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sexta-feira, 22 de julho de 2011

MESTRE DA LOJA OU VENERÁVEL MESTRE?


Ir∴ Anatoli Oliynik

Há uma questão polêmica na denominação correta do cargo de presidente de uma loja maçônica simbólica: Mestre da Loja ou Venerável Mestre?

Para dirimir essa dúvida, vamos fazer algumas ilações a respeito deste instigante assunto, começando com a definição de seus elementos.

A palavra “Mestre”

A palavra mestre é um substantivo masculino [do francês antigo, maiestre], que designa aquele que é versado em uma arte ou ciência; o artífice que dirige outros oficiais; aquele que trabalha por conta própria, entre outras definições.

Na antiguidade, segundo Nicola Aslan, o título era usado entre os Talhadores de Pedra para indicar o Companheiro encarregado da direção de um canteiro de obras. Mais tarde, a Maçonaria especulativa atribuiu o título à quem presidia as assembléias de uma Loja. A partir de 1725, o termo foi usado para designar, não mais uma função, mas uma dignidade, e tornou-se a denominação de um terceiro grau.

A palavra “Venerável”

A palavra venerável [do latim venerabile] é um adjetivo que designa algo ou alguém digno de veneração ou respeito.

Nicola Aslan, define como primeiro oficial e presidente de uma loja maçônica simbólica. Segundo Castellani, a utilização desta palavra para designar o presidente de uma loja maçônica, é um “erro crasso”, pois mesmo quando usada como Venerável Mestre, continua sendo o adjetivo relativo ao substantivo Mestre.

Ainda, segundo Aslan, e Castellani adota a mesma linha de raciocínio, o título surgiu no século XVII, quando as guildas inglesas começaram a denominar-se “Worshipful”, isto é, Venerável. A Companhia de Pedreiros de Londres passou então a chamar-se “The Worshipful Company of Masons”. Na Inglaterra, o título de “Worship”, significando veneração ou adoração, foi aplicado primeiro ao Grão-Mestre, depois às lojas, e mais tarde ao seu Mestre.

Se examinarmos as Constituições dos Franco-Maçons que são o documento básico da Maçonaria chamada Moderna, também conhecidas por Constituições de Anderson, de 1723, logo no primeiro título, constataremos o seguinte:

The CONSTITUTIONS OF THE
Free-masons Containing the
History, Charges, Regulations, &c. Of that most Ancient and Right Worshipful FRATERNITY
For the Use of de LODGES

[Tradução]

As

CONSTITUIÇÕES dos FRANCO-MAÇONS contendo a História, as Obrigações, Regulamentos, &c. Dessa mui Antiga e Mui Venerável FRATERNIDADE Para o Uso das LOJAS

A palavra “Worshipful” (o grifo é meu) aparece aí colocada como adjetivo qualificativo do substantivo feminino “Fraternidade”, sendo utilizada para qualificar a Instituição, no caso, a Premier Grand Lodge. No preâmbulo da parte histórica do mesmo documento, constata-se o seguinte:

The CONSTITUTION,
History, Charges, Regulations, &c. of the
Right Worshipful FRETERNITY of Accepted Free MASONS;
Collected
From their general RECORDS, and their Faithful TRADITIONS of many Ages.
To be read
At the Admission of a New Brother, when the Master or Warden fhall begin, …

[Tradução]

“A CONSTITUIÇÃO, História, Leis, Obrigações Ordens, Regulamentos, e Usos, Da Mui Venerável FRATERNIDADE dos MAÇONS Livres e Aceitos; Coligidos De seus ARQUIVOS gerais, e de suas fiéis TRADIÇÕES de muitas Eras. para serem lidas

Quando da Admissão de um NOVO IRMÃO, quando o Mestre ou o Vigilante começara...” Observem que o tratamento ao presidente da Loja é “Mestre” (o grifo é meu) e não “Venerável” utilizado para designar a Fraternidade. Isso corrobora que a palavra “Venerável” era utilizada, inicialmente, apenas para qualificar a Instituição, segundo afirmam Aslan e Castellani.

Na parte que trata dos Regulamentos Gerais, novamente aparece a designação “Mui Venerável GRÃO-MESTRE MONTAGU, ...”.

O artigo XII, por exemplo, descreve: “A Grande Loja é formada por Mestres e Vigilantes de todas as Lojas regulares e particulares Registradas, ...”.

Observe-se que Anderson refere-se a Mestre para designar o presidente da Loja, e Venerável, para designar a Fraternidade, no caso, a Grande Loja. Ele faz isso em todo o documento, sem exceção.

Aqueles que conhecem o Rito de York, mais especificamente o Ritual de Emulação inglês, encontrarão no Primeiro Grau e também no Ritual de Cerimônia de Instalação, alusões e referências ao Mestre e não Venerável Mestre.

Castellani, em seu Dicionário Etimológico faz a seguinte afirmação: “Em Maçonaria, o termo (Venerável) tem origem inglesa: derivado da palavra inglesa worship, que significa adoração, culto, reverência (como forma de tratamento), quando usada como substantivo, e venerar, idolatrar, adorar, quando usada como verbo transitivo, tem-se o vocábulo Worshipful, que significa adorador, reverente, ou, como forma de tratamento, venerável. Assim, o presidente de uma Loja passou a ser designado como Worshipful Master – normalmente apenas Master – expressão que significa Venerável Mestre e que seria adotada por todos os agrupamentos maçônicos, embora o termo Venerável, de princípio, fosse aplicado apenas às corporações (Venerável Ordem, Venerável Instituição)”.

Dissemos, que a partir de 1725 a palavra Mestre deixou de designar uma função para designar uma dignidade. Segundo Nicola Aslan, a razão dessa denominação, parece ter sido o desejo de fazer uma escolha entre os membros cada vez mais numerosos da associação e de constituir um “high Order of Masonry”, como o grau de Mestre foi algumas vezes denominado. O que quer que fosse, este grau representa uma criação própria da Maçonaria especulativa. Os seus autores que permaneceram desconhecidos, apelaram para todos os recursos de sua imaginação e para uma erudição tão vasta quanto incoerente e produziram um monstro enigmático do qual as pesquisas mais conscienciosas não puderam descobrir a verdadeira origem.

Conclusão

Assim, o cargo de presidente de uma Loja Maçônica, denominado Mestre, assume, inexplicavelmente e erroneamente, a denominação de Venerável Mestre.

Aceitamos que frase Venerável Mestre seja utilizada como um vocativo, ou forma de tratamento, segundo normas e regras gramaticais da língua portuguesa, mas não se pode aceitar que o termo designe um cargo.

Por este motivo, no livro O Rito de York, de minha autoria, denomino o cargo de presidente de uma Loja Maçônica simbólica, como sendo: Mestre da Loja e não Venerável Mestre.

Bibliografia
  • Aslan, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia. Rio de Janeiro: Ed. Artenova, V vol. 1975.
  • Castellani, José. Dicionário de Termos Maçônicos. Londrina: Ed. A Trolha, 2ª ed., 1995. 
  • Castellani, José. Dicionário Etimológico Maçônico. Londrina: Ed. A Trolha, 1990. 
  • Mellor, Alec. Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1989. 
  • Oliynik, Anatoli. O Rito de York. Curitiba: Ed. Vicentina, 1997. Reprodução das Constituições dos Franco-Maçons. 
  • Tradução de João Nery Guimarães. Brasília: Ed. Gráfica do Grande Oriente do Brasil, 1997.
  • Dicionário Eletrônico Aurélio da Língua Portuguesa.
  • Dicionário Eletrônico DIC Michaelis.
Fonte: JBNews - Informativo nº 328 - 22 de Julho de 2011

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