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PERGUNTAS & RESPOSTAS

O “Perguntas & Respostas” que durante anos foi publicado no JB News e aqui reproduzido, está agora no “Blog do Pedro Juk” . Para visita-lo ou tirar suas dúvidas clique http://pedro-juk.webnode.com/ ou http://pedro-juk.blogspot.com.br

sábado, 15 de outubro de 2022

MAÇONS FAMOSOS

INICIAÇÃO MAÇÔNICA DE LAMARTINE BABO

LAMARTINE DE AZEVEDO BABO (Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1904 — Rio de Janeiro, 16 de junho de 1963). Um dos mais importantes compositores populares do Brasil. No mandato de 1956-1956 e 1956-1957 foi Orador de Ofício em sua Loja. Sua loja era jurisdicionada ao Grande Oriente do Rio de Janeiro. Foi Iniciado, Elevado e Exaltado no mesmo ano, em um curto período, prática comum antigamente.

INICIAÇÃO MAÇÔNICA: 14 de maio de 1954 (Sexta-Feira)
Loja: Estrela do Rio, nº 123, Rio de Janeiro, Brasil
Idade: 50 anos.

Oriente Eterno: Faleceu aos 59 anos de idade, vítima de infarto do miocárdio.

Elevação: 09 de julho de 1954

Exaltação: 10 de setembro de 1954.

Fonte: famososmacons.blogspot.com

DOS OPERATIVOS AOS ESPECULATIVOS: O CATALISADOR

Rui Bandeira
No penúltimo texto, procurei demonstrar como algo falta na versão normalmente aceite sobre a evolução da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa, como a simples aceitação de intelectuais que, progressivamente, passaram a controlar todas as Lojas operativas, ou quase, e, em quase perfeita sintonia temporal, modificaram a Maçonaria Operativa na realidade Especulativa que surgiu, em todo o seu esplendor, no início do século XVIII, me parece não muito provável, em termos lógicos. Enunciei também a hipótese de que algo catalisou essa transformação.

No último texto, efetuei uma deriva à época do Renascimento e chamei a atenção para os efeitos que a descoberta da obra De Architectura, de Vitrúvio, e dos princípios nela expostos, particularmente logo no seu primeiro Livro, tiveram em parte apreciável da intelectualidade europeia continental, especialmente nos profissionais ligados à construção, arquitetos, engenheiros e mestres construtores. Pontuei também que a documentação relativa às Lojas Operativas britânicas não indiciava idêntica influência. Concluí que, entre o mais do mesmo que se verificava na primeira metade do século XVII, no que toca às Lojas Operativas britânicas, que irreversivelmente conduziria à sua extinção ou completa irrelevância, e a súbita florescência, em novos moldes, no início do século XVIII, teria certamente que decorrer um evento catalisador que justificasse essa improvável mudança.

O que forçou então esta mudança? A meu ver, um segundo catalisador (considerando o primeiro, e longínquo, a influência, na Europa Continental, das teses vitruvianas) e a evolução dele decorrente. Refiro-me ao Grande Incêndio que destruiu Londres em 1666.

A destruição da cidade implicou a necessidade da sua reconstrução. Reconstruir toda uma grande cidade implicou a mobilização de grande número de construtores, não somente executores da construção, operários, mas também arquitetos e diretores de obras. A necessidade excedeu a capacidade de resposta dos profissionais existentes em Inglaterra e houve uma migração maciça de profissionais continentais, franceses, flamengos, alemães, italianos, etc.. Entre eles, muitos arquitetos, engenheiros e dirigentes de obra, que traziam na sua matriz genética profissional os princípios vitruvianos.

Naturalmente que este sangue novo – e abundante – de qualificados profissionais da construção, em época em que o que não faltava era trabalho, facilmente se misturou com os profissionais da construção existentes. Ou seja, naturalmente que este grande número de profissionais vindos da Europa Continental se integrou nas Lojas operativas. E revitalizou-as. E trouxe-lhes a evolução de ideias, de princípios, de abrangência cultural que faltava nos cultores do tradicionalismo operativo. E obviamente que foi muito mais fácil para os operativos já existentes, por muito tradicionalistas, por muito imobilistas que porventura fossem, aceitar as inovações trazidas pelos colegas de ofício que, em virtude das circunstâncias, se integraram nas Lojas Operativas, do que se lhes fossem impostas por maçons aceites, não integrantes do ofício.

E evidentemente que esta evolução rapidamente conduziu as Lojas Operativas para a grande transformação que, em apenas duas gerações, veio a ocorrer. 

Em 1717, a transformação ideológica, de atitudes e de práticas propiciada por estes dois aceleradores, os profissionais chegados da Europa Continental em abundância para suprir as necessidades decorrentes da reconstrução de Londres após o Grande Incêndio de 1666 e as ideias de que eram portadores, estava completa. A Maçonaria Operativa consumava o seu desaparecimento, por completa desnecessidade social da sua existência, mas não pela sua extinção, antes pela sua transformação em algo de novo, de pujante, com todas as condições para o crescimento explosivo que viria a ter nos dois séculos seguintes: a Maçonaria Especulativa.

E foi assim que, na minha tese, do velho se fez novo e diferente.

Bibliografia

São os franco-mações os herdeiros dos construtores de catedrais?, Jean-Michel Mathoniére, in Os Franco-Mações, Pergaminho, , 2003, tradução do original Les Francs-Maçons, Éditions Tallandier, Paris, 1998.

Fonte: A Partir a Pedra

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

MESTRE DE CERIMÔNIAS - MUDANDO DE LUGAR PARA USAR A PALAVRA - REAA

Em 27.03.2022 o Respeitável Irmão Giuseppe Emmanuel Lyra, Loja Renovação, 2628, REAA, GOB-PB, Oriente de Bayeux, Estado da Paraíba, apresenta a questão seguinte:

MUDANDO DE LUGAR PARA USAR A PALAVRA

O Mestre de Cerimônias de minha Loja deu instrução aos Aprendizes dizendo que o Mestre de Cerimônias pode usar a palavra estando na Coluna do Norte ou na Coluna do Sul. Correto. Prosseguindo a instrução, disse que o Mestre de Cerimônias, mesmo tendo usado a palavra numa das Colunas, poderá se dirigir ao Oriente e lá, novamente fazer uso da palavra. Fiquei em dúvida e gostaria de saber se a referida instrução está correta.

CONSIDERAÇÕES:

Nada disso está correto. Ninguém, nem o Mestre de Cerimônias, pode mudar de Coluna para usar a palavra, muito menos se dirigir ao Oriente com essa finalidade.

Assim, quem ocupa lugar na Coluna do Sul, fala da Coluna do Sul; que ocupar a Coluna do Norte, fala da Coluna do Norte e, os ocupantes do Oriente, falam do Oriente.

O Mestre de Cerimônias não deve confundir certa liberdade que ele tem em transitar pela Loja no cumprimento do seu ofício com mudar de lugar para fazer uso da palavra.

Destaco parte do trecho constante no ritual em vigência, página 51, Aprendiz Maçom, REAA. “(...) Desde agora a nenhum Ir∴ (grifo no original) é permitido falar ou passar para outra Col∴ sem obter permissão, nem ocupar-se de assuntos (...)”

Meu destaque no grifo se deve ao pronome indefinido “nenhum” ou “nem um” (só), o que significa que ninguém deve agir ao contrário do previsto. O previsto é bem claro: “nenhum”.

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com 
Fonte: http://pedro-juk.blogspot.com.br

DOS OPERATIVOS AOS ESPECULATIVOS: VITRÚVIO

Rui Bandeira
No texto anterior, expus o meu entendimento de que a tese clássica sobre a evolução da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa necessita de ser completada, designadamente com a indicação do que terá ocorrido que tenha funcionado como propiciador e ou acelerador dessa transformação. A meu ver, houve, não um, mas dois fatores catalisadores. Um longínquo, temporal e geograficamente. Outro breve, dramático e gerador de brusca evolução.

Vejamos primeiro o fator longínquo. Para tal, deixemos os ingleses entretidos nas sua guerra civil, metaforicamente recuemos a 1414 e desloquemo-nos à neutral Suíça, mais precisamente à aprazível localidade de St. Gallen. Nesse tempo e lugar, o humanista florentino Poggio Bracciolini, descobre, na abadia beneditina local, um antigo manuscrito reproduzindo uma obra originalmente escrita por volta do ano 15 antes de Cristo, intitulada De Architecture. O seu autor? Marcus Vitruvius Pollio ou, como é comummente referido, Vitrúvio (o Homem de Vitrúvio, de Leonardo da Vinci, lembram-se?). Vitrúvio foi um arquiteto e engenheiro romano que escapou ao anonimato por causa da referida obra, um tratado sobre a arte da construção em dez volumes, abordando diferentes aspetos específicos da arquitetura e construção: (1) Sobre os conhecimentos necessários à formação do arquiteto; (2) Sobre os materiais e a arte da construção; (3) e (4) Sobre os edifícios religiosos; (5) Sobre os edifícios públicos; (6) Sobre os edifícios privados; (7) Sobre os acabamentos; (8) Sobre hidráulica e distribuição da água; (9) Sobre gnomónica nas edificações; (10) Sobre mecânica e os princípios das máquinas.

A propósito do Livro 9: gnomónica é a ciência responsável por desenvolver teorias e reunir conhecimentos sobre a divisão do arco dia, ou trajectória do Sol acima do horizonte, através da utilização de projecções sobre superfícies específicas. Esta ciência é muito útil para a concepção e construção de relógios de sol, bem como cartografia (Projecção gnomónica) - definição retirada de http://tradutor.babylon.com/portugues/Gnom%C3%B3nica/. Era uma antiga ciência caldeia. O seu nome deriva de gnómon, que em grego significa "saber", "conhecer" e tratava sobre o universo, os planetas, as constelações, astrologia e a sua interpretação pelo homem. Vitrúvio escreveu no Livro I: "a partir da astrologia, o arquiteto conhece os pontos cardeais: oriente, ocidente, sul e norte; e também a estrutura do céu, dos equinócios, dos solstícios e dos movimentos orbitais dos astros. Se se ignora a Astrologia (termo que engloba a Astronomia), é absolutamente impossível que conheça a disposição e estrutura dos relógios" (de sol, obviamente). Na Mesopotâmia, o primeiro instrumento astronómico conhecido foi o mais simples, o gnómon, um pilar de pedra que terminava em ponta, com uma altura aproximada de 2,5 metros. A pedra espetada na terra recebia a luz do sol e gerava sombra, projetada no solo ou numa parede.

Em pleno Renascimento, muito rapidamente se difundem numerosas traduções da obra de Vitrúvio por toda a Europa Continental. Nela ressalta o retrato do que seria o “arquiteto ideal”, conhecedor de geometria, matemática, dos materiais, mas também de meteorologia, astronomia, música, medicina, ótica, filosofia, história, direito, mecânica, etc..

As traduções desta obra influenciaram grandemente os arquitetos, engenheiros e mestres construtores da Europa Continental, a partir do Renascimento, no sentido de adquirirem competências mais abrangentes e tão completas quanto possível. Este aspeto da universalidade e abrangência do conhecimento do Homem Completo encontramo-lo hoje em dia particularmente pontuado em determinada fase da evolução do maçom moderno e é, indubitavelmente, uma caraterística matricial da moderna Maçonaria.

No entanto, a grande influência que, sobretudo sobre os arquitetos, construtores e outros intelectuais europeus continentais esta obra de Vitrúvio exerceu, aparentemente passou ao lado dos maçons operativos britânicos. É o que se pode concluir do facto de os manuscritos operativos até agora encontrados, do século XV ou posteriores, não mostrarem qualquer referência a esta obra ou introdução, ainda que indireta, dos princípios atrás aludidos, nem denotarem uma particular evolução cultural ou de abrangência de conhecimentos dos construtores associados nas Lojas britânicas.

Podemos, portanto, estabelecer, com razoável segurança, que, em meados do século XVII, a Maçonaria Operativa britânica denotava insensibilidade aos princípios do Homem completo, da aquisição de noções das mais variadas ciências e ramos do conhecimento humano. No entanto, cerca de meio século depois, o tempo de duas gerações, repito, verificamos que um dos pilares da ideologia da nascente Maçonaria Especulativa é precisamente esta noção da Universalidade e abrangência do Saber, como um dos objetivos do aperfeiçoamento do maçom.

Em cerca de meio século, algo mudou - e drasticamente. É aqui que entra o segundo catalisador que referi no início deste texto. Mas essa é matéria para o próximo texto...

Bibliografia


Fonte: A Partir a Pedra

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

VERIFICAÇÃO DOS PRESENTES NO GRAU 01 - POSTURA DOS VIGILANTES

Em 24.03.2022 o Respeitável Irmão Gilvert A. Povidaiko, Loja Cavaleiros da Ascensão, 2004, REAA, GOB-SP, sem mencionar o Oriente, Estado de São Paulo, apresenta a dúvida seguinte:

POSTURA DOS VIGILANTES

Novamente lhe faço uma pergunta explorando seu conhecimento litúrgico:

Na abertura dos TTrab∴ (pág. 45 do Ritual de Apr∴), quando pede-se para que todos se levantem para verificação de serem maçons, o SOR ressalta que o 1º Vigilante (o "verificador") fica em pé com o malhete (portanto sem compor o sinal, não demonstrando desta forma o que ele está verificando nos outros). 

E quanto ao 2º Vigilante? Compõe o sinal ou também levanta com o malhete?

CONSIDERAÇÕES:

Então, a despeito de que o 1º Vigilante para fazer a verificação do seu lugar mantém o malhete pousado no lado esquerdo do peito para não revelar o Sin∴ que ele pede a “todos” os demais do Ocidente (ambas as Colunas), obviamente se a ordem é dirigia para todos, então todos os demais ficam à Ordem no 1º Grau, inclusive o 2º Vigilante.

Destaco que a segunda obrigação cabe ao 1º Vigilante, portanto o 2º Vigilante, em Loja de Grau 01 nesse momento não faz nenhuma verificação. Assim, ele, tal como os demais do Ocidente, também fica à Ordem, isto é, deixa seu malhete e compõe o Sinal.

T.F.A.

PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: http://pedro-juk.blogspot.com.br

CURIOSIDADES

DOS OPERATIVOS AOS ESPECULATIVOS: UM ELO PERDIDO

Rui Bandeira
Das várias teses sobre as origens da Maçonaria, a mais consensualmente aceite é que esta, na sua forma atual, geralmente referida como Maçonaria Especulativa, deriva das associações profissionais de construtores criadas na Idade Média. A essas associações designamos hoje por Lojas Operativas e ao conjunto de todas elas e regulamentos da profissão então instituídos referimo-nos por Maçonaria Operativa..

A forma como a transição ocorreu é normalmente referida como tendo decorrido da progressiva aceitação nas Lojas Operativas de elementos alheios ao ofício de construtor (proprietários, intelectuais), os chamados Maçons Aceites, que progressivamente foram aumentando de número até dominarem as Lojas Operativas e as transformarem nos centros de debate, estudo, fraternidade e aperfeiçoamento que hoje associamos ao conceito de moderna Loja maçónica.

Não colocando em causa, genericamente, este entendimento, sempre mantive algumas perplexidades sobre a forma de evolução e, sobretudo, sobre a forma como a realidade antiga veio a gerar precisamente a nova realidade, tal como a conhecemos. Desde logo, esta hipótese da evolução dos factos, sendo possível para uma Loja, torna-se muito mais improvável para um conjunto de Lojas, geograficamente dispersas. Quais as probabilidades de o lento processo de integração de Maçons Aceites originar, mais ou menos ao mesmo tempo, o domínio por estes de todas as Lojas Operativas geograficamente dispersas? E de lhes ser conferidas, a todas, precisamente as mesmas caraterísticas evolutivas? Parece óbvio que a resposta deve ser um número muito próximo do zero... Algo falta. Falta, seguramente, um elo na cadeia factual, algo que veio a possibilitar e a favorecer a mudança. 

As associações profissionais medievais, após o fim da Idade Média, o advento da imprensa e aumento da possibilidade de circulação e aquisição de conhecimentos, estavam em franco declínio. No início do século XVII, as Lojas Operativas estavam em processo de enfraquecimento, que, normalmente, levaria à sua extinção. As técnicas de construção e os conhecimentos geométricos a elas subjacentes não eram já monopólio dos construtores associados. Muitos outros sabiam construir e construíam e competiam pela obtenção de contratos com os profissionais associados. Nesse clima, afigura-se-me que a aceitação de proprietários locais, de burgueses de outros ofícios ou intelectuais com prestígio local foi uma tentativa desesperada de procurar manter a máxima quota de mercado possível na órbita das Lojas Operativas. Mas tal dificilmente travaria o declínio e o inexorável caminho para o baú que a História reserva para o que perdeu a sua razão de existir. Com ou sem Aceites, as Lojas Operativas estavam condenadas. 

Em toda a primeira metade do século XVII não há mudanças significativas da situação. Em cada região, a respetiva Loja Operativa lutava pela sobrevivência e procurava juntar a si elementos estranhos ao ofício. Era através da convivialidade, da integração social que os Operativos procuravam manter o seu mercado, sempre acossados por construtores não associados, capazes e competitivos, designadamente, em matéria de preço.

Até que, na segunda metade do século XVII, algo muda! O que declinava, passou a florescer. Não só as Lojas Operativas, agora essencialmente conviviais, não desapareceram, como surgiram outras novas e os seus objetivos mudaram: de meras organizações profissionais, passaram a, com a marca distintiva da união e da fraternidade, centros de debate, estudo e auxílio mútuo no aperfeiçoamento (desde logo cultural e, genericamente, em matéria de aquisição de conhecimentos e competências). Mais: florescem nas zonas urbanas mais desenvolvidas. As quatro Lojas de Londres que decidiram unir-se na Grande Loja de Londres em 24 de junho de 1717 não eram as únicas de Londres e Westminster. Em 1722, aquando da aprovação das Constituições de Anderson publicadas em 1723, a Grande Loja de Londres agregava já vinte Lojas. Era manifestamente impossível que quatro Lojas lograssem quintuplicar o seu número em escassos cinco anos. Logo, o que sucedeu foi a junção de outras Lojas, já existentes, ao projeto iniciado pelas quatro pioneiras. O que nos conduz à conclusão de que, seguramente, mais de uma dezena de Lojas existiam só na zona de Londres, no início do século XVIII.

Em meio século, em duas gerações, a vereda do declínio transforma-se na ampla estrada do crescimento. No entanto, o ambiente social era tudo menos propício! Entre 1640 e 1650, trava-se em Inglaterra uma dura guerra civil e religiosa, entre os católicos partidários dos Stuarts e os parlamentares, maioritariamente protestantes, liderados por Oliver Cromwell, no âmbito da qual Carlos I perde, literalmente, a cabeça e o seu filho, Carlos II, é obrigado a exilar-se, para que não sofra idêntica, e certamente inconveniente, perda. Em 1660, Carlos II logra retomar o poder para os Stuarts, o qual mantém até à sua morte, em 1685, mas sempre em confronto com os parlamentares. Em 1688-1689, dá-se a chamada Revolução Gloriosa, pela qual o sucessor de Carlos II, o católico Jaime II, é apeado do poder, em benefício de sua filha, Maria II e do seu genro, o holandês e protestante Guilherme, príncipe de Orange. São cinquenta anos de lutas, de tensão, de derramamento de sangue e de destruição, nada propícios a uma pausada e lenta transformação de estruturas vindas da idade Média!

Qual foi então o catalisador, o fator que transformou mais do mesmo – o progressivo declínio das Lojas Operativas, afetadas do mal da irrelevância pelo progresso e evolução sociais – numa nova e pujante realidade, como se veio a revelar a Maçonaria, no meio de convulsão social, guerras e revoluções?

Veremos isso nos próximos textos!

Bibliografia

Fonte: A Partir a Pedra

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

ORIENTE E FALAR SENTADO

(republicação)
Questão que faz o Respeitável Irmão Pasolini, Secretário Estadual do GOB-ES, Oriente de Vitória, Estado do Espírito Santo.
pasolini.vix@terra.com.br

Preciso de sua opinião quanto a um assunto que julgo polêmico: Alguns autores afirmam que todos que se assentam no Oriente, têm o direito de falar sentado, por que são autoridades. Você comunga com esta opinião? Penso o contrário. As autoridades é que devem dar o exemplo e falar de acordo com o que determina o Ritual.

CONSIDERAÇÕES:

Nessa polêmica toda existem alguns aspectos que dever ser considerados. Essa questão de Oriente demarcado e elevado no Rito Escocês Antigo e Aceito é oriundo das já extintas Lojas Capitulares cujos primeiros rituais no primeiro quartel do Século XIX do simbolismo do Rito em questão foram a eles adaptados e por extensão desaguaram na Maçonaria brasileira. 

Nesse sentido é daí que alguns apregoam a possibilidade de todos os presentes no Oriente falarem sentados. Na verdade isso é tradicional prática capitular que não deveria sob-hipótese qualquer influenciar os graus simbólicos do Rito.

Outra demanda, e esta particularmente associada ao GOB⸫ quando trata do número de integrantes das Dignidades da Loja em quantidade de sete. A confusão está em confundir os cargos eletivos – que no nosso caso são sete – com as Dignidades que são tradicionalmente cinco (as três Luzes mais o Orador e o Secretário).

Assim exposto, o Oriente é simbólico e não capitular, portanto no simbolismo quem fala, fala em pé, salvo em situações que o ritual determine o contrário. 

Desse embrolho é tradição na vertente francesa que constitui o termo “Dignidades” de que a essas é dado o direito de falar sentado, salvo também quando o ritual determinar o contrário. 

Assim as Dignidades, em se usando o número correto de componentes, falam normalmente sentados – Venerável Mestre, Primeiro e Segundo Vigilantes, Orador e Secretário. Obviamente que em determinados momentos ritualísticos eles obrigatoriamente devem se posicionar em pé, todavia no desenrolar normal dos trabalhos eles falam sentados, inclusive o Ocidente como é o caso dos Vigilantes. Essa é a regra básica e tradicional. Assim os demais que ocupam o Oriente, sejam eles autoridades ou não, falam em pé, daí, à Ordem.

Fica também o alerta para que se alguma Dignidade preferir falar em pé, ela estará à Ordem compondo o Sinal com a mão, ou mãos se for o caso. Destes a regra é também para o Venerável e Vigilante (Luzes, portanto Dignidades) que devem deixar os seus malhetes e compor o Sinal na forma de costume e não ficar atravessando o malhete sobre o peito quando estiverem em pé nos seus devidos lugares.

Ademais, como pensa o Irmão, eu também penso. Autoridades antes e acima de tudo devem dar exemplo. Humildemente compor o Sinal como qualquer outro Irmão presente nos trabalhos.

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: JB News – Informativo nr. 0838 Florianópolis (SC) 12 de dezembro de 2012.

MINUTO MAÇÔNICO

JANELAS

1º - Aberturas gradeadas que, em número de três, figuram no painel da Loja de Aprendiz e que se lembram as usadas pelos antigos Maçons para observarem a marcha do sol, que dissipa as trevas; ao meio-dia, que reduz a sombra levada ao seu mínimo, e o pôr do sol e suas belezas.

2º - Têm sido interpretadas como a destruição dos preconceitos, a constatação objetiva do verdadeiro e o respeito às tradições. Outros nelas vêem uma alusão à necessidade que se tem de observar a marcha da Ciência e da Verdade.

3º - A janela do Oriente traz a suavidade da aurora, o seu renovamento de atividade; a do Meio-dia a força e o calor; a do Ocidente dá uma luz sempre enfraquecida que incita ao descanso.

4º - Os trabalhos dos Maçons começam, simbolicamente, ao Meio-dia e terminam à Meia-noite. Começam ao Meio dia quando o Sol irradia com toda a sua força no Templo.

5º - Os Aprendizes são colocados ao Norte porque têm necessidade de ser iluminados; recebem assim em cheio a luz da janela do Meio-dia. Os Companheiros da Arte, colocados ao Meio-dia, necessitam de menos luz e a sombra trazida pelo muro do Templo os ilumina suficientemente.

Fonte: http://www.cavaleirosdaluz18.com.br

DIFERENÇAS ENTRE RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

(A colaboração veio do Ir. Pantanali, de Joinville)
A religião não é só uma, mas centenas. A espiritualidade é uma. A religião é para os adormecidos. A espiritualidade é para os despertos. A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer, querem ser guiados. A religião tem um conjunto de regras dogmáticas. A espiritualidade é para os que ouvem a sua voz interior. A espiritualidade convida a raciocinar tudo, a questionar tudo. A religião impõe, ameaça e amedronta. 

A espiritualidade dá paz interior. A religião fala de pecado e de culpa. A espiritualidade faz aprender com o erro. A religião reprime e torna falso. 

A espiritualidade descobre. A religião não pergunta nem questiona. A espiritualidade questiona tudo, pois sabe que tudo muda. A religião é humana, é uma organização com regras. 

A espiritualidade é Divina, sem regras. 

A religião é causa de divisão. A espiritualidade é causa de união. A religião lhe busca para que creia. A espiritualidade tem que ser buscada por você. 

A religião segue os preceitos de um livro sagrado. A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros. 

A religião se alimenta do medo. A espiritualidade se alimenta da confiança. 

A religião faz viver no pensamento. A espiritualidade faz viver na consciência. 

A religião se ocupa do fazer. A espiritualidade se ocupa do Ser. A religião alimenta o ego, pois uma se diz melhor que a outra. A espiritualidade faz transcender o ego. 

A religião faz renunciar ao mundo. A espiritualidade faz viver em Deus, não renunciar a Ele. 

A religião é adoração. A espiritualidade é meditação. A religião sonha com a glória e o paraíso. A espiritualidade faz vivê-lo aqui e agora. 

A religião vive no passado e no futuro. A espiritualidade vive no presente. 

A religião é prisão na memória. A espiritualidade é liberdade na consciência. 

A religião crê na vida eterna. A espiritualidade faz consciente dela. A religião dá promessas para depois da morte. A espiritualidade é encontrar Deus em seu interior. 

Fonte: JBNews Informativo nº 183 -26/02/2011

terça-feira, 11 de outubro de 2022

O SINAL E A MARCHA DE COMPANHEIRO

(republicação)
Questão apresentada pelo Respeitável Irmão Walter Monteiro Filho, Delegado do Grão-Mestre para a região de Apucarana, Loja Sá Carvalho, sem declinar o nome da Obediência, Oriente de Apucarana, Estado do Paraná.
wmonteiro50@hotmail.com

Ao se entrar quando do encerramento da sessão no caso de uma elevação: Entra-se com o sinal de Aprendiz, faz-se os 3 passos, e na hora de se mudar o sinal para o de Companheiro, como proceder? Simplesmente muda-se o sinal para o de Companheiro, ou se desfaz o sinal c⸫o p⸫ para depois se fazer o sinal de Companheiro? O mesmo se faz quando se termina uma sessão de Exaltação? Simplesmente muda-se o sinal, por exemplo, de Aprendiz para o de Companheiro ou se desfaz o sinal, completando-se o sinal? Espero ter me feito compreender.

CONSIDERAÇÕES:

Não sei por que essa citação na questão de “encerramento” da sessão, já que os passos inerentes aos respectivos Graus não são dados, digamos, no encerramento.

A questão me parece ser intrínseca à Marcha dos respectivos Graus. Assim a Marcha do Aprendiz é composta sabidamente por três passos com o Sinal Penal do Grau composto. Ao seu término, saúda-se às Luzes da Loja, cada um por sua vez, pela aplicação da pena simbólica. 

No caso do Companheiro – obrigatoriamente primeiro dão-se os passos do Aprendiz e ato seguido desfaz-se o respectivo Sinal pela aplicação simbólica da pena (isso não quer dizer saudação, embora o ato seja o mesmo), compondo-se imediatamente o Sinal Penal do Companheiro. Dão-se então os outros passos na forma de costume, fazendo-se então a Saudação às Luzes, cada uma por sua vez, aplicando a pena simbólica. 

Se o caso for o de Mestre – primeiro os passos do Aprendiz, transforma-se o Sinal para o de Companheiro dando em seguida os passos relativos a esse Grau, desfaz-se então o Sinal Penal do Segundo Grau pela aplicação da pena e imediatamente se faz o Sinal Penal do Mestre, dando-se em seguida os passos relativos ao Terceiro Grau. Ao final saúdam-se as Luzes, cada qual por sua vez, pelo Sinal Penal do Mestre.

Faz-se imperativo compreender que a cada evolução conseguida pelo aumento de salário, somam-se os passos, assim no Segundo Grau começa-se pelos do Aprendiz acrescidos dos outros passos, bem como no Terceiro Grau o procedimento é o mesmo – primeiro os do Aprendiz, seguido posteriormente pelos do Companheiro e encerrando a trajetória com os do Mestre. Acima do Aprendiz, nenhuma marcha será completa se ela porventura começar apenas pelos passos inerentes ao no seu Grau.

Devo aqui salientar que as considerações dadas até o presente momento são próprias da Marcha e não propriamente sobre a abertura dos trabalhos nos respectivos Graus Simbólicos do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Agora a questão de como se desfazer o Sinal para a composição do outro durante a marcha do Companheiro e do Mestre. A cada mudança de Sinal de um para o outro Grau o obreiro deverá desfazer o Sinal na forma de costume, isto é: pela aplicação da pena, já que o Sinal é penal e só é completo pela referida aplicação. 

É costume equivocado se mudar de um para o outro Sinal diretamente. Primeiro se completa um para posteriormente se compor o outro. A dúvida surge devido à confusão feita por alguns Irmãos achando que a aplicação da pena é a saudação. 

Ora, a saudação é sempre feita pelo Sinal, todavia em se compondo um sinal não significa que indiscriminadamente esteja se saudando alguém. 

Na verdade são dois procedimentos distintos, porém usando-se o mesmo artifício. Note que no uso da Palavra, por exemplo, o obreiro se posiciona à Ordem, protocolarmente denomina as Luzes da Loja (o que não é saudação), faz o uso da palavra e por fim, antes de sentar desfaz o Sinal pela aplicação da pena. Nada disso tem a ver com saudação pelo Sinal.

Uma regra importante para se observar é que todo aquele que compõe um Sinal Penal, para desfazê-lo, não importando a circunstância, aplica a pena simbólica. Desfazer um sinal sem observar esse procedimento é conduta simplesmente equivocada.

Por fim, embora sem saber se é bem esse o caso, contudo acho importante deixar aqui outro esclarecimento que julgo necessário. É o assunto inerente a abertura dos trabalhos da Loja. Ocorre que nos ritos de origem francesa, como é o caso do Rito Escocês, as Lojas são abertas diretamente no Grau que lhes aprouver. Daí a existência de rituais distintos e separados para cada Grau.

Quando houver necessidade de numa mesma sessão se fazer mudança de Grau, as Lojas dessa vertente usam o recurso da transformação. Nesse sentido uma Loja ao ser aberta em um Grau, faz uso específico da ritualística e liturgia do Grau correspondente.

Assim, uma Loja aberta no Segundo Grau procede com Sinais, Toques e Palavras apenas desse Grau, fato que só não acontece na Marcha. Assim também o é no Terceiro Grau.

Ocorre que nem tudo é igual, pois os Trabalhos de origem Inglesa (lá não se usa o termo rito) geralmente procedem de maneira diferente. Nessa vertente obrigatoriamente as Lojas são abertas desde o Grau de Aprendiz até o Grau que ela deseje trabalhar. Em um trabalho na Loja de Companheiro, primeiro abre-se a Loja de Aprendiz e posteriormente se abre a do Grau 2. No caso da de Mestre é a mesma coisa. Primeiro a de Aprendiz, em seguida a de Companheiro e finalmente a de Mestre. 

É importante salientar que nesse costume não há transformação, porém abertura ritualística completa a cada Grau. No caso do encerramento o procedimento também é completo, porém de forma inversa. Os Trabalhos de Emulação (equivocadamente aqui conhecido como Rito de York), por exemplo, por raízes inglesas, deve proceder dessa forma.

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: JB News – Informativo nr. 0835 Florianópolis (SC) 09 de dezembro de 2012.

HARMONIA

Rui Bandeira
Os maçons prezam a Harmonia na Loja. 

Esta frase é consensual. Mas será que todos dão o mesmo significado à palavra Harmonia? Em que consiste realmente a Harmonia da Loja? Quando se pode dizer que uma Loja está em Harmonia? 

A Harmonia da Loja não é unanimidade. Nem sequer consenso (estes dois conceitos não são sinónimos; o consenso resulta sempre de uma concertação de posições, à partida, necessariamente com algumas diferenças; a unanimidade não resulta necessariamente desse esforço; a unanimidade pode surgir sem que se faça nada por ela; o consenso resulta sempre de trabalho, busca). 

Pode - e é comum que isso suceda - haver divergências, desacordos, sem que se quebre a Harmonia da Loja. Tudo depende de como as posições diferentes são expostas, encaradas e, sobretudo, trabalhadas pelo grupo. Superar desacordos, integrar diferenças, compatibilizar divergências reforça a Harmonia da Loja.

Assim sendo, há mais Harmonia numa Loja em que as divergências se expõem, se aceitam e se trabalham no sentido da superação do que noutra em que o unanimismo impere sempre. Mesmo que na primeira por vezes subsistam divergências, embora porventura atenuadas ou, pelo menos, globalmente compreendidas na sua origem e motivos. Direi mesmo que a Loja em que impere o unanimismo tende a estiolar. Porque o unanimismo não é natural em nenhuma sociedade humana. Porque a sua persistente existência revela afinal medo da assunção de diferenças. 

Pelo contrário, a Loja que se habitua a conviver naturalmente com as diferenças, divergências desacordos, a tolerar (é o termo!) a sua existência e a trabalhar na sua superação, na medida do possível, essa sim, trabalha em Harmonia. Porque ali se cultiva o respeito pelo pensamento do outro - sempre. Porque ali a diferença não gera confronto, luta, azedume. Conduz à cooperação ente iguais com entendimentos diferentes, no sentido de discernir semelhanças e diferenças, lobrigar o que é essencial e o que é meramente acessório na posição de cada um, verificar como é possível compatibilizar pontos de vista diferentes. 

E chegar à melhor solução possível para todos. Porque ali se trabalham as diferentes razões individuais na busca da Razão Coletiva. E de cada vez que se consegue fica-se mais forte. E quando não se consegue não é por isso que se fica mais fraco.

A Harmonia da Loja não é ausência de discussão. É discussão, debate, sérios, honestos, respeitadores das posições e da dignidade de cada um e de todos.

A Harmonia da Loja não é a obediência cega e acrítica a quem manda. Também não é o questionamento sistemático das decisões de quem viu confiado pelo coletivo, mais do que o poder, o encargo - por vezes, o fardo - de decidir. A Harmonia da Loja resulta do debate de tudo até se decidir com o contributo de todos e implica o respeito do decidido por todos. Não são todos obrigados a executar o decidido, pois há que respeitar os desacordos não superados. Mas todos necessariamente renunciam a obstaculizar o que se decidiu. Em termos simples, quem discorda pode não fazer. Mas não deve fazer diferente ou o contrário.

Tal como na música a Harmonia não está nem na ausência de som, nem no mesmo som, está na compatibilização de forma agradável de sons diferentes, também a Harmonia da Loja não resulta da ausência de divergências, na renúncia ou impossibilidade de discussão. Resulta da tolerância das diferenças, da cooperação na integração das divergências, da superação participada dos desacordos.

Portanto, que nunca se pense que discordar quebra a Harmonia da Loja. O que quebra a Harmonia da Loja é o impedimento da expressão das discordâncias. Porque só mediante essa expressão, só perante a aceitação do direito de discordar, só mediante a naturalidade da análise das divergências é possível construir, avançar, fortalecer a Loja.

Na Loja Mestre Affonso Domingues, tudo se debate, todas as discordâncias são expressas e analisadas e trabalhadas, no processo permanente de chegar às melhores soluções possíveis. Por vezes, o debate é aceso, os confrontos são duros. Mas o que se acendem são as opiniões de Irmãos, o que se confrontam são as suas ideias. 

No final de cada debate, tomada a decisão, por muito que se tenha discutido, debatido, cada um fica com as suas ideias (quantas vezes modificadas, melhoradas, evoluídas, na sequência do debate e do confronto com as outras e diferentes ideias!) - mas todos ficam com a conclusão a que se chegar como sendo a melhor possível para o coletivo naquele momento e naquelas condições. E todos se juntam em descontraída conversa e agradável ágape. 

Todos sabendo que porventura em ocasião próxima haverá outro debate, em que não raro os que naquele dia se confrontaram com ideias diferentes se baterão juntos pela mesma posição...

Sempre assim foi nesta Loja. Foi assim que superou a sua maior crise, com insanável, na altura, desacordo de caminhos a seguir, com a maior Harmonia que alguma vez vi e que procurei descrever no texto O fim da infância. 

É assim que hoje superamos as dificuldades que surgem. Com muito debate, franco, leal, aberto, duro, sempre que necessário, esteja quem estiver connosco na ocasião. Sem vergonhas e sem cuidados com a imagem. 

E se alguém menos avisado alguma vez tentar aproveitar o que possa julgar ser fratura de alguma divergência, rapidamente ficará desenganado! Porque as nossas "fraturas" são muito "móveis", de consolidação extremamente rápida e de cicatrização fácil e sem deixar marcas! Afinal de contas estamos tão habituados a discutir e debater uns com os outros que estou em crer que se aborrecia de morte quem saísse daqui!!!!

Na Loja Mestre Affonso Domingues não existiu nunca unanimismo e a unanimidade só aparece por acaso. O que persistentemente se busca e frequentemente se atinge são consensos! Às vezes após discussões épicas. Sempre tolerando a existência de diferenças e divergências. Sempre sabendo que o acordo, para existir, necessita de prévio desacordo e persistente debate na sua superação. 

E isto, meus caros, isto é que é verdadeiramente uma Loja em Harmonia!

Fonte: A Partir a Pedra

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

O BASTÃO E O MESTRE DE CERIMÔNIAS

(republicação)
Consulta que faz o Respeitável Irmão Thiers Antônio Penalva Ribeiro, que recebeu uma consulta do Respeitável Irmão Sérgio Augusto Moreira Bastos que pede auxílio. Não foi declinado o nome da Loja e Oriente.
t.penalva@uol.com.br

Quero que me auxilie numa dúvida. Quando o Mestre de Cerimônias estiver conduzindo pessoas na Loja (por exemplo, levando Irmãos que tiverem o Templo coberto, ainda que temporariamente, por algum motivo) ele tem que portar o bastão? Necessário acrescentar da necessidade do Mestre de Cerimônias acompanhar esses Irmãos fora do ambiente da reunião. Quando é dispensável a condução do bastão pelo Mestre de Cerimônias? Oriente-me informando-me onde está essa informação.

CONSIDERAÇÕES:

O Mestre de Cerimônias é um oficial que auxilia a condução dos trabalhos. Dentre seus deveres de ofício está o de conduzir Irmãos na Loja incluindo-se às vezes até no átrio.

Como dito, o Mestre de Cerimônias conduz e não acompanha. Isso significa que ele sempre vai à frente de alguém até o destino. Sempre que esse Oficial estiver conduzindo alguém ele estará munido do seu principal instrumento de trabalho que é o bastão.

Conduzindo Irmãos que por alguma necessidade devam ter o Templo coberto, ele o fará até a porta que do átrio dá acesso à Sala dos Passos Perdidos, retornando em seguida para os trabalhos da Loja. 

Se a cobertura for temporária, no momento adequado do retorno aos trabalhos, por ordem do Venerável ele irá reconduzir os Irmãos que tiveram o Templo coberto.

Assim, a praxe é de que quando o Mestre de Cerimônias estiver conduzindo alguém, ele sempre estará munido do bastão que é empunhado pela sua mão direita. 

Também essa condução não se restringe apenas aos casos de se conduzir alguém de dentro para fora ou de fora para dentro do Templo. Exemplo: Ele conduz o Irmão responsável pela abertura do Livro da Lei, quando ele vai à frente até o Altar e posteriormente se posiciona atrás do que vai proceder a abertura.

Nas suas outras obrigações de ofício, o bastão é dispensado. Por exemplo, conduzir o livro ata (balaústre), fazer circular a bolsa de Propostas e Informações, expor o Painel do Grau, etc.

Como toda regra tem as suas exceções existem momentos na liturgia do Rito em que o Mestre de Cerimônias conduz e auxilia sem o uso do bastão, como é o caso de certas passagens nas cerimônias de Iniciação, Elevação e Exaltação.

Há que se considerar também o Ritual aprovado pela Obediência no que ele exara no tocante ao Mestre de Cerimônias. 

Então as minhas considerações são para o verdadeiro Rito Escocês Antigo e Aceito onde não existe a formação do pálio, por exemplo. 

Se porventura algum ritual aprovado e em vigor prever a tal formação de pálio e tendo como participante o Mestre de Cerimônias, então ele usará obrigatoriamente o bastão nessa oportunidade.

Quanto às informações a respeito estas provavelmente estarão nos Manuais de Procedimentos e Rituais em vigência. 

Por outro lado, existem costumes que são espontâneos e universalmente aceitos. Assim em tradição, usos e costumes nem tudo necessariamente precisa estar escrito.

T.F.A.
PEDRO JUK -mjukirm@hotmail.com
Fonte: JBNews n. 834, 08/12/2012

A CAMINHADA DO MAÇOM

Ir∴ Geraldo M. de Castro

Sei que minha caminhada tem um destino e um sentido, por isto devo medir meus passos, devo prestar atenção no que faço e no que fazem os que por mim também passam ou pelos quais passo eu... 

Que eu não me iluda com o ânimo e o vigor dos primeiros trechos, porque chegará o dia em que os pés não terão tanta força e se ferirão no caminho, cansando-se mais cedo... Todavia, quando o cansaço houver chegado, que eu não desespere e acredite que ainda terei forças para continuar, principalmente, quando houver quem me auxilie... 

É oportuno que em meus sorrisos eu me lembre de que existem os que choram e, assim, que meu sorriso não ofenda os que sofrem. Por outro lado, quando chegar a minha vez de chorar, que eu não me deixe dominar pela desesperança, mas que eu entenda o sentido do sofrimento que me nivela, que me iguala, que torna todos os homens iguais... 

Bota nos pés e chapéu na cabeça e, assim não temer o vento e o frio, a chuva e o tempo, que não me considere melhor do que aqueles que ficarão para trás, porque pode vir o dia em que nada mais terei para a jornada e aqueles que ultrapassei na caminhada me alcançarão e também poderão, como eu fiz, nada de fato fazerem por mim, que ficarei no caminho sem concluí-lo... 

Quando o dia brilhar que eu tenha vontade de ver a noite em que a caminhada será mais fácil e amena, porém quando for noite e a escuridão tornar mais difícil à chegada, que eu saiba esperar o dia como a aurora o espera, que eu saiba esperar o calor como Bênção... 

Que eu perceba que sozinho a caminhada pode ser mais rápida, mas que é mais vazia... 

Quando eu tiver sede que encontre a fonte no caminho e quando me perder que eu ache a indicação, o sentido... 

Que eu não siga os que se desviam. Mas e principalmente, que ninguém se desvie seguindo os meus passos... 

Que a pressa em chegar não me afaste da alegria de ver as flores à beira do caminho, que eu não perturbe a caminhada de ninguém, e que perceba, que se seguir faz bem, às vezes é preciso ter-se a bravura de voltar atrás e recomeçar e tomar outra direção... 

Que eu não caminhe sem rumo, que eu não me perca nas encruzilhadas, tampouco não tema os que assaltam e os que embuçam, mas que eu vá onde devo ir. E, se eu cair no meio do caminho, que fique a lembrança de minha queda para impedir que outros caiam no mesmo abismo... 

Que eu chegue sim, mas ainda mais importante é que eu faça chegar quem me perguntar, me pedir conselho e, acima de tudo, que continuem a me seguir, apoiando em mim, porque Maçom, meus irmãos como tal me reconhecem. 

Fonte: JBNews - Informativo nº 183 - 26/02/2011

domingo, 9 de outubro de 2022

JÓIA ESQUADRO

(republicação)
Consulta que faz o Irmão Francisco Fernandes, Aprendiz Maçom membro da Loja (sem se definir o nome pelo excesso de abreviações), Oriente de Pedreiras, Estado do Maranhão.
somar-somar@hotmail.com

Verifiquei que na página sete (07) do Ritual de Aprendiz - versão 2001 - não faz referência ao Esquadro, enquanto que na página dezoito (18) do mesmo ritual, porém na versão 2009, cita-se a joia e ainda orienta quanto a sua disposição sobre o Compasso e o direcionamento dos vértices. "seu lado menor voltado para o lado norte". Poderias me esclarecer porque a joia passou a figurar na edição 2009? Também, qual o significado em ter seu lado menor voltado para o norte?

CONSIDERAÇÕES:

Primeiramente eu gostaria de manifestar a minha satisfação quando encontro um Aprendiz Maçom preocupado com a liturgia e ritualística e por extensão com a cultura maçônica.

Não vou entrar no mérito do ritual de 2.001 que não está mais em vigência, porém sobre o que exara o atual.

Esse Esquadro ao que o Irmão se refere não possui a denominação de joia. Esse tratamento é dado àquele preso ao colar do Venerável e tido como uma das joias móveis da Loja.

O Esquadro que compõe a tríade emblemática que fica sobre o Altar dos Juramentos é um dos componentes das Três Grandes Luzes Emblemáticas (Livro da Lei, Esquadro e o Compasso), cujas disposições em primeira instância indicam o Grau em que a Loja está aberta.

À bem da verdade, esse Esquadro emblemático não deveria ter ramos desiguais, e sim iguais, pois nesse conjunto ele não é tido como um Esquadro operativo, já que para a tríade, como o próprio nome diz, ele é um emblema de grande importância que nesse caso sempre se mostrará unido ao Compasso quando a Loja estiver aberta. Daí ele possui dois aspectos importantes. O primeiro é a revelação dos 90º graus como código de ética e moral proposto na obrigação (juramento). Segundo, ele é tido conforme a sua disposição na união com o Compasso, como uma revelação simbólica que denota evolução e aperfeiçoamento. 

Assim, ratifico que tradicionalmente, esse Esquadro não possui cabo nem graduação. Ele é simplesmente o Esquadro, cujas lições se apresentam como uma Luz (sabedoria) à vista dos presentes no Canteiro (Loja).

Agora o Esquadro operativo, com cabo e ramos desiguais seria aquele distinto como a joia do Venerável que representa dentre outros, o Mestre da Obra. Esse Esquadro simbolicamente é tido simbolicamente como instrumento de trabalho do Maçom na aplicação das obras perfeitas e duráveis. 

Em síntese esse é um Esquadro de trabalho, portanto operativo e que especulativamente acompanha o Maçom ao longo da sua vida.

Infelizmente, muitos ritualistas ainda não se aperceberam disso e copiam o símbolo, talvez por achar bonito, de gravuras, desenhos, representações, etc., por simples e mero acaso, não fazendo com isso a distinção entre os emblemas, talvez por “acharem” que tudo é igual, todavia, não é.

Essa anomalia acabou por fazer parte do ritual em vigência onde essas insígnias me parecem trocadas e provavelmente copiadas de rituais antigos e ultrapassados como se antiguidade fosse implacavelmente sinônimo de verdade. Certamente nem sempre o antigo está correto.

Alguns ainda tentam justificar que o lado menor (cabo) ficaria voltado para o Norte devido ser nesse quadrante o lugar dos Aprendizes. Essa tese está longe de ganhar sustentação, pois além de não existir ramos desiguais para essa Luz Emblemática, pior ainda no Rito em questão é que esse ramo fica apontado para o canto nordeste do Oriente onde os Aprendizes não tem acesso.

Podem existir ainda tentativas de se justificar abeirando-se por teses místicas e ocultas. Como eu faço parte da corrente autêntica da Sublime Instituição, eu primo pela racionalidade sem, entretanto desrespeitar as opiniões alheias. Assim prefiro não comentar essas suposições.

Finalizando, se é que se pode dar uma explicação, a explicação é essa. Entretanto devo reiterar o fiel cumprimento da Lei. Quando aqui expus um apontamento racional, não tive e não tenho a intensão de me insurgir contra o que está legalmente escrito no Ritual em vigência. 

Devemos então cumpri-lo como ele está, até que possamos um dia reverter legitimamente essa contradição.

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: JBNews n. 828, 02/12/2012

ENTRE COLUNAS

Rui Bandeira
O local de reunião de uma Loja maçónica tem por entrada um espaço delimitado por duas colunas. Estas evocam as duas colunas que existiam no átrio do Templo de Salomão, descritas na Bíblia no 1.º Livro dos Reis, capítulo 7, versículos 15-22:

15 E formou duas colunas de cobre; a altura de cada coluna era de dezoito côvados, e um fio de doze côvados cercava cada uma das colunas.

16 Também fez dois capitéis de fundição de cobre para pôr sobre as cabeças das colunas; de cinco côvados era a altura de um capitel, e de cinco côvados a altura do outro capitel.

17 As redes eram de malhas, as ligas de obra de cadeia para os capitéis que estavam sobre a cabeça das colunas, sete para um capitel e sete para o outro capitel.

18 Assim fez as colunas, juntamente com duas fileiras em redor sobre uma rede, para cobrir os capitéis que estavam sobre a cabeça das romãs, assim também fez com o outro capitel.

19 E os capitéis que estavam sobre a cabeça das colunas eram de obra de lírios no pórtico, de quatro côvados.

20 Os capitéis, pois, sobre as duas colunas estavam também defronte, em cima da parte globular que estava junto à rede; e duzentas romãs, em fileiras em redor, estavam também sobre o outro capitel.

21 Depois levantou as colunas no pórtico do templo; e levantando a coluna direita, pôs-lhe o nome de Jaquim; e levantando a coluna esquerda, pôs-lhe o nome de Boaz.

22 E sobre a cabeça das colunas estava a obra de lírios; e assim se acabou a obra das colunas. 

sábado, 8 de outubro de 2022

REAA - O RETÁBULO DO ORIENTE E O DOSSEL

Em 22/03/2022 o Respeitável Irmã Rodolfo Germano, Loja Deus, Justiça e Amor, 2086, Benfeitora da Ordem, REAA, GOB-SP, Oriente de Sumaré, Estado de São Paulo, apresenta o que segue:

RETÁBULO DO ORIENTE E O DOSSEL

Estamos planejando uma reforma no Templo e tenho uma dúvida relativa a essa parte da decoração.

Apesar de todos os templos que eu já visitei até hoje possuírem um Dossel relativamente grande, que avança por cima da mesa do Venerável Mestre, a leitura estrita do ritual diz, quando fala a respeito do painel do oriente: “Este painel fica bem em frente à porta de entrada e sob um dossel vermelho com franjas de ouro.”

Esta é a única menção ao dossel no ritual.

O que leva, pelo menos a mim, a interpretar que, o que fica SOB UM DOSSEL, é apenas o painel, não necessariamente a mesa inteira do Venerável, portanto, se for feito um painel com um dossel curto, que cubra apenas a ele, não deixará de estar ritualisticamente correto.

Você aprovaria uma interpretação como essa?

CONSIDERAÇÕES:

O Retábulo do Oriente é a parede que fica imediatamente atrás do trono ocupado pelo Venerável Mestre. Nele, fixado ao centro e no alto vai o Delta Radiante, tendo à sua esquerda (de quem olha do Ocidente para o Oriente) mais abaixo a representação do Sol e à sua direita a da Lua em quarto crescente.

Geralmente, por uma questão de estética, a largura do Retábulo coincide com a largura do dossel, sendo que o dossel se projeta por sobre o trono e o Altar que é ocupado pelo Venerável Mestre.

Nesse sentido, o dossel, de matiz encarnado e adornado com franjas douradas (cores características do REAA), cobre todo o conjunto trono/altar, sendo que sua estrutura (do dossel) vai fixada na porção mediana ao alto da parede oriental onde se encontra o Retábulo.

Como uma cobertura ornamental que fica no interior do recinto ao Oriente, o dossel se destaca como um elemento indicativo de um espaço que, no misticismo do REAA equivale ao Sanctum Santorum do primeiro Templo de Jerusalém – um dos arquétipos indiretos de um Templo Maçônico.

Vale mencionar que o Delta Radiante deve ser fixado no centro do Retábulo logo abaixo do dossel, de tal modo que ele não seja coberto pelo Venerável na ocasião em que o mesmo estiver em pé. O Delta deve ficar a uma altura compatível onde todos possam visualizá-lo sem nenhuma interferência. Esse detalhe deve ser observado quando da fixação do dossel.

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: http://pedro-juk.blogspot.com.br

MAÇONS FAMOSOS

INICIAÇÃO MAÇÔNICA DE VICENTE CELESTINO

ANTÔNIO FILIPE VICENTE CELESTINO (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1894 — São Paulo, 23 de agosto de 1968). Um dos mais importantes cantores brasileiros do século XX. Sabe-se também que fazia parte de membros da Loja “Trabalho e Liberdade”, do Rio de Janeiro.

INICIAÇÃO MAÇÔNICA: 26 de maio de 1947 (Segunda-feira)

Loja: Hermanibus nº 34, Rio Grande do Sul, Brasil.

Idade: 53 anos.

Oriente Eterno: Faleceu aos 73 anos de idade, vitima de infarto do miocárdio.

Fonte: famososmacons.blogspot.com

O LIVRO DOS MORTOS

(Desconheço o autor)
Durante o Império Novo (c. de 1550 a 1070 a.C.) a maior parte das fórmulas dos textos dos sarcófagos, acrescidas de diversas estrofes novas, passaram a ser escritas em rolos de papiro, os quais eram colocados nos ataúdes ou em algum local da câmara sepulcral, geralmente em um nicho cavado com essa finalidade. Quando postos no sarcófago costumavam ser encaixados entre as pernas dos corpos, logo acima dos tornozelos ou perto da parte superior das coxas, antes de serem passadas as bandagens. Tais textos, que formam um conjunto com cerca de 200 estrofes referentes ao mundo do além-túmulo, foram intitulados pelos modernos arqueólogos de Livro dos Mortos. Entretanto, conforme explica o especialista em história antiga, A. Abu Bakr, esse título é até certo ponto enganoso: na verdade, nunca existiu um "livro" desse gênero; a escolha das estrofes escritas em cada papiro variava segundo o tamanho do rolo, a preferência do adquirente e a opinião do sacerdote-escriba que as transcrevia. Um "Livro dos Mortos" médio continha entre 40 e 50 estrofes.

Para os egípcios esse conjunto de textos era considerado como obra do deus Thoth. As fórmulas contidas nesses escritos podiam garantir ao morto uma viagem tranquila para o paraíso e, como estavam grafadas sobre um material de baixo custo, permitiam que qualquer pessoa tivesse acesso a uma terra bem-aventurada, o que antes só estava ao alcance do rei e da nobreza. Em verdade, essa compilação de textos era intitulada pelos egípcios de Capítulos do Sair à Luz ou Fórmulas para Voltar à Luz (Reu nu pert em hru), o que por si só já indica o espírito que presidia a reunião dos escritos, ainda que desordenados. Era objetivo desse compêndio, nos ensina o historiador Maurice Crouzet, fornecer ao defunto todas as indicações necessárias para triunfar das inúmeras armadilhas materiais ou espirituais que o esperavam na rota do "ocidente".

As cenas do julgamento do falecido fazem parte daquela rota e, portanto, de tais papiros e são assim resumidas pelo egiptólogo Kurt Lange: Osíris, senhor da eternidade, está sentado como um rei no seu trono. Tem em suas mãos o cetro e o leque. Por trás dele, mantêm-se habitualmente suas irmãs Ísis e Néftis. Na outra extremidade, vê-se a deusa da justiça, Maat, introduzir o morto ou a morta. No meio do quadro está desenhada a grande balança em que o peso do coração é comparado ao duma pluma de avestruz, símbolo da verdade. A pesagem é confiada a Hórus e ao guardião das múmias, de cabeça de chacal,Anúbis. O deus Thoth, de cabeça de íbis, senhor da sabedoria e da escrita, anota o resultado da pesagem sobre um papiro, por meio de um cálamo. Quarenta e dois juízes — correspondendo às quarenta e duas províncias do Egito — assistem à operação. Diante desse tribunal é que o candidato à eternidade deve fazer as declarações nas quais afirma nunca se ter tornado culpado de certo número de faltas para com seus semelhantes, para com os deuses, para com sua própria pessoa e o bem alheio. Se a sentença dos juízes fosse favorável ao morto, Hórus tomava-o pela mão e o conduzia ao trono de Osíris, que lhe indicava seu lugar no reino do além. Essa é a cena que vemos na ilustração ao lado. Caso contrário, o morto estaria cheio de pecados e, então, seria comido por um terrível monstro, Ammut, o devorador dos mortos. 

A idéia central do Livro dos Mortos é o respeito à verdade e à justiça, mostrando o elevado ideal da sociedade egípcia. Era crença geral que diante de Osíris de nada valeriam as riquezas, nem a posição social do falecido, mas que apenas seus atos seriam levados em conta. Foi justamente no Egito que esse enfoque de que a sorte dos mortos dependia do valor de sua conduta moral enquanto vivo ocorreu pela primeira vez na história da humanidade. Mil anos mais tarde, — diz Kurt Lange — essa idéia altamente moral não se espalhara ainda por nenhum dos povos civilizados que conhecemos. Em Babilônia, como entre os hebreus, os bons e os maus eram vítimas no além, e sem discernimento, das mesmas vicissitudes. 

Não resta dúvida de que o julgamento de seus atos após a morte devia preocupar, e muito, a maioria dos egípcios, religiosos que eram. Mas — pondera Crouzet — a provação era de tal espécie, que podia ser sobrepujada por uma memória eficaz, ajudada pelo papiro colocado junto ao cadáver, que possibilitaria ao defunto enunciar certas sentenças soberanas. Como afastar a palavra "magia", e negar que o emprego destas fórmulas era considerado suficiente para apagar os erros da vida terrena? É claro que o crente era convidado a não cometê-los: seria a melhor maneira de garantir a sua salvação futura. Mas nenhuma reserva, em parte alguma, limitava a eficácia das receitas de que tratava de munir-se, desde que fosse obstinado, embora culpado.

É preciso que se diga que embora o Livro dos Mortos tenha aparecido grafado em papiros apenas a partir do Império Novo, sua origem é muito mais antiga, anterior até mesmo ao período dinástico. Inicialmente, contando apenas com poucas estrofes relativamente simples, adequadas aos costumes de uma época remota, seu conteúdo era transmitido de forma oral. Com o aumento da quantidade e da complexidade dos textos, os sacerdotes se viram obrigados a escrevê-los antes que se perdessem da memória dos fiéis. Num processo de cópias sucessivas foram introduzidas variações e enganos, tanto por equívoco na leitura dos caracteres quanto por desleixo, cansaço do copista e acréscimos feitos pelo próprio escriba interessado em impor sua opinião. A cópia mais antiga encontrada foi escrita para Nu, filho do intendente da casa do intendente do selo, Amen-hetep, e da dona de casa, Senseneb. Esse valioso documento, avaliam os arqueólogos, não pode ser posterior ao início da XVIII dinastia (c. de 1550 a.C.). Ele faz referência a datas dos textos que transcreve e uma delas se refere aos idos de um dos faraós da I dinastia (c. de 2920 a 2770 a.C.). 

Foi nos sepulcros de Tebas que os pesquisadores encontraram a maior parte das cópias do Livro dos Mortos. Em tais papiros os comprimentos variam entre 4,57 e 27,43 metros e a largura entre 30,48 e 45,72 centímetros. No início do Império Novo os textos são sempre escritos com tinta preta e os hieróglifos dispostos em colunas verticais, separadas entre si por linhas pretas. Títulos, palavras iniciais dos capítulos, rubricas e chamadas são grafadas com tinta vermelha. Os escribas também enfeitavam os papiros com vinhetas de traços pretos, às vezes copiadas de ataúdes e documentos de dinastias bem anteriores como a XI (c. de 2134 a 1991 a.C), por exemplo. A partir da XIX dinastia (c. de 1307 a 1196 a.C.) as vinhetas passaram a ser pintadas com cores muito brilhantes e cresceram de importância, ao passo que o texto passou a ocupar uma posição secundária. Um dos mais belos papiros ilustrados que existem é o assim chamado Papiro de Ani, cujas vinhetas representam cenas mitológicas, nomes de deuses e cenas do julgamento dos mortos. 

No decorrer da XXI e da XXII dinastias (c. de 1070 a 712 a.C.) houve deterioração do trabalho de escribas e desenhistas e a qualidade do mesmo diminuiu sensivelmente, além de ter havido alterações no conteúdo dos textos. Outros temas não relacionados com o mundo dos mortos, como a criação do mundo, por exemplo, foram incluídos nos papiros dessa época. Às vezes o texto nada tem a ver com a vinheta que o acompanha. Nesse período também se estabeleceu o costume de encher com os papiros figuras ocas de madeira do deus Osíris, as quais eram colocadas nos túmulos. Quando os papiros diminuíram de tamanho, passaram a ser armazenados em cavidades menores nas bases de tais figuras. Do final da XXII dinastia em diante, até o início da XXVI dinastia (664 a.C.) ocorreu um período de desordem e tumulto. Os sacerdotes perderam gradualmente o seu poder religoso e temporal e a crise provocou redução das despesas com cerimônias funerárias, tendo caído em desuso o costume de se fazer cópias do Livro dos Mortos. 

Quando os faraós da XXVI dinastia assumiram o poder houve uma renovação dos antigos costumes mortuários, templos foram restaurados e textos antigos esquecidos foram relembrados e novamente copiados. No que se refere ao Livro dos Mortos tais cópias passaram a ser feitas de forma sistemática. Os capítulos passaram a ter uma ordem fixa, mantidos na mesma ordem relativa nos diversos papiros, ainda que alguns contivessem mais texto do que os outros, e quatro capítulos novos foram acrescentados, refletindo as novas idéias religiosas da época. Esses escritos continuaram a ser usados durante o período ptolomaico (304 a 30 a.C.). Nessa época, porém, só eram grafados os textos que se acreditava absolutamente necessários à salvação do morto. Textos que refletiam uma mitologia há muito esquecida eram ignorados.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

JÓIA DO VENERÁVEL SUBSTITUTO

(republicação)
O Respeitável Irmão Geraldo Aparecido Domingues Lopes, Primeiro Vigilante da Loja Fênix, REAA, GOB-PR, Oriente de Umuarama, Estado do Paraná. mingol@bol.com.br

Sendo o 1º Vigilante o substituto natural do Venerável Mestre no caso do seu impedimento ou ausência, qual seria a Joia a ser utilizada por ele em eventual substituição, visto que a joia do seu cargo de ofício (do 1º Vigilante), em tese, teria que ser utilizada pelo seu então substituto.

No meu modesto entendimento, deveria usar a joia do Venerável Mestre que é do ofício e o avental de Mestre Maçom, estando, portanto impedido apenas de usar um avental que seria próprio do Mestre Instalado.

CONSIDERAÇÕES:

O Primeiro Vigilante é substituto em caráter precário no caso do Venerável faltar. Assim, se ele não for um Mestre Instalado ele assume normalmente para dirigir os trabalhos naquela Sessão sem a necessidade de usar a joia distintiva, pois ela é privativa daquele que foi Instalado. Sendo o caráter precário, não faz diferença alguma. 

Em sendo o substituto um Mestre Instalado (Primeiro Vigilante) ele usa a joia de ex-Venerável da qual ele já é possuidor ou mesmo a joia do Venerável (esquadro).

No caso de uma Sessão Magna de Iniciação, Elevação ou Exaltação e na falta do Venerável, o substituto obrigatoriamente deve ser um Mestre Instalado, de preferência o mais recente (está previsto no RGF).

Apenas a título de esclarecimento, esse preenchimento precário não pode ser definitivo, pois na ausência definitiva do Venerável, a Loja terá que realizar nova eleição, mesmo sendo o Primeiro Vigilante um Mestre Instalado.

T.F.A.
PEDRO JUK - jukirm@hotmail.com
Fonte: JBNews n. 827, 01/12/2012