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PERGUNTAS & RESPOSTAS

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sábado, 6 de junho de 2026

LONDRES: O INCÊNDIO DE 1666

Autor: Maurício da Cunha Müller(*)

Era um verão seco e com ventos fortes quando, na madrugada de 2 de setembro de 1666, um incêndio iniciado em uma padaria na Pudding Lane se alastrou rapidamente pela cidade de Londres. As ruas eram estreitas e as casas de madeira. O fogo, que durou até o dia 5 de setembro, consumiu cerca de 13.200 casas, 87 igrejas — incluindo a antiga Catedral de São Paulo — e deixou aproximadamente 100 mil pessoas desabrigadas (HANSON, 2001; PORTER, 1994). Os registros de Samuel Pepys evidenciam a dimensão do desastre e a urgência das medidas adotadas para sua contenção (PEPYS, 1666).

A destruição causada pelo Grande Incêndio de Londres comprometeu profundamente a infraestrutura urbana, habitacional e religiosa da cidade, exigindo uma resposta estatal imediata e coordenada (PORTER, 1994). Nesse contexto, o Parlamento inglês promulgou o Rebuilding of London Act, estabelecendo diretrizes para a reconstrução da cidade. O diploma legal previa, entre outras medidas, a padronização do uso de materiais mais resistentes ao fogo, como pedra e tijolo, além da reorganização do traçado urbano, com ampliação de vias públicas e maior ordenamento espacial (REBUILDING OF LONDON ACT, 1667; PORTER, 1994).

O referido ato também incluiu disposições que flexibilizavam, ainda que de forma controlada, a atuação de trabalhadores não vinculados às corporações locais (guildas), permitindo que carpinteiros, pedreiros e demais artesãos oriundos de outras cidades participassem das obras de reconstrução. Tal medida ampliou a disponibilidade de mão de obra e atendeu à necessidade urgente de reconstrução, sem, contudo, extinguir a estrutura corporativa tradicional, sendo interpretada pela historiografia como uma adaptação pragmática diante da emergência urbana (REBUILDING OF LONDON ACT, 1667; PORTER, 1994).

Sob a autoridade do Rei Charles II e coordenação do exímio e reconhecido construtor Christopher Wren, a reedificação de Londres foi conduzida com base em novos parâmetros urbanísticos e de segurança populacional. Embora o conjunto dessas medidas não trate explicitamente de maçonaria ou de associações iniciáticas, seu impacto sobre as dinâmicas de trabalho e organização dos ofícios é reconhecido pela historiografia como parte de um processo mais amplo de transformação social e urbana (JACOB, 2007; PORTER, 1994).

Nesse cenário, a ampliação da mobilidade de trabalhadores e a necessidade de colaboração entre diferentes agentes do ofício podem ser interpretadas como fatores que talvez tenham favorecidos a comunhão de técnicas e experiências profissionais. Não há evidência documental direta de que tais interações entre guildas tenham resultado, de forma imediata ou estruturada, em transformações institucionais nas organizações de ofício ou em práticas iniciáticas específicas, sendo essa conexão tratada com cautela por historiadores da maçonaria (GOULD, 1904; STEVENSON, 1988).

A historiografia indica que o processo de transição das antigas corporações operativas para formas associativas de caráter especulativo ocorreu de maneira gradual e multifatorial, especialmente entre os séculos XVII e início do XVIII, envolvendo mudanças sociais, econômicas e intelectuais mais amplas (STEVENSON, 1988; JACOB, 2007).

No século XVII, com o declínio das construções em pedra e o avanço das técnicas construtivas arquitetônicas, a demanda por grandes obras — como igrejas, fortalezas e catedrais — reduziu-se substancialmente. Conforme Strong Man Lodge (2025), “o declínio da construção em pedra no final da Idade Média provocou a queda gradual do ofício de pedreiro e das lojas operativas, fragilizando o modelo estrito de guilda operativa”, interpretação que encontra respaldo indireto em estudos clássicos sobre a evolução das corporações de ofício (FINDEL, 1865; GOULD, 1904).

Estudos como os de David Stevenson e Margaret Jacob apontam que tal transformação esteve relacionada a mudanças mais amplas no contexto social, intelectual e cultural, incluindo o desenvolvimento de novas formas de sociabilidade urbana e o ambiente intelectual que culminaria no Iluminismo (STEVENSON, 1988; JACOB, 2007).

Dentro desse contexto de mudanças, ocorreu, em 24 de junho de 1717, uma reunião na taverna Goose and Gridiron (Ganso e Grelha), em Londres, local onde quatro lojas londrinas se reuniram para eleger Anthony Sayer como o primeiro Grão-Mestre. Esse evento é convencionalmente associado à fundação da Grande Loja de Londres, considerada um marco na organização institucional da maçonaria moderna (ANDERSON, 1723; JACOB & CROW, 2014).

As quatro lojas envolvidas, tradicionalmente identificadas por seus locais de reunião, eram: a Goose and Gridiron (Ganso e Grelha), a Crown (A Coroa), a Apple Tree (A Macieira) e a Rummer and Grapes (A Taça e as Uvas). Essas lojas já operavam de forma independente antes dessa data. Embora fontes maçônicas clássicas apontem que as composições sociais eram variadas entre elas, tais interpretações derivam principalmente de tradições internas e obras de caráter não acadêmico, não havendo documentação suficiente para estabelecer, com precisão, o perfil detalhado de seus membros ou a natureza exata de suas práticas internas nesse período (GOULD, 1904; MACKEY, 1914; COIL, 1961).

A reunião de 1717 é interpretada pela historiografia como um processo de formalização organizacional, e não como uma ruptura abrupta com o passado operativo. Nesse sentido, a transição da maçonaria operativa para a especulativa deve ser compreendida como um fenômeno progressivo, no qual elementos simbólicos e tradições associadas aos ofícios foram reinterpretados em um novo contexto social, voltado à construção moral e à sociabilidade entre seus membros (STEVENSON, 1988; JACOB, 2007).

Dessa forma, embora não seja possível estabelecer um nexo causal direto entre a reconstrução de Londres após o incêndio de 1666 e a formação da maçonaria especulativa, o contexto do pós-incêndio — caracterizado por intensa atividade construtiva, maior circulação de trabalhadores e reorganização das práticas urbanas — pode ser considerado ambiente fértil entre os diversos fatores histórico no qual tais transformações ocorreram.

Assim, finalizando, o Grande Incêndio de Londres, além de sua relevância como tragédia urbana de grandes proporções, e de evolução construtiva, pode ser compreendido como parte importante do contexto histórico mais amplo que antecede a consolidação da maçonaria moderna. Sua influência, no entanto, deve ser interpretada com cautela reflexiva e não como um fator determinante ou catalisador direto único da transição entre formas operativas e especulativas.

Referências:

ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. Londres: William Hunter, 1723. Disponível em: https://www.constitution.org/mas/anderson1723.htm

COIL, Henry Wilson. Coil’s Masonic Encyclopedia. Nova York: Macoy Publishing, 1961. Disponível em: https://archive.org/details/coilsmasonicency0000coil

FINDEL, Joseph Gabriel. History of Freemasonry from its Rise Down to the Present Day. Londres: Asher & Co., 1865. Disponível em: https://archive.org/details/historyfreemaso00findgoog

GOULD, Robert Freke. A Concise History of Freemasonry. Nova York: Macoy Publishing, 1904. Disponível em: https://archive.org/details/cu31924030281459

HANSON, Neil. The Dreadful Judgement: The True Story of the Great Fire of London. London: Doubleday, 2001

INGLATERRA. Parlamento. An Act for Rebuilding the City of London. 1667. Disponível em: https://www.morrlaw.com/wp-content/uploads/partywall/rebuilding-of-london-act-1666.pdf

JACOB, Margaret C. The Origins of Freemasonry: Facts and Fictions. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2007

JACOB, Margaret C.; CROW, Matthew. Freemasonry and the Enlightenment. In: Handbook of Freemasonry. Leiden: Brill, 2014

MACKEY, Albert G. An Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences. Nova York: The Masonic History Company, 1914. Disponível em: https://archive.org/details/encyclopaediaof01mack

NEWTON, Joseph Fort. The Builders: A Story and Study of Masonry. Cedar Rapids: Torch Press, 1914. Disponível em: https://archive.org/details/buildersstorystu00newt

PEPYS, Samuel. The Diary of Samuel Pepys. 1666. Disponível em: https://www.pepysdiary.com

PICK, Fred L.; KNIGHT, G. Norman. The Pocket History of Freemasonry. Londres: Frederick Muller Ltd., 1953

PORTER, Roy. London: A Social History. Cambridge: Harvard University Press, 1994

STEVENSON, David. The Origins of Freemasonry: Scotland’s Century, 1590–1710. Cambridge: Cambridge University Press, 1988

STRONG MAN LODGE. Nossos primeiros dias. 2025. Disponível em: https://www.strongmanlodge.org.uk/history/.

* Maurício é Aprendiz Maçom na loja União Fraternal 318 na cidade de Cachoeira do Sul – RS, GOB – GORGS – REAA.

Fonte: opontodentrodocirculo.wordpress.com

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