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PERGUNTAS & RESPOSTAS

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A ERA DA REALIDADE FABRICADA

Vivemos um tempo em que a política parece encenada, a história é apresentada como narrativa “pronta” e o cotidiano, cada vez mais mediado por telas, vai se afastando da experiência direta. Não é raro ouvir, mesmo entre pessoas comuns, uma frase que carrega inquietação: “Tudo é falso.”

Este ensaio propõe olhar para essa sensação com seriedade — não como mero pessimismo, mas como um sinal do nosso tempo. E, à luz da filosofia e da tradição iniciática da Maçonaria, sugere uma resposta: o iniciado não vence a ilusão negando o mundo, mas trabalhando para edificar em si um Templo interior, onde a Verdade e a Luz não dependem das modas, do ruído ou das aparências.

Nos últimos anos, muitos passaram a duvidar da autenticidade do que os cerca. Da produção de alimentos à política, das narrativas históricas às finanças, uma impressão de irrealidade se espalhou. E expressões como “Estamos assistindo a um filme” ou “Alguém está movendo as peças no tabuleiro” já não pertencem apenas a debates marginais: aparecem no cotidiano, como reflexo de um cansaço profundo.

Isso é paranoia? Ou indica uma transformação real na forma como o ser humano se relaciona com a realidade?

Neste texto, o autor recorre à filosofia, à ciência cognitiva, à crítica cultural e às tradições espirituais da Maçonaria para nomear o fenômeno: a era da realidade fabricada. E pergunta: o que a Ordem, com sua linguagem simbólica e seu método iniciático, tem a oferecer quando as aparências parecem engolir a verdade? Quando a passagem das trevas à Luz se torna, mais do que nunca, necessária?

Introdução: “Tudo é falso”

Na última década — especialmente após as grandes turbulências globais recentes — uma frase inquietante ganhou força:

“Nossa comida é falsa, nossas notícias são falsas, nossos políticos são falsos, nossa história é falsa, até nosso sistema financeiro é falso.”

Em torno disso, surgem variações:

  • “Estamos assistindo a um filme.”
  • “Os que mandam estão movendo as peças.”
  • “Eu não acredito mais em nada do que vejo.”

Ainda que ditas com leveza, essas frases expressam uma ansiedade concreta: a sensação de que as estruturas que sustentam a vida moderna deixaram de ser “reais” — não apenas por serem imperfeitas, mas por parecerem simulações, ilusões ou manobras.

Para muitos, isso não é só uma ideia: é uma experiência. Não se trata apenas de reconhecer que existem mentiras, mas de sentir que a própria percepção se torna instável — como se a vida fosse conduzida em um palco, e não vivida com presença.

A Maçonaria começa exatamente aí.

O candidato é conduzido à Loja na escuridão, reconhecendo que sua visão é limitada e que a Luz — a Verdade — não é entregue pronta: é buscada. A Ordem, portanto, não oferece apenas uma teoria, mas um método: discernir, trabalhar, lapidar, e edificar em si uma base interior capaz de resistir ao caos do mundo profano.

Para compreender a crise atual, vale olhar para suas raízes.

Uma genealogia filosófica da ilusão

A suspeita de que o mundo aparente não é o mundo verdadeiro é antiga. A filosofia ocidental nasce sob esse tema, e inúmeros pensadores enfrentaram o problema das aparências. A pergunta é perene: o que vemos é o real — ou apenas sombras?

A Caverna de Platão: uma imagem iniciática

Em A República, Platão descreve prisioneiros numa caverna, condenados a ver apenas sombras numa parede. Para eles, aquelas sombras são “tudo”. Não conhecem os objetos, nem a Luz do mundo exterior.

A imagem é contemporânea: um ambiente escuro, figuras projetadas, espectadores passivos. Mas Platão fala da alma não despertada.

Na leitura simbólica, essa caverna se aproxima do estado do homem antes do trabalho interior. Sair dela é atravessar um limiar — uma passagem do Ocidente ao Oriente, do olhar comum ao olho interior. Platão ainda lembra: quem retorna para contar o que viu muitas vezes encontra resistência. Não é diferente com aquele que se põe a trabalhar sobre si: o mundo que se contenta com sombras raramente aplaude quem busca a Luz.

Descartes: dúvida e fundamento

Descartes considerou a possibilidade de um engano total — um “gênio maligno” que distorcesse os sentidos1. Restou-lhe a certeza do penso, logo existo.

Hoje, muitos se sentem em um cenário semelhante: excesso de informação, contradições, versões concorrentes, interesses ocultos. Só que, onde Descartes buscou firmeza, o homem contemporâneo frequentemente encontra exaustão — e, às vezes, niilismo.

A resposta maçônica não é render-se à dúvida, mas reencontrar a certeza por meio de disciplina, estudo, simbolismo, virtude e Fraternidade. A Verdade não se impõe pela força — ela se constrói no trabalho.

Nietzsche: quando a verdade vira disputa

Nietzsche proclamou a morte da verdade absoluta2. Em seu lugar, narrativas competem, perspectivas se chocam, e o sentido se fragmenta.

Aqui, a alegoria maçônica da Palavra Perdida ganha força: não é que a verdade tenha deixado de existir, mas que foi obscurecida. Recuperá-la é obra de vida — não uma opinião de momento.

Foucault: verdade e poder

Foucault argumentou que “verdades” são produzidas por estruturas de poder3. Instituições delimitam o que pode ser dito, reconhecido e aceito como real.

A Maçonaria antecipa esse risco ao chamar o Irmão a submeter tudo à consciência, ao crivo da razão e à virtude. A obrigação, nesse sentido, não é apenas um juramento: é uma proteção contra narrativas impostas.

Debord e Baudrillard: o espetáculo e o simulacro

Debord falou de uma sociedade que troca a vida pela representação4. Baudrillard foi além, descrevendo um mundo em que signos se referem a signos, e a simulação substitui a substância5. 

O profano então percebe: “parece falso”. Talvez não porque haja uma mentira única, mas porque a mediação virou o próprio mundo.

A Loja, por contraste, é presença: palavra dita, ritual vivido, silêncio compartilhado, experiência real — e isso tem peso iniciático.

McLuhan: o meio nos molda

McLuhan lembrou que o meio molda a consciência6. Não é só o que chega até nós, mas como chega. E, quando o meio muda, o próprio senso de realidade muda.

Daí a importância de aprender a pensar com profundidade, a discernir, a simbolizar — habilidades que a Arte Real cultiva.

Os domínios “fabricados”

Essa sensação de irrealidade não fica só no plano das ideias. Ela aparece em experiências concretas, especialmente em cinco áreas: alimento, notícias, política, história e finanças.

Alimento: sustento sem vitalidade

A frase “nossa comida é falsa” reflete a industrialização do alimento: produção pensada para eficiência e lucro, não para nutrição. O vínculo com a terra e com o trabalho humano se torna distante, invisível.

Em tradições espirituais, alimento não é só matéria: carrega força vital. Por isso, o tema toca também o espírito — não apenas o corpo.

Notícias: fatos ou narrativas?

Hoje, notícias são percebidas como enquadramentos. Realidades paralelas surgem, e cada grupo consome versões que reforçam sua visão.

Hannah Arendt alertou: quando fatos cedem lugar a narrativas, a liberdade se enfraquece7. Sem um chão comum, não há deliberação, apenas disputa.

Ao maçom cabe investigar, comparar, ponderar, não reagir por impulso.

Política: imagem acima da substância

A política vira performance, marca, marketing. A gestão real se perde em encenação.

A Ordem sempre ensinou: não julgar pela aparência, mas pela integridade. Liderança, na visão maçônica, é serviço e virtude — não teatro.

História: memória selecionada

A frase “a história é escrita pelos vencedores” reforça que a história nunca é um registro neutro. Ela é selecionada, interpretada e construída — e os fatos destacados ou omitidos acabam moldando a identidade nacional e cultural.

Nietzsche observou que, muitas vezes, a história é escrita para servir à vida — especialmente à vida do poder8. Foucault mostrou como narrativas históricas tendem a reforçar estruturas já existentes de autoridade9. 

A alegoria maçônica da Palavra Perdida volta a fazer sentido aqui: aquilo que foi esquecido ou obscurecido precisa ser recuperado por meio de um labor consciente.

Finanças: abstração total

O dinheiro se torna número, o valor se sustenta em crença, e instrumentos complexos se multiplicam.

Simmel já enxergava a crescente abstração do dinheiro10. A Arte Real responde lembrando: riqueza verdadeira não é acúmulo, mas virtude, sabedoria e Fraternidade.

Dimensão psicológica

A crise também é interior. Para entender por que tantos sentem que “tudo é falso”, precisamos lembrar: a mente constrói realidade.

O cérebro preditivo

A Neurociência sugere que o cérebro prevê e ajusta seus modelos. Quando sinais são contraditórios e ameaçadores, o modelo entra em colapso — e surge ansiedade, desconfiança, confusão.

A Ordem oferece estabilidade: razão, ritual e comunidade.

A necessidade de narrativa

O ser humano precisa de sentido. Quando narrativas antigas se quebram, outras surgem — algumas elevam, outras adoecem.

A Maçonaria oferece uma narrativa simbólica de morte e renascimento: não para fugir do mundo, mas para atravessá-lo com dignidade.

Desamparo aprendido

Sentir-se impotente leva à apatia. A jornada iniciática faz o contrário: devolve agência. Cada grau reforça responsabilidade, ética e trabalho interior.

O precedente histórico

Crises de verdade não são novidade.

Roma teve “pão e circo”. A Reforma fraturou certezas. O Iluminismo deslocou o eixo do mito para a razão. O século XX industrializou propaganda: Bernays mostrou como desejos e opiniões podem ser fabricados11. 

O que muda hoje é a escala: redes digitais aceleram tudo, e instituições lutam para manter coerência.

A dimensão esotérica e maçônica

A Maçonaria não é apenas moralidade: é iniciação. E sua linguagem simbólica é particularmente útil quando palavras se tornam armas e imagens se tornam enganos.

O mundo das aparências

Muitas tradições chamam o mundo fenomênico de véu. A venda do candidato expressa isso: a visão anterior era incompleta.

Viver apenas pelas aparências é permanecer na caverna. A Arte Real conduz ao olhar interior.

Ritual como modo de conhecer

Ritual não é enfeite: é epistemologia. Símbolos dizem o que a linguagem comum não sustenta.

Em um tempo de manipulação, isso é precioso: há verdades que se conhecem vivendo, não apenas debatendo.

A Palavra Perdida

A verdade não é “entregue”: é buscada, merecida e internalizada. Em um mundo de desinformação e hiper-realidade, essa lição é essencial.

Hiram Abiff

A lenda de Hiram fala de sabedoria atacada por ambição e ignorância. O reerguimento simboliza fidelidade e perseverança — a restauração da verdade pelo caráter, não pelo espetáculo.

O Templo de Salomão

O Templo é o homem aperfeiçoado. Se o mundo exterior parece artificial, o Templo interior precisa ser firme. O iniciado é arquiteto e pedra: trabalha em si para sustentar o todo.

O tabuleiro e os jogadores

A metáfora das “peças movidas por alguém” pode soar conspiratória, mas também aponta para estruturas reais de poder. Teorias das elites reconhecem que minorias influenciam rumos.

Ainda assim, a leitura iniciática é mais profunda: o tabuleiro é o mundo; somos peças, mas também podemos despertar como jogadores. A tarefa não é apenas denunciar forças externas, mas recuperar a própria agência e agir com retidão.

Contra-argumentos

Nem tudo é fraude. Instituições também servem ao bem comum. Complexidade pode parecer conspiração sem haver um plano. Erros em jornalismo e ciência não provam engano sistemático.

E há um risco: o cinismo virar outra forma de cegueira. A virtude está no equilíbrio: nem ingenuidade, nem ceticismo absoluto — discernimento.

A resposta iniciática à crise

Qual é a resposta maçônica para a era da realidade fabricada?

  1. Buscar a Luz — por estudo, reflexão e Fraternidade.
  2. Cultivar a virtude — ancorar-se na ação moral, não na reação.
  3. Edificar o Templo interior — não depender do mundo exterior para ter sentido.
  4. Servir à humanidade — agir como construtor, não apenas crítico.

Assim, o maçom se torna presença estabilizadora: clareza onde há confusão, Luz onde há trevas.

Conclusão: da ilusão à arquitetura

É compreensível sentir que “tudo é falso”. Vivemos cercados por imagens, narrativas e abstrações que muitas vezes encobrem o essencial.

Mas a Maçonaria lembra: essa condição não é nova. A jornada das trevas à Luz é a busca perene do ser humano.

Não se trata de escapar completamente das sombras, mas de reconhecê-las como sombras — e orientar-se rumo à fonte da Luz.

A Loja é refúgio e oficina: onde a verdade não é doutrina pronta, mas prática viva; não é posse, mas aspiração.

Em tempos de simulacro, o labor do maçom é ainda mais necessário: construir sobre o eterno, manter firme o Templo interior, buscar a Palavra com fidelidade e lembrar que a Luz permanece acessível a quem a procura com coração reto.

Autor: Maarten Moss

Fonte: The Square Magazine

*A tradução desse artigo foi realizada com o auxilio de IA.

Notas
  1. Descartes, René. Meditations on First Philosophy. ↩︎
  2. Nietzsche, Friedrich. On Truth and Lie in an Extra-Moral Sense. ↩︎
  3. Foucault, Michel. Power/Knowledge. ↩︎
  4. Debord, Guy. Society of the Spectacle. ↩︎
  5. Baudrillard, Jean. Simulacra and Simulation. ↩︎
  6. McLuhan, Marshall. Understanding Media. ↩︎
  7. Arendt, Hannah. Between Past and Future. ↩︎
  8. Nietzsche, F. On the Uses and Abuses of History for Life. ↩︎
  9. Foucault, Michel. Discipline and Punish. ↩︎
  10. Simmel, Georg. The Philosophy of Money. ↩︎
  11. Bernays, Edward. Propaganda. ↩︎

Referências

Fonte:opontodentrodocirculo.wordpress.com

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