Outro dia me peguei pensando em uma contradição curiosa que vive rondando os corredores da Maçonaria.
Escuto frequentemente irmãos dizendo, com certo zelo, que a ordem é discreta, que guarda segredos antigos, que certos assuntos não devem ser levados para fora do templo. Alguns até vigiam com atenção quem escreve alguma lembrança, quem comenta uma experiência ou quem ousa refletir publicamente sobre algo vivido dentro da fraternidade.
Até aí, compreensível. A tradição sempre valorizou o silêncio como forma de respeito ao rito e ao simbolismo.
Mas então acontece uma cena curiosa nas ruas da cidade.
O mesmo irmão que defende a discrição estaciona o carro, e lá está ele: um grande esquadro e compasso colado no vidro traseiro, às vezes acompanhado de um adesivo “tamanho família”. O símbolo viaja pela avenida, passa pelo semáforo, entra no estacionamento do mercado e desfila pela cidade inteira anunciando silenciosamente:
— “Aqui vai um maçom.”
E eu confesso que isso sempre me fez pensar.
Não porque o símbolo seja proibido, ele nunca foi segredo. O esquadro e compasso é um emblema antigo e conhecido, parte da identidade pública da ordem. Mas a pergunta que surge não é sobre o símbolo.
É sobre a intenção.
Porque existe uma diferença muito grande entre guardar um segredo e exibir uma pertença.
Enquanto alguns escrevem discretamente sobre aquilo que sentiram numa iniciação, muitas vezes depois de vinte ou trinta anos de reflexão, outros preferem anunciar sua condição de maçom para qualquer motorista que esteja atrás no trânsito.
A vida humana tem dessas ironias.
Uma vez prof Ariel Pires (in memorian) me disse:
— O segredo que deveria estar guardado no coração às vezes vira adesivo no vidro.
E a experiência que deveria ser compartilhada com sabedoria às vezes é tratada como se fosse um crime.
Talvez porque a verdadeira discrição não esteja no silêncio forçado, mas na intenção que carregamos.
Os antigos símbolos da maçonaria sempre ensinaram que o esquadro representa a retidão do caráter e o compasso o domínio das paixões. Nenhum deles foi criado para medir o tamanho do ego.
No fundo, o verdadeiro sinal de um maçom não deveria estar no carro, no anel ou na lapela.
Deveria estar na forma como ele caminha pelo mundo.
Porque o maior segredo da maçonaria, aquele que nenhum ritual consegue esconder e nenhum adesivo consegue revelar, é simples: o homem que realmente aprende alguma coisa dentro do templo não precisa anunciar isso para ninguém.
O mundo acaba percebendo sozinho.
José
Fonte: Facebook_José Cantos
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