segundo o censo ucraniano de 2001, mais de oito milhões de residentes na Ucrânia (um pouco mais de 17 % da população total) são russos. É certo que no Dombass, a região mais a leste da Ucrânia, vivem – ou viviam? – cerca de quatro milhões e meio de russos e que esta região não é atacada pelas tropas às ordens de Putin. Mas ainda sobram cerca de três milhões e meio de russos que vivem – ou viviam? – no resto da Ucrânia e que, por isso, sofrem também bombardeamentos, também têm que se abrigar no subsolo ou onde puderem, também estão tão cercados ou atacados como o resto dos seus concidadãos. Um morteiro ou míssil russo, ao explodir, tanto pode matar ucranianos como russos.

Não obstante, neste confronto entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelenski, naturalmente que a nossa simpatia vai para este, a nossa condenação para aquele.

Mas temos que ter em atenção que muitos mais Volodymyr há na Ucrânia e muitos mais Vladimir há na Rússia. E que, se é certo que muitos desses Volodymyr são heróis como o seu Presidente que resiste, outros não o serão tanto assim e seguramente que também alguns haverá que não são flor que se cheire… E, no outro lado, nem todos são filhos de Putin!

Isto é facilmente entendível pela nossa Razão, mas dificilmente aceite pela nossa Emoção. Mas, em tempos de conflito, se temos de atender à nossa Emoção, temos que deixar que continue a ser a nossa Razão a sobrepor-se, a ter a última palavra. Senão, nós próprios cometemos injustiças que, para além de o serem, são sobretudo estúpidas!

Nos últimos dias, vimos e ouvimos notícias de que, cá pelo burgo, nas nossas escolas, crianças russas estavam a ser atacadas, injuriadas, agredidas, só por serem… russas. Mas que culpa têm as crianças de terem nascido num lugar e não em outro, de terem pais de uma nacionalidade ou grupo étnico e não de outro?

Este exemplo, infelizmente real, mostra-nos que não podemos, não devemos, ver o Mundo a preto e branco, os maus de um lado, os bons do outro. Nem todos os russos são agressores (aliás, suspeito, que muitos são, em primeiro lugar, oprimidos…), nem, seguramente, todos os ucranianos gostaríamos de ver casados com as nossas filhas…

Solidariedade e auxílio ao Povo Ucraniano, sim! São os agredidos, batem-se heroicamente em defesa da sua terra, das suas casas, das suas famílias, e merecem todo o apoio que lhes pudermos dar.

Mas tenhamos a lucidez de entender que, do outro lado, não podemos generalizar e classificar todos como os maus, os agressores, os violentos. Do outro lado, também há já milhares de detidos por se manifestarem contra a agressão à Ucrânia. E certamente que muitos combatem só porque são obrigados a fazê-lo.

Nesta guerra, não se trata de um Povo atacar outro. Trata-se um Poder Político atacar outro, indiferente ao sofrimento que causa aos Povos, o do outro e o dele próprio.

Sanções ao país agressor, sim, mas com a noção de que o sofrimento que se inflige ao povo do país agressor não se destina a punir, a castigar, esse povo, mas sim a induzir a cessação da agressão, talvez até por revolta desse povo contra o verdadeiro agressor.

Solidariedade e apoio aos agredidos, sim. Condenação ao agressor, também sim. Mas não deixemos de identificar bem quem é o agressor e quem apenas é utilizado, mandado, quiçá obrigado, por ele.

Esta distinção entre quem na realidade agride, manda agredir e obriga a agredir (e, não sejamos ingénuos, não é só Putin, é ele e toda uma clique que se assenhoreou do poder, para benefício próprio e não do povo que governam) e quem apenas obedece porque tem de obedecer, porque a revolta só é possível quando estão reunidas as condições para que ela possa emergir, é essencial, em termos de futuro.

Porque, por muito difícil, por muito desesperada, por muito horrível que esteja a situação atual, há algo que não podemos olvidar: tal como à Tempestade sucede a Bonança, depois da Guerra há de vir a Paz.

Em tempos de guerra, temos o dever de ajudar quem sofre, quem é agredido, mas não podemos perder de vista que há que preservar as condições para que, o mais brevemente possível, se alcance a Paz. A guerra pode ser desencadeada, pode ser mantida por um qualquer detentor do Poder. Mas a Paz, essa, só é possível entre Povos. Muitas feridas haverá que cicatrizar para que, da mera deposição das armas, se chegue à verdadeira Paz. Para que tal se consiga, temos que ter e transmitir a noção de que os Povos não são inimigos, que o inimigo é quem desencadeia, propicia e mantém a guerra. Porque os Povos, de um e do outro lado, o que anseiam é pela Paz.

Portanto, condenação de Putin e dos filhos de Putin que constituem a clique que lançou e mantém esta barbárie, auxílio ao Povo Ucraniano, mas também solidariedade com quem, de um e do outro lado, quer a Paz e é obrigado, por vontade de alguns, a suportar a guerra.

Solidariedade, principalmente, com todas as crianças, de um e do outro país – e com as crianças russas em Portugal -, que não têm culpa nenhuma dos desvarios dos detentores do Poder.

Fonte: https://a-partir-pedra.blogspot.com

sexta-feira, 22 de abril de 2022

ORDEM DO DIA E PALAVRA A BEM DA ORDEM

ORDEM DO DIA E PALAVRA A BEM DA ORDEM
(republicação)

O Respeitável Irmão Ivan Barbosa Teixeira, Loja Vale do Itapemirim, 1.959, GOB-ES, Oriente de Marataízes, Estado do Espírito Santo, apresenta a questão que segue:
blackbeltrio@hotmail.com

Peço-lhe informação sobre um assunto um tanto controverso em minha Loja. Embora o próprio nome definir, pois no ritual é dito que a palavra será franqueada a qualquer um dos irmãos para que se pronunciem a bem da Ordem (maçonaria em geral) e do quadro em particular (loja), nosso Primeiro Vigilante afirma que a mesma só deva ser utilizada para se fazer algum comunicado relevante a Loja, e qualquer outro assunto deverá ser utilizado a Ordem do Dia, previamente informando ao Venerável.

O meu questionamento seria: A palavra a bem da ordem e do quadro em particular deve ser usada apenas para comunicados a Loja, ou caberia nesse momento outros assuntos relevantes que não ocasionassem votação ou retóricas? Devemos só nos ater a comunicações? E a Ordem do dia não deveria ser utilizados para assuntos que merecessem ser discutidos e votados pelos irmãos? O que cabe a cada momento?

CONSIDERAÇÕES:

O tema que envolve o período da Ordem do Dia na Maçonaria para os ritos que há possuem tem sido muito mal compreendido por uma boa parte dos Irmãos.

Essa ocasião existe para assuntos que dependem de discussão e votação, daí o parecer do Orador ser necessário no tocante a legalidade do assunto.

Assim entram também proposições e requerimentos que merecem conclusões. Dessa maneira é sempre de boa geometria que a pauta relativa ao período seja previamente organizada pelo Venerável Mestre, muito embora possa até aparecer na Sessão assunto que demanda um caráter de urgência oriundo da bolsa das Propostas e Informações.

Eu tenho sempre dito que alguns assuntos que porventura mereçam severas discussões, o ideal é terem os seus tratos em uma Sessão Administrativa sem o giro da palavra, fato que indubitavelmente dá um caráter objetivo na conclusão do fato. Assim discutido e esmiuçado, dependendo do caso passado pelas comissões, formaliza-se a sua votação na próxima Sessão Ordinária.

Gostar-me-ia aqui de reforçar a atenção do Guarda da Lei para a legalidade da matéria, fato que se bem observado não levará à Loja discussões inócuas que geralmente engrossam a perda de tempo. Citamos aqui alguns incompatíveis exemplos corriqueiros – apresentação de peças de arquitetura na Ordem do Dia, assuntos de ordem de uma Sessão de Finanças, discussão se o jantar será acompanhado de frango ou churrasco, comentários sobre notícias oriundas dos jornais falados e escritos, Irmão saudando e elogiando Irmão “in massageando egos”, comentários políticos e quando não, religiosos, etc., etc.

Justamente por essa imensa perda de tempo, quando ela acontece é que estamos cansados de ouvir o Venerável pedindo ao Orador que “pelo adiantado da hora, seja suspenso o período de Instrução”. 

Pior ainda é quando existe aquele “complemento bestial” – “a Ordem do Dia hoje já serviu de instrução”. De fato, porém se serviu para alguma coisa foi para instruir o que não se deve fazer em uma sessão maçônica.

Já a Palavra a Bem da Ordem em Geral e do Quadro em particular, tem o objetivo de dar aos Irmãos a possibilidade de fazerem comunicações concernentes à Maçonaria em geral e da Loja em particular. 

Nesse período não se apresentam propostas ou coisas do gênero, sendo então comunicados de forma concisa e objetiva assuntos que verdadeiramente digam respeito. Por exemplo, é o momento em que o Chanceler comunica datas comemorativas relativas à Ordem e aos Obreiros do Quadro (aniversários natalícios, casamentos, lembranças, etc.). É possível também algum Irmão lembrar à Loja algum assunto esquecido, porém apenas lembrar para que o mesmo seja tratado em outra ocasião. O Tesoureiro também pode fazer alguma comunicação, porém apenas comunicação. É praxe os visitantes se manifestarem tecendo os seus agradecimentos ou fazendo algum convite. Enfim, todos têm o direito de usar a palavra, todavia sobre assuntos que digam respeito ao período, usando sempre a prática da objetividade desprovida dos rançosos lirismos. 

Exemplos de pronunciamentos que devem ser evitados - o uso da palavra para concordar com o que outro Irmão já falou, quando então não repeti-lo (os papagaios maçônicos), fazer comunicações a respeito de graus que não sejam os do simbolismo, fazer saudações aos visitantes (isso é tarefa do Orador), voltar assuntos já anteriormente discutidos na Sessão por ocasião da Ordem do Dia, e por aí vai.

Se bem entendida a Arte, o desenvolvimento da Sessão é prático, objetivo e recheado de conteúdo. Se mal entendida, ela se torna maçante, sem resultado, complica o Secretário que tem que registrar a imensa quantidade de retóricas inúteis. Isso chega a complicar até a próxima Sessão, pois se o Secretário esquecer-se de relatar o “blá, blá, blá”, os produtores do “nhem, nhem, nhem”, voltam a pedir a palavra para acrescentar o irrelevante.

T.F.A. 
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: JBNews - Informativo Nr. 750 - Florianópolis (SC), 15 de setembro de 2012

A FILOSOFIA DE DESCARTES

A FILOSOFIA DE DESCARTES
(Pesquisa JB News)

René Descartes, nascido em 1596 em La Haye - não a cidade dos Países Baixos, mas um povoado da Touraine, numa família nobre - terá o título de senhor de Perron, pequeno domínio do Poitou, daí o aposto "fidalgo poitevino".

De 1604 a 1614, estuda no colégio jesuíta de La Flèche. Aí gozará de um regime de privilégio, pois levanta-se quando quer, o que o leva a adquirir um hábito que o acompanhará por toda sua vida: meditar no próprio leito. Apesar de apreciado por seus professores, ele se declara, no "Discurso sobre o Método", decepcionado com o ensino que lhe foi ministrado: a filosofia escolástica não conduz a nenhuma verdade indiscutível, "Não encontramos aí nenhuma coisa sobre a qual não se dispute". Só as matemáticas demonstram o que afirmam: "As matemáticas agradavam-me sobretudo por causa da certeza e da evidência de seus raciocínios". Mas as matemáticas são uma exceção, uma vez que ainda não se tentou aplicar seu rigoroso método a outros domínios. Eis por que o jovem Descartes, decepcionado com a escola, parte à procura de novas fontes de conhecimento, a saber, longe dos livros e dos regentes de colégio, a experiência da vida e a reflexão pessoal: "Assim que a idade me permitiu sair da sujeição a meus preceptores, abandonei inteiramente o estudo das letras; e resolvendo não procurar outra ciência que aquela que poderia ser encontrada em mim mesmo ou no grande livro do mundo, empreguei o resto de minha juventude em viajar, em ver cortes e exércitos, conviver com pessoas de diversos temperamentos e condições". 

Após alguns meses de elegante lazer com sua família em Rennes, onde se ocupa com equitação e esgrima (chega mesmo a redigir um tratado de esgrima, hoje perdido), vamos encontrá-lo na Holanda engajado no exército do príncipe Maurício de Nassau. Mas é um estranho oficial que recusa qualquer soldo, que mantém seus equipamentos e suas despesas e que se declara menos um "ator" do que um "espectador": antes ouvinte numa escola de guerra do que verdadeiro militar. Na Holanda, ocupa-se sobretudo com matemática, ao lado de Isaac Beeckman. É dessa época (tem cerca de 23 anos) que data sua misteriosa divisa "Larvatus prodeo". Eu caminho mascarado. Segundo Pierre Frederix, Descartes quer apenas significar que é um jovem sábio disfarçado de soldado. 

Em 1619, ei-lo a serviço do Duque de Baviera. Em virtude do inverno, aquartela-se às margens do Danúbio. Podemos facilmente imaginá-lo alojado "numa estufa", isto é, num quarto bem aquecido por um desses fogareiros de porcelana cujo uso começa a se difundir, servido por um criado e inteiramente entregue à meditação. A 10 de novembro de 1619, sonhos maravilhosos advertem que está destinado a unificar todos os conhecimentos humanos por meio de uma "ciência admirável" da qual será o inventor. Mas ele aguardará até 1628 para escrever um pequeno livro em latim, as "Regras para a direção do espírito" (Regulae ad directionem ingenii). A idéia fundamental que aí se encontra é a de que a unidade do espírito humano (qualquer que seja a diversidade dos objetos da pesquisa) deve permitir a invenção de um método universal. Em seguida, Descartes prepara uma obra de física, o Tratado do Mundo, a cuja publicação ele renuncia visto que em 1633 toma conhecimento da condenação de Galileu. É certo que ele nada tem a temer da Inquisição. Entre 1629 e 1649, ele vive na Holanda, país protestante. Mas Descartes, de um lado é católico sincero (embora pouco devoto), de outro, ele antes de tudo quer fugir às querelas e preservar a própria paz. 

Finalmente, em 1637, ele se decide a publicar três pequenos resumos de sua obra científica: A Dióptrica, Os Meteoros e A Geometria. Esses resumos, que quase não são lidos atualmente, são acompanhados por 
um prefácio e esse prefácio foi que se tornou famoso: é o Discurso sobre o Método. Ele faz ver que o seu método, inspirado nas matemáticas, é capaz de provar rigorosamente a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. Desse modo, ele quer preparar os espíritos para, um dia, aceitarem todas as conseqüências do método, inclusive o movimento da Terra em torno do Sol! Isto não quer dizer que a metafísica seja, para Descartes, um simples acessório. Muito pelo contrário! Em 1641, aparecem as Meditações Metafísicas, sua obra-prima, acompanhadas de respostas às objeções. Em 1644, ele publica uma espécie de manual cartesiano. Os Princípios de Filosofia, dedicado à princesa palatina Elisabeth, de quem ele é, em certo sentido, o diretor de consciência e com quem troca importante correspondência. Em 1644, por ocasião da rápida viagem a Paris, Descartes encontra o embaixador da frança junto à corte sueca, Chanut, que o põe em contato com a rainha Cristina. 

Esta última chama Descartes para junto de si. Após muitas tergiversações, o filósofo, não antes de encarregar seu editor de imprimir, para antes do outono, seu Tratado das Paixões, embarca para Amsterdã e chega a Estocolmo em outubro de 1649. É ao surgir da aurora (5 da manhã!) que ele dá lições de filosofia cartesiana à sua real discípula. Descartes, que sofre atrozmente com o frio, logo se arrepende, ele que "nasceu nos jardins da Touraine", de ter vindo "viver no país dos ursos, entre rochedos e geleiras". Mas é demasiado tarde. Contrai uma pneumonia e se recusa a ingerir as drogas dos charlatões e a sofrer sangrias sistemáticas ("Poupai o sangue francês, senhores"), morrendo a 9 de fevereiro de 1650. Seu ataúde, alguns anos mais tarde, será transportado para a França. Luís XIV proibirá os funerais solenes e o elogio público do defunto: desde 1662 a Igreja Católica Romana, à qual ele parece Ter-se submetido sempre e com humildade, colocará todas as suas obras no Index. 

O Método 

Descartes quer estabelecer um método universal, inspirado no rigor matemático e em suas "longas cadeias de razão". 

1. A primeira regra é a evidência: não admitir "nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal". Em outras palavras, evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto, isto é, o que "eu não tenho a menor oportunidade de duvidar". Por conseguinte, a evidência é o que salta aos olhos, é aquilo de que não posso duvidar, apesar de todos os meus esforços, é o que resiste a todos os assaltos da dúvida, apesar de todos os resíduos, o produto do espírito crítico. Não, como diz bem Jankélévitch, "uma evidência juvenil, mas quadragenária". 

2. A segunda, é a regra da análise: "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis". 

3. A terceira, é a regra da síntese: "concluir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para, aos poucos, ascender, como que por meio de degraus, aos mais complexos". 

4. A última á a dos "desmembramentos tão complexos... a ponto de estar certo de nada ter omitido". 

Se esse método tornou-se muito célebre, foi porque os séculos posteriores viram nele uma manifestação do livre exame e do racionalismo. 

Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? "Aristóteles disse" não é mais um argumento sem réplica! Só contam a clareza e a distinção das idéias. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes, é importante ressaltar, o excluiu expressamente: o político e o religioso (Descartes é conservador em política e coloca as "verdades da fé" ao abrigo de seu método). 

b) O método é racionalista porque a evidência de que Descartes parte não é, de modo algum, a evidência sensível e empírica. Os sentidos nos enganam, suas indicações são confusas e obscuras, só as idéias da razão são claras e distintas. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. A dedução limita-se a veicular, ao longo das belas cadeias da razão, a evidência intuitiva das "naturezas simples". A dedução nada mais é do que uma intuição continuada. 

Metafísica 

No Discurso sobre o Método, Descartes pensa sobretudo na ciência. Para bem compreender sua metafísica, é necessário ler as Meditações

1º Todos sabem que Descartes inicia seu itinerário espiritual com a dúvida. Mas é necessário compreender que essa dúvida tem um outro alcance que a dúvida metódica do cientista. Descartes duvida voluntária e sistematicamente de tudo, desde que possa encontrar um argumento, por mais frágil que seja. Por conseguinte, os instrumentos da dúvida nada mais são do que os auxiliares psicológicos, de uma ascese, os instrumentos de um verdadeiro "exército espiritual". Duvidemos dos sentidos, uma vez que eles freqüentemente nos enganam, pois, diz Descartes, nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto! (Quantas vezes acreditei-me vestido com o "robe de chambre", ocupado em escrever algo junto à lareira; na verdade, "estava despido em meu leito"). 

Duvidemos também das próprias evidências científicas e das verdades matemáticas! Mas quê? Não é verdade, quer eu sonhe ou esteja desperto, que 2 + 2 = 4? Mas se um gênio maligno me enganasse, se Deus fosse mau e me iludisse quanto às minhas evidências matemáticas e físicas? Tanto quanto duvido do Ser, sempre posso duvidar do objeto (permitam-me retomar os termos do mais lúcido intérprete de Descartes, Ferdinand Alquié). 

2º Existe, porém, uma coisa de que não posso duvidar, mesmo que o demônio queira sempre me enganar. Mesmo que tudo o que penso seja falso, resta a certeza de que eu penso. Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida, mas o próprio ato de duvidar é indubitável. "Penso, cogito, logo existo, ergo sum". Não é um raciocínio (apesar do logo, do ergo), mas uma intuição, e mais sólida que a do matemático, pois é uma intuição metafísica, metamatemática. Ela trata não de um objeto, mas de um ser. Eu penso, Ego cogito (e o ego, sem aborrecer Brunschvicg, é muito mais que um simples acidente gramatical do verbo cogitare). O cogito de Descartes, portanto, não é, como já se disse, o ato de nascimento do que, em filosofia, chamamos de idealismo (o sujeito pensante e suas idéias como o fundamento de todo conhecimento), mas a descoberta do domínio ontológico (estes objetos que são as evidências matemáticas remetem a este ser que é meu pensamento). 

3º Nesse nível, entretanto, nesse momento de seu itinerário espiritual, Descartes é solipsista. Ele só tem certeza de seu ser, isto é, de seu ser pensante (pois, sempre duvido desse objeto que é meu corpo; a alma, diz Descartes nesse sentido, "é mais fácil de ser conhecida que o corpo"). 

É pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa solidão. Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente extraordinária. É a idéia de perfeição, de infinito. Não posso tê-la tirado de mim mesmo, visto que sou finito e imperfeito. Eu, tão imperfeito, que tenho a idéia de Perfeição, só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. Por conseguinte, eis demonstrada a existência de Deus. E nota-se que se trata de um Deus perfeito, que, por conseguinte, é todo bondade. Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado. Se Deus é perfeito, ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. Uma vez que Deus existe, eu então posso crer na existência do mundo. O caminho é exatamente o inverso do seguido por São Tomás. Compreenda-se que, para tanto, não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria, o que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável, isto é, a extensão e o movimento). Alguns acham que Descartes fazia um circulo vicioso: a evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata da mesma evidência. A evidência ontológica que, pelo cogito, me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. Por conseguinte, a metafísica tem, para Descartes, uma evidência mais profunda que a ciência. É ela que fundamenta a ciência (um ateu, dirá Descartes, não pode ser geômetra!). 

4º A Quinta meditação apresenta uma outra maneira de provar a existência de Deus. Não mais se trata de partir de mim, que tenho a idéia de Deus, mas antes da idéia de Deus que há em mim. Apreender a idéia de perfeição e afirmar a existência do ser perfeito é a mesma coisa. Pois uma perfeição não-existente não seria uma perfeição. É o argumento ontológico, o argumento de Santo Anselmo que Descartes (que não leu Santo Anselmo) reencontra: trata-se, ainda aqui, mais de uma intuição, de uma experiência espiritual (a de um infinito que me ultrapassa) do que de um raciocínio. 

Fonte: Informativo JBNews nº 0168 - 11/02/2011

quinta-feira, 21 de abril de 2022

PRÁTICA CORRIGIDA NA CERIMÔNIA DE EXALTAÇÃO

Em 23/09/2021 o Respeitável Irmão Deosdete Silva Marins, Loja 20 de Setembro, 4.346, GOB, REAA, sem mencionar o nome do Oriente e Estado da Federação, apresenta a seguinte questão:

PROCEDIMENTO NA EXALTAÇÃO

Valho-me do presente para dirimir dúvida. No Ritual do 3º Grau, 2009, mais precisamente na parte da exaltação, temos em sua página 126:

RESPEITAB∴ - Meus VVen∴ IIr∴, é na realidade, o c∴ de nosso Respeitab∴Mestre.

- Cumpramos o dol∴ dever que Sal∴ nos impôs, e demos seu c∴ à sep∴.

O Venerab∴ Ir∴ 2º Vig∴ pega no p∴ d∴ da m∴ dir∴ do Cand∴ e diz - B∴, dando um p∴ para trás. O Venerab∴ Ir∴ 1º Vig∴ p∴ no s∴ d∴ da mesma m∴ e, depois de pronunciar a palavra J∴, diz:

2º VIG∴ - a∴ s∴ d∴ dd∴ oo∴

Aí está a dúvida. No Ritual, creio, tem uma falha quando consta que o 1º Vig∴depois de pronunciar a palavra J∴, diz:

e logo a seguir consta: 2º VIG∴ a∴ c∴ s∴ d∴ dd∴ oo∴

Como em nossa Loja há divergência de pensamentos, quanto a quem deve falar, 1º Vig∴ ou 2º Vig∴, gostaria que o Eminente Irmão esclarecesse como devemos proceder.

CONSIDERAÇÕES:

De fato, nesse caso há inversão de procedimentos no ritual em vigência do 3º Grau do REAA do GOB. A bem da verdade isso supostamente se deve a um erro de impressão que inverte a fala dos VVig∴.

Atualmente, contudo, essa aleivosia ritualística já se encontra corrigida, podendo ser constatada no SOR - Sistema de Orientação Ritualística (Decreto 1784/2019) hospedado na página do GOB in plataforma do GOB-RITUALÍSTICA. Essa correção será observada quando da reedição de novos rituais. Por ora aplica-se de imediato a correção constante no SOR sobre o ritual em vigência.

A título de ilustração, em linhas gerais a passagem correta durante a representação teatral da lenda é a seguinte: por primeiro o 2º Vig∴ pega no d∴ind∴ da m. d∴ do cad∴ e, largando-o imediatamente dá um p∴ para trás pronunciando: J∴! Ato seguido, o 1º Vig∴ pega no d∴ méd∴ da m∴ d∴ do cad∴ e, largando-o imediatamente dá um p∴ para trás pronunciando: B∴! “A c∴ s∴ d∴dd∴ oo∴”!

É essa a prática correta, destacando que cada um dos VVig∴ deve exclamar o nome correspondente à sua coluna, ou seja, o 2º pronuncia J∴, e o 1º B∴.

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: http://pedro-juk.blogspot.com.br

FRASES ILUSTRADAS


TIRADENTES, MAÇOM INICIADO?

TIRADENTES, MAÇOM INICIADO?
Marco Antônio de Moraes*

Introdução

Logo após a Iniciação na Maçonaria, muitos são os que tomam conhecimento das inúmeras Lojas Maçônicas que adotam o nome de Tiradentes, como patrono, em suas diferentes formas: “Tiradentes”, “Alferes Tiradentes”, “Joaquim José da Silva Xavier”, dentre outras. De plano, surge a dúvida: são homenagens ao mártir da Independência ou Tiradentes teria sido Maçom?

Com certa tristeza temos presenciado uma discussão pouco acadêmica acerca do assunto, mais próxima da paixão rancorosa, a qual, sem dúvida, conduz ao caminho certo para a perpetuação da dúvida. Alguns Maçons historiadores, em seus livros e artigos publicados, já se excederam e, não raro, trocaram até ofensas públicas.

Nesse sentido, desenvolvemos o presente artigo, esperando que possa, com o auxílio do Grande Arquiteto do Universo, com base na pesquisa científica, longe de qualquer sectarismo, oferecer aos Maçons e interessados a verdade, ou, se esta não for encontrada, que tenhamos contribuído para alargar os horizontes da cultura maçônica.

Breves dados pessoais de Tiradentes

Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Minas Gerais, na Fazenda do Pombal, à margem direita do Rio das Mortes, entre a Vila de São José, hoje cidade de Tiradentes, e São João d’El Rey, tendo como pais, o português Domingos da Silva Santos e a brasileira Antônia da Encarnação Xavier, sendo o quarto filho, entre seis a sete irmãos.

Foi batizado pelo padre João Gonçalves Chaves, na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, em 12 de novembro de 1746, tendo como padrinho o “Tiradentes” Sebastião Ferreira Leitão. O assentamento do seu batizado foi encontrado pelo historiador Augusto de Lima Júnior (1955), nos livros da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, na Vila de São João d’El Rey, o qual calculou a sua data de nascimento como 16 de agosto de 1746, já que não há notícias de seu registro de nascimento.

Aos nove anos de idade, ele residia em São João d’El Rey, em casa de parentes, quando sua mãe veio a falecer. Aos 15 anos perdeu seu pai, tendo então retornado a Pombal para trabalhar na lavoura, com o seu padrinho, que também lhe ensinou o então raro ofício de “por e tirar dentes”.

Na idade adulta foi mascate, em Minas Novas, antes de entrar para a Companhia dos Dragões de Villa Rica, sede da Capitania das Minas Gerais, atual Ouro Preto. Foi então promovido de Comandante de Patrulha a Alferes, em março de 1775 e, no ano seguinte, destacado para a 6ª Companhia do recém criado Regimento de Cavalaria Regular de Minas Gerais, sediado em Villa Rica.

Em dezembro de 1781, esteve no Rio de Janeiro, sendo nomeado para o cargo de Comandante do Destacamento do Caminho do Rio, com a finalidade de vigiar a estrada da Mantiqueira, dar proteção aos viajantes e reprimir o contrabando de ouro e diamantes.

O Alferes Xavier, como era conhecido na época, não foi promovido a oficial, em face da sua pouca instrução, por manter a atividade de “arrancador de dentes” e ter a “língua solta” e, finalmente, após ter sido destituído do cargo de Comandante do Destacamento do Caminho do Rio, começou a falar mal, abertamente, do governo português.

Em maio de 1786, retirou da casa dos pais a menor Antônia Maria do Espírito Santo, que, em fevereiro de 1787, deu a luz a uma menina. No mês imediato, o Alferes abandona a companheira, que tinha à época 16 anos de idade, e viaja para o Rio de Janeiro, licenciando-se da Tropa, permanecendo lá por um ano, para tentar uma nova sorte, porém, sem êxito.

No ano seguinte, 1788, ainda no Rio de Janeiro, conheceu o engenheiro de minas, José Alvares Maciel Filho, cunhado do capitão-mor de Villa Rica, e Domingos José Barbosa, recém formados em Coimbra, Portugal.

Em agosto do mesmo ano, o Tiradentes retornou para Villa Rica, encontrando o povo em profunda inquietação, pois, em 18 de julho, o Visconde de Barbacena, governador da Capitania das Minas Gerais, anunciara a cobrança, com rigor, do débito da derrama.

Juntou-se, então, ao grupo formado pelas seguintes personalidades da região: tenente coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do Alferes; José Alvares Maciel Filho; vigário e latifundiário Carlos Correia de Toledo e Mello; Inácio José de Alvarenga Peixoto; padres José da Silva e Oliveira Rolim; cônego Luiz Vieira da Silva; poeta Cláudio Manoel da Costa; e outros militares, fazendeiros e negociantes, que já conspiravam contra a Coroa Portuguesa.

Outras imposições do governo português também traziam grande descontentamento à população: exigência de que todos deveriam trabalhar nas minas de ouro; proibição de instalação de engenhos na região das minas; exclusividade na retirada do sal, para poucos comerciantes; fechamento das fábricas de tecido, para que todos fossem obrigados a comprar tecidos fabricados em Portugal; proibição do uso das estradas para o interior, por receio do contrabando de ouro. Tais medidas, aliadas ao anúncio da derrama, trouxeram forte descontentamento junto à classe dominante da região, principalmente os endividados, caso também de Tiradentes.

O clube, inicialmente, era conhecido como o Arcádia Ultramarina. Segundo Monteiro (1961), o clube foi fundado com a finalidade de sublevar a população a não pagar a derrama, as côngruas e o quinto sobre o ouro minerado. Discutia-se, também, a proclamação de um território independente de Portugal.

O lema da bandeira do Clube dos Poetas foi proposto por Cláudio Manoel da Costa, verso de Virgílio: “Libertas Quae Sera Tamem”, Liberdade, Ainda que Tardia.

O Coronel Joaquim Silvério dos Reis, que ouvira inconfidências de Tiradentes, denunciou a insurreição que se planejava ao Visconde de Barbacena, que, imediatamente, suspendeu a derrama, uma vez que o movimento armado iria ter início no dia da cobrança dos impostos atrasados. Deu-se início à devassa da Inconfidência Mineira ou Conjuração Mineira, com a prisão de seus líderes.

Dias antes, Tiradentes, que tinha a incumbência de divulgar o movimento, viajara para o Rio de Janeiro, com a finalidade de angariar fundos para a empreitada, vindo a ser preso, no dia 12 de maio de 1789, na rua dos Latoeiros, hoje denominada rua Gonçalves Dias, sem oferecer maior resistência.

Tiradentes não negou sua participação no movimento, denominado de “Inconfidência Mineira”. Os demais envolvidos abjuraram e a Rainha Dona Maria I de Portugal, no dia 20 de abril de 1792, comutou as suas penas de morte para o degredo perpétuo, deportando-os para a África. Já os religiosos tiveram processos à parte e, após condenados, foram enviados a Portugal. Enquanto que Cláudio Manoel da Costa, que se defendera em cartas, acusando os companheiros da conspiração, suicidou-se na prisão.

Tiradentes foi enforcado, às 11 horas, do dia 21 de abril de 1792, três anos após sua prisão. Foi então esquartejado, sendo que a cabeça foi para Villa Rica e os seus membros foram fincados em postes na estrada entre Minas e Rio de Janeiro. A casa dele foi destruída e sobre a terra foi jogado sal.

A suposta Iniciação de Tiradentes

A Universidade de Coimbra era o berço das ideias liberais, onde os filhos de brasileiros ilustres, ricos e poderosos estudavam, constando que Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Inácio Alvarenga Peixoto foram Iniciados na Maçonaria naquela cidade, enquanto estudantes, embora haja quem afirme que Cláudio Manoel da costa não era Maçom.

Naquela época, o absolutismo e o sistema colonial europeu estavam em crise, os ideais de liberdade e princípios liberais estavam aguçados entre os universitários, em face da recente guerra da independência americana (1776) e a Revolução Francesa (1789). Alguns autores afirmam que José Alvares Maciel Filho, também, teria sido Iniciado na Maçonaria, em Coimbra, com 28 anos de idade, tendo chegado a Villa Rica no segundo semestre de 1788.

No tocante à probabilidade da Iniciação de Tiradentes na Maçonaria ou à sua vida de Maçom, não existe qualquer registro e, nos sete volumes dos Autos Devassa da Inconfidência Mineira, publicados pela Biblioteca Nacional (1936), não há qualquer referência à Iniciação de Tiradentes ou sua condição de Maçom.

Por outro lado, o estudioso Maçom José Castellani, em artigos publicados na revista “A Verdade”, números 298 e 300, abril e junho de 1992, afirmou que “profanos e principalmente Maçons irresponsáveis inventaram, não apenas sobre o Tiradentes, mas de modo geral tudo quanto é fato maçônico”.

O autor Joaquim Felício dos Santos (1868), no livro “Memórias do Distrito de Diamantino da Comarca do Serro Frio”, afirmou que “os conjurados eram, todos, Iniciados na Maçonaria, introduzida por Tiradentes, quando por aqui passou, vindo da Bahia, para Villa Rica” e mais “quando Tiradentes foi removido da Bahia, trazia instruções secretas da Maçonaria para os patriotas de Minas Gerais”.

Marcelo Linhares (1988), no seu livro “A Maçonaria e a Questão Religiosa do Segundo Império”, escreveu que “de Tiradentes se diz haver Iniciado na Bahia, quando, em seus primeiros tempos de vida profissional, mascateou no eixo Minas-Bahia”. Mas, demonstrando não ter muita convicção, afirmou que “o certo é que a Maçonaria brasileira, dos séculos XVIII e XIX, era essencialmente política”.

Porém, tais afirmações encontram forte oposição, no fato de que a primeira Loja Maçônica brasileira que se tem registro surgiu em Recife, Pernambuco, apenas em 1796, por iniciativa do botânico Manuel de Arruda Câmara, após chegar da Europa, e denominava-se Areópago de Itambé. Há autores que afirmam que não se tratava de uma Loja Maçônica, mas de outra sociedade secreta, nos moldes da Maçonaria, e integrada por Maçons e não Maçons.

Tiradentes, como se sabe, morreu no dia 21 de abril de 1792, quando ainda não existia Loja Maçônica regular no Brasil. Tiradentes jamais esteve em Salvador, Bahia, onde há a teoria da primeira Loja Maçônica naquele território, fundada em 14 de julho de 1797, na Barra, a qual denominava-se “Cavaleiros da Luz”, fato que também não encontra unanimidade. Também, é sabido que não existia estrada para os 1800 quilômetros que separam Salvador de Villa Rica.

Portanto, meu entender é de que Tiradentes não poderia ter sido Iniciado na Maçonaria na Bahia, enquanto mascateava ao norte de Minas, por volta de 1774, uma vez que esta ainda não existia. A propósito, José Castellani, em “Os Maçons na Independência do Brasil” (1993, p. 20- 21), é taxativo ao afirmar:

“Muito já se falou e muito já se escreveu sobre a participação maçônica na independência do Brasil.

De confiável, todavia, muito pouco. Como geralmente acontece, quando autores Maçons tratam da História, entra em jogo o ufanismo, a parcialidade, a tendência, que os leva a exagerar os feitos maçônicos e as virtudes dos Maçons envolvidos, ocultando ou escamoteando os defeitos e dourando a pílula, quando o seu aspecto não é muito recomendável.

Isso acabou criando uma História distorcida, inventada e maquinada, que viria a influenciar algumas gerações de Maçons, que passaram a repetir balelas, as quais, com tanta repetição, quase chegaram a ter foros de verdade – uma mentira repetida muitas vezes, acaba sendo considerada uma verdade – fazendo com que a historiografia maçônica nacional chegasse a ser motivo de descrédito, de desconsideração e até de chacota, para a comunidade universitária brasileira e para as instituições ligadas à História e que tratam com a seriedade que ela merece e não com o despojamento de certos autores Maçons.”

Mais adiante (p. 25), foi contundente ao tratar especificamente de Tiradentes:

“Existem, todavia, autores, que, aproveitando um período nebuloso e de grande carência de registros históricos, falam da existência de Lojas, principalmente na Bahia, nos meados do século XVIII, o que, por falta de qualquer prova documental, é uma afirmação tão temerária quanto aquela dos que apontam os conjurados mineiros, principalmente o Tiradentes, como Maçons, sem que haja qualquer apoio histórico documental para tal afirmação.“

Não se pode negar que há indícios de que Maçons se envolveram na Inconfidência Mineira e em outros acontecimentos históricos que se sucederam. Gustavo Barroso (1990), historiador pátrio dos mais afamados, afirmou que “a Maçonaria estava envolvida na Conjuração Mineira”. Ele só não disse como e por quais representantes.

Outro historiador, Pedro Calmon (2002) afirmou que Maçons participaram da Inconfidência Mineira, da Independência, da Abolição da Escravatura e da Proclamação da República. Porém, não citou Tiradentes como Maçom.

Já Lima Júnior (1955, p.136-137) afirma que: “Iniciado na Maçonaria, tomava parte nas reuniões desta, no Rio de Janeiro e pregava suas doutrinas, onde quer que se encontrasse” e, também, confirma que “…depois de ouvir minucioso relatório do alferes Joaquim José, que regressara do Rio de Janeiro, onde mantivera contatos decisivos com os confrades das Lojas Maçônicas, e que lá dirigiam o movimento da insurreição…”. No entanto, nos idos de 1788/89, não existia Loja Maçônica no Rio de Janeiro, o que torna temerária tal afirmação, sendo que, a primeira só veio a ser fundada naquele Oriente em 1801, denominada Loja Maçônica Reunião, filiada ao Grande Oriente de França, segundo o manifesto do Grão-Mestre José Bonifácio de Andrada, publicado em 1832 (BUCHAUL, 2011).

Ainda, José Castellani, em “Os Maçons da Independência”, relaciona a fundação das primeiras Lojas Maçônica no Brasil:

“Resumindo: os primeiros templos da Maçonaria brasileira, até a fundação do Gr. O., seguem aproximadamente – já que a época é nebulosa, do ponto de vista documental – a seguinte cronologia dos principais fatos:

1796 – Fundação, em Pernambuco, do “Areópago de Itambé”, que não era uma verdadeira Loja, pois, embora criado sob inspiração maçônica, não era totalmente composto por Maçons;
1801 – Criação, em Niterói, da Loja “União”;
1801 – Instalação da Loja “Reunião”, sucessora da “União”;
1802 – Criação, na Bahia, da Loja “Virtude e Razão”;
1804 – Fundação das Lojas “Constância” e “Filantropia”;
1806 – Fechamento, pela ação do Conde dos Arcos, das Lojas “Constância” e “Filantropia”;
1807 – Criação da Loja “Virtude e Razão Restaurada”, sucessora da Loja “Virtude e Razão”; e
1809 – Fundação, em Pernambuco, da Loja “Regeneração”.

Mário Verçosa (1985), em seu livro “Registros Maçônicos”, acrescenta a Loja “Cavaleiros da Luz”, em Salvador, Barra, como fundada em 1797, filiada ao Grande Oriente de França.

Em 1955, Tenório d’Albuquerque, baseado na afirmação de Canêco Amassado, começou a escrever, seguidamente, sobre Tiradentes-Maçom, passando a surgirem daí inúmeras Lojas Tiradentes, com a adoção do mártir da Inconfidência Mineira, como mártir Maçom-brasileiro. Para se comprovar tal afirmativa, basta levantar em cada Oriente a data de fundação das Lojas Tiradentes.

Para Kurt Prober (1984), Tenório d’Albuquerque criou o que chamou de “Herói Maçom”, denominando de “fábula Tiradentes-Maçom” tudo que se refere a sua vida maçônica. Para alguns, a assinatura de Tiradentes é uma prova da sua condição de Maçom. Kurt Prober contradiz, afirmando que a mesma possui cinco pontos: o primeiro está depois da abreviação de Joaquim; o segundo é solto, depois de J, de José; o terceiro está abaixo da letra A, da abreviatura AS, de Silva; o quarto está ao lado de X, de Xer, Xavier abreviado; e o quinto, no fim do nome, como ponto final.

Os três pontos, que acompanham as assinaturas dos Maçons, foram utilizados pela primeira vez num documento maçônico, no Grande Oriente de França, em 1774 (RAGON, 2006). No Brasil, somente após 1815 e, com certeza, em 1822.

José Carlos Gentil (19–), atual Presidente da Academia de Letras de Brasília, ao publicar um opúsculo intitulado “Tiradentes e a Maçonaria”, apresenta-se como um ferrenho defensor da tese de que Tiradentes era um Maçom Iniciado, chegando ao despropósito de afirmar: “Ora, pretender negar que Tiradentes tenha sido Maçom constitui-se pelo menos numa irracionalidade, porquanto as evidências traduzem o contrário”.

Naturalmente, Gentil deixou-se levar pelo entusiasmo, ao taxar de irracionais, aqueles que não se contentam com as evidências que esposa, já que usa a expressão evidência como uma certeza. A verdade, principalmente a verdade que busca a Maçonaria, vai mais além. Se há dúvida, desaparece a certeza, de verdade ou de falsidade. Afinal, temos uma longa escada a galgar. Evidências por evidências, de verdade ou de falsidade, as contrárias, à tese Tiradentes-Maçom, são mais consistentes e mais racionais, contradizendo o modo de entender o último autor referido.

Considerações Finais

Essa indagação, se Tiradentes era Maçom Iniciado, permanecerá ad eternum, enquanto a própria Maçonaria, como instituição, não tomar a iniciativa de buscar a resposta, o que tem sido feito até hoje, exclusivamente, por Maçons estudiosos e preocupados com a história da Maçonaria brasileira.

Sugere-se a designação, pelos órgãos maçônicos competentes, de um grupo de trabalho, constituído por historiadores, Maçons e profanos, para, num prazo compatível com a importância e a complexidade do tema, buscar e oferecer a verdade que todos nós almejamos. Ou, quem sabe, instituir-se um prêmio relevante, dentro de um concurso aberto a professores e pesquisadores de todos o país, abordando-se a questão. Só a análise de fatos históricos, ainda que de difícil catalogação, será capaz de trazer a verdade ou dela se aproximar.

*Marco Antônio é professor e advogado aposentado. Mestre Instalado, MRA, 33º do REAA, membro das Lojas Maçônicas Atlântida no. 06 e Abrigo do Cedro no. 08, ambas da GLMDF.

Referências Bibliográficas:
- ARÃO, Manoel de Oliveira Campos. História da Maçonaria no Brasil. Vol. 1. Recife, 1926.
- BARROSO, Gustavo. História Secreta do Brasil, Volume 1. Porto Alegre: Editora Revisão, 1990. BIBLIOTECA NACIONAL. Autos da Devassa da Inconfidência Mineira. 7 Volumes. Rio da Janeiro: Biblioteca Nacional, 1936.
- BUCHAUL, Ricardo B. Gênese da Maçonaria no Brasil. São José dos Campos: Clube de Autores, 2011.
- CALMON, Pedro. História Social do Brasil. Volumes 1, 2 e 3. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2002.
- CASTELLANI, José. Os Maçons na Independência do Brasil. Londrina: A Trolha, 1993.
- CASTELLANI, José. Revista A Verdade. No. 298, São Paulo: Abril, 1992.
- CASTELLANI, José. Revista A Verdade. No. 300, São Paulo: Junho, 1992.
- D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a Grandeza do Brasil. São Paulo: Aurora, 1955.
- DOS SANTOS, Joaquim Felício. Memórias do Distrito de Diamantino da Comarca de Serro Frio. Rio de Janeiro : Typ. Americana, 1868. GENTIL, José Carlos. Tiradentes e a Maçonaria. Brasília: editado pelo autor, 19–.
- LIMA JÚNIOR, Augusto de. História da Inconfidência de Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1955.
- LINHARES, Marcelo. A Maçonaria e a Questão Religiosa do Segundo Império. Coleção Ruy Santos. Brasília: Senado Federal, 1998.
- MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa. 3ª Edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1985.
- MONTEIRO,Clóvis. Esboços de história literária. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1961.
- POMBO, Rocha. História do Brasil. Volume 3. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1964.
- PROBER, Kurt. Catálogo dos Selos dos Maçons Brasileiros. Rio de Janeiro: editado pelo autor, 1984.
- RAGON, Jean Marie. Ortodoxia Maçônica: A Maçonaria Oculta e a Iniciação Hermética. São Paulo: Madras, 2006.
- VERÇOSA, Mário. Registros Maçônicos. Manaus: Imprensa Oficial do Estado do Amazonas, 1985.
Fonte: Revista Ciência e Maçonaria

Fonte: https://martinlutherking63.mvu.com.br