1. O Silêncio como virtude e como prova de caráter
No mundo profano, a palavra frequentemente se torna instrumento de vaidade, de disputa e de entretenimento. Multiplicam-se comentários, suspeitas, “meias verdades” e narrativas que se agigantam à medida que circulam. Porém, ao adentrarmos o Templo, não trazemos apenas o corpo: trazemos hábitos, inclinações e modos de agir que precisam ser retificados à luz da Arte.
Se a Maçonaria nos propõe um caminho distinto, é justamente porque a Loja não deve ser extensão das práticas profanas, mas oficina de disciplina moral, onde se aperfeiçoa o homem para que, no mundo exterior, ele seja presença de equilíbrio e de concórdia.
Nesse sentido, o silêncio não é ausência: é governo. É a capacidade de refrear o impulso, de evitar o juízo precipitado, de impedir que a língua se transforme em lâmina. É, portanto, virtude de alta exigência — e, por isso mesmo, profundamente iniciática.
2. A palavra que constrói e a palavra que divide
Se não podemos falar bem de um Irmão, com honra e verdade, não nos cabe “compensar” com insinuações, nem sustentar conversas de bastidores, nem vestir a maledicência com o manto de um suposto “zelo” pela Ordem. Na prática, aquilo que se diz pelas costas raramente é correção fraterna; quase sempre é ruído, ressentimento ou vaidade.
A correção fraterna, quando necessária, possui natureza distinta: é discreta, direta, responsável e útil. Visa ao bem do Irmão e à harmonia da Oficina; não busca plateia, não circula em rodas, não se converte em espetáculo. Já a maledicência é difusa, corrosiva e estéril. Em vez de fortalecer, enfraquece; em vez de edificar, desagrega.
A Maçonaria ensina Caridade — e Caridade não significa ignorar a realidade, mas não ampliar o mal, não criar escândalo onde não há, não converter fragilidades humanas em instrumento de desunião.
3. Coerência moral: a obrigação assumida livremente
Há um aspecto que merece atenção. Na vida social e profissional, muitos se mostram rigorosos no cumprimento de normas: apresentam-se conforme o traje exigido, cumprem horários, obedecem protocolos, zelam pela reputação, temendo as consequências da negligência.
Entretanto, quando se trata da honra maçônica, por vezes surge uma triste inversão: relativiza-se o dever, flexibiliza-se o compromisso, tolera-se a incoerência. Convém recordar, com sobriedade, que somos nós que buscamos a Ordem. Não fomos compelidos. Pedimos admissão de livre vontade. Fomos advertidos, antes da entrada, quanto às obrigações que assumiríamos. Sendo assim, a fidelidade ao compromisso deve ser natural, não ocasional.
Não se exige perfeição — pois a Maçonaria não opera milagres. Mas é razoável esperar diligência, constância e esforço sincero para viver aquilo que se aprende no Templo. E uma das provas mais evidentes desse esforço está no modo como tratamos o nome e a honra do nosso Irmão.
4. O duplo discurso como ruptura do espírito fraternal
Entre os comportamentos mais nocivos à fraternidade, destaca-se o duplo discurso: aquele que se apresenta cordial na presença do Irmão, mas o diminui na ausência; que sustenta gestos de amizade no salão e distribui suspeitas no corredor; que invoca “zelo” enquanto promove divisão.
Esse comportamento fere diretamente a harmonia da Oficina. Porque a Loja se sustenta não apenas por ritual e forma, mas por confiança e retidão. E a confiança não sobrevive quando a palavra perde o compromisso com a verdade e com a caridade.
Por isso, este ensinamento permanece atual e indispensável:
- Se pudermos falar bem, falemos com justiça e verdade.
- Se não pudermos falar bem, calemos com dignidade e prudência.
5. Conclusão: que o escândalo fique aos portais do Templo
Meus Irmãos, se desejamos uma Maçonaria forte, precisamos de Oficinas em que a harmonia não seja apenas um termo do ritual, mas uma prática constante: verdade com prudência; fraternidade com responsabilidade; e silêncio quando o silêncio é dever.
Que deixemos o escândalo do lado de fora — aos portais do Templo. Aqui dentro, não há lugar para o fomentador de intrigas, para o mensageiro do “disse-me disse”, para a língua que não edifica.
Ou cultivamos uma língua de boa fama, capaz de reconhecer virtudes e preservar a dignidade do Irmão; ou, na ausência disso, adotamos o silêncio honroso, que protege a harmonia e revela domínio de si.
Que o Grande Arquiteto do Universo nos conceda firmeza para vigiar a palavra, humildade para corrigir nossos impulsos e sabedoria para escolher o silêncio sempre que ele for a expressão mais elevada da honra.
Assim seja.
Nota
Este é uma adaptação do texto Silence, Or A Tongue Of Good Report, publicado originalmente nas The Freemason’s Chronicle, em 17 de março de 1877.
Fonte: The Square Magazine
*A tradução e adaptação do exto original foram realizadas com o auxilio de IA.
Nenhum comentário:
Postar um comentário